Ler o Gênesis depois de conhecer sua história é enfrentar um problema que acompanha todas as coisas antigas: como devolver o espanto ao que a repetição transformou em evidência?



Abrimos as primeiras páginas do Gênesis carregando imagens adquiridas antes mesmo de aprendermos a ler: a escuridão sobre as águas, a palavra que convoca a luz, o barro recebendo o sopro, a mulher retirada do corpo do homem, a árvore, a serpente, a expulsão. Conhecemos a sequência, antecipamos as consequências e trazemos preparada alguma opinião sobre cada episódio. Poucas leituras começam tão sobrecarregadas de leituras anteriores. A tradição familiar, a catequese, a pintura, a música, o cinema, a publicidade e as disputas políticas chegaram antes de nós ao texto. Quando finalmente abrimos o livro, Adão e Eva já atravessaram séculos de interpretações e nos esperam vestidos com as roupas que outras épocas confeccionaram para eles.

A familiaridade produz uma forma particular de cegueira. Diante de uma história inteiramente nova, prestamos atenção aos detalhes porque desconhecemos o caminho. Diante da Criação, caminhamos com a segurança distraída de quem retorna a uma casa conhecida. Sabemos que a luz aparecerá, que as águas serão separadas, que a terra produzirá plantas e que os animais ocuparão o céu, o mar e o solo. O mundo, entretanto, ainda está informe dentro da narrativa. O leitor conhece o resultado; o texto permanece por alguns instantes diante de um abismo. Recuperar a força do Gênesis exige retardar o conhecimento, suspender a memória e sentir novamente o desconforto daquele começo: a terra sem forma, a escuridão sobre a superfície das águas e um sopro que paira sobre o caos antes que exista qualquer ser humano para testemunhá-lo.

Todos os anos, em Simchá Torá, as comunidades judaicas concluem o ciclo de leitura da Torá e recomeçam imediatamente. Moisés morre às portas da terra prometida; pouco depois, Deus cria os céus e a terra. Entre a última palavra do Deuteronômio e a primeira do Gênesis, cabe apenas o intervalo necessário para que o fim volte a ser começo. A repetição anual poderia parecer um método destinado a fixar o conteúdo na memória. Seu efeito mais profundo segue na direção contrária: cada retorno desfaz a ilusão de que o texto já foi possuído. A Torá permanece a mesma sobre o pergaminho, enquanto os leitores chegam a ela com novos mortos, outros filhos, culpas recentes, perdas que ainda desconheciam no ciclo anterior. Repetir a leitura significa medir a distância entre a pessoa que abre o livro agora e aquela que o abriu um ano antes.

Por isso o verdadeiro desafio das coisas conhecidas é realizar a primeira leitura outra vez. O problema alcança a literatura, os afetos e os lugares onde vivemos. Depois de algum tempo, deixamos de olhar a rua em que moramos, o rosto que acorda ao nosso lado, as mãos de nossos pais, a paisagem observada todos os dias pela janela. A convivência substitui o espanto por uma administração de presenças. Sabemos onde cada objeto está e, justamente por sabê-lo, já não o vemos. A leitura ritual tenta combater essa erosão. Voltar ao início do Gênesis equivale a entrar na própria casa como um estrangeiro, atento ao rangido da porta, à disposição dos móveis e à estranha intimidade de tudo aquilo que um dia também vimos pela primeira vez.

O esforço se torna ainda maior porque as imagens bíblicas foram domesticadas. A Criação aparece em livros infantis como uma sucessão pacífica de tarefas cumpridas por uma divindade organizada: luz no primeiro dia, firmamento no segundo, vegetação no terceiro. A semana divina tornou-se precursora dos calendários de produtividade. Essa serenidade encobre o caráter radical do relato. O Gênesis nasceu num mundo povoado por mitologias imperiais. Na narrativa babilônica conhecida como Enuma Elish, a ordem cósmica decorre de uma guerra entre divindades. Marduk vence Tiamat, divide seu corpo e, com os restos da derrotada, organiza o universo. Os seres humanos surgem do sangue de uma divindade rebelde para executar o trabalho de que os deuses desejavam se livrar. O cosmos possui a estrutura de um império: nasce da vitória, distribui posições hierárquicas e converte os fracos em servidores dos fortes.

Diante dessa imaginação política, a economia verbal do Gênesis adquire força. Deus dispensa exércitos e genealogias divinas. Ele fala. “Haja luz”, e a luz passa a existir. O mundo nasce da linguagem antes de nascer do combate. O texto substitui o cadáver de uma deusa pela palavra e desloca a origem do poder: a criação decorre de um ato de vontade, recebe uma ordem e é submetida a um julgamento moral. Ao final de cada etapa, Deus vê que aquilo é bom. O adjetivo parece simples porque se tornou familiar. Dentro das culturas que associavam autoridade à capacidade de vencer, declarar a bondade como medida da Criação representava uma intervenção filosófica. O mundo recebe valor antes de receber preço, proprietário ou rei.

O primeiro capítulo culmina numa afirmação cujo alcance político cresceu muito além da intenção de seus redatores. O ser humano é criado à imagem de Deus. Nas sociedades do antigo Oriente Próximo, reis podiam ser apresentados como representantes ou imagens da divindade. O Gênesis estende essa dignidade ao humano: homem e mulher aparecem juntos no verso e recebem domínio sobre os animais. O texto menciona os peixes, as aves e as criaturas que se movem sobre a terra; deixa de conceder ao ser humano domínio sobre outro ser humano. Uma prerrogativa real é espalhada pela espécie. O gesto dura poucas linhas, embora contenha uma carga explosiva: se cada pessoa carrega a imagem divina, a dignidade deixa de ser monopólio do palácio.

Essa afirmação atravessou séculos até participar do vocabulário com que pensamos igualdade e direitos. A trajetória esteve longe de ser direta. Sociedades formadas pela Bíblia conviveram com escravidão, patriarcado, colonialismo, perseguição religiosa e hierarquias de nascimento. Leitores encontraram nas mesmas páginas argumentos para reconhecer a humanidade do estrangeiro e justificativas para conquistá-lo. A ideia de que todos carregam a imagem de Deus produziu uma semente de igualdade; a história revela quanto tempo uma semente pode permanecer soterrada e quantas vezes seus próprios guardiões preferem impedir que ela germine.

Ainda assim, convém perguntar de onde retiramos a convicção de que os seres humanos são iguais. A observação empírica revela diferenças de força, saúde, inteligência, aparência, temperamento, riqueza e poder. Nenhum microscópio encontra a igualdade alojada dentro da célula. A genética descreve variações, parentescos e heranças; por si só, ela permanece incapaz de transformar essas diferenças em uma escala legítima de valor humano. Sempre que uma sociedade quis converter desigualdade em destino, convocou algum saber para apresentar a violência como natureza. A frenologia, o racismo científico, a eugenia e certas interpretações do darwinismo social ofereceram às hierarquias modernas a respeitabilidade de um laboratório. A conclusão costumava preceder a pesquisa: os vencedores desejavam descobrir que a vitória estava escrita no corpo dos vencidos.

As ciências sociais produziram outra espécie de desconforto ao demonstrar a força das estruturas sobre nossas escolhas. Nascemos dentro de uma língua que recebemos pronta, de uma classe social que distribui possibilidades, de instituições que moldam desejos e de uma história que começou muito antes de nossa chegada. Aquilo que chamamos de decisão individual frequentemente carrega marcas de processos coletivos que mal percebemos. A liberdade, examinada de perto, parece menor do que a experiência interior nos faz supor. Entretanto, a descrição dos condicionamentos ainda deixa aberta a questão moral. Conhecer as causas que nos formam pode ampliar a capacidade de agir sobre elas. A liberdade talvez comece menos na ausência de limites do que no instante em que reconhecemos quais forças tentam decidir em nosso lugar.

O Gênesis participa dessa disputa ao imaginar seres humanos vinculados a um Deus que cria por liberdade. A imagem divina confere dignidade e também responsabilidade. O humano recebe poder sobre a terra e, quase imediatamente, demonstra sua incapacidade de exercê-lo. Adão culpa a mulher; Caim mata o irmão; Lameque transforma a violência em canção; a geração do dilúvio enche o mundo de crueldade; os construtores de Babel procuram erguer uma cidade e um nome capazes de impedir sua dispersão. A Bíblia deposita uma promessa elevada sobre criaturas que se mostram repetidamente inferiores a ela. Sua antropologia nasce dessa fratura: carregamos a imagem de Deus e as mãos de Caim.

Se a imagem divina permanecesse evidente em todos os atos, reconhecê-la exigiria pouco esforço. O mandamento moral começa quando o outro se apresenta desfigurado por sua pobreza, sua hostilidade, seu estrangeirismo ou pelo crime que praticou. Caim recebe uma marca que o protege depois do assassinato de Abel. O homicida é condenado a vagar e, ao mesmo tempo, preservado da vingança. O texto recusa a pureza das soluções simples. A vida de quem destruiu uma vida continua protegida por uma proibição. A dignidade aparece, então, como aquilo que o comportamento humano pode obscurecer sem conseguir eliminar inteiramente.

Essa complexidade ajuda a compreender por que a Bíblia reserva tanto espaço ao protesto. Abraão recebe uma promessa divina e, alguns capítulos depois, interpela o próprio Deus diante da ameaça contra Sodoma: “Não fará justiça o juiz de toda a terra?” A frase é espantosa. O patriarca utiliza a ideia de justiça recebida de Deus para julgar uma decisão divina. Sara escuta a promessa de que dará à luz na velhice e ri dentro da tenda. Moisés apresenta desculpas, questiona a missão e, durante a travessia do deserto, enfrenta várias vezes aquele que o convocou. Jeremias acusa Deus de tê-lo seduzido. Jonas foge porque compreende que a misericórdia divina poderá alcançar seus inimigos. Jó recusa as explicações teológicas oferecidas pelos amigos e exige que o criador responda pelo sofrimento de sua criatura.

A fé bíblica, vista por esse ângulo, assemelha-se a uma relação capaz de suportar a pergunta. Abraham Joshua Heschel advertia contra a submissão mecânica ao texto. As palavras proféticas foram entregues para ser compreendidas, tarefa que exige um espírito disposto a crescer com elas, rezar com elas e lutar com elas. A reverência que impede a interrogação reduz a Bíblia a um objeto cerimonial. Preserva sua superfície e impede que sua voz alcance o presente. Um livro sagrado pode morrer pelo abandono; também pode morrer sob a proteção de leitores que o repetem sem permitir que ele os contradiga.

A própria composição da Torá parece ensinar esse modo inquieto de ler. O primeiro capítulo do Gênesis apresenta uma criação organizada em sete dias. A humanidade, masculina e feminina, aparece simultaneamente e recebe uma bênção. No capítulo seguinte, a narrativa muda de ritmo, vocabulário e sequência. Um homem é formado do pó, um jardim é plantado, os animais são apresentados e a mulher surge depois, a partir do lado do homem. Séculos de interpretação tentaram harmonizar os dois relatos. Talvez a tensão entre eles possua um valor maior do que a harmonia procurada.

Também Caim, apresentado como filho do primeiro casal, teme ser morto por pessoas cuja origem a narrativa deixou de contar. Ele encontra uma mulher, constrói uma cidade e dá a ela o nome do filho. O leitor dedicado à cronologia pergunta de onde vieram os habitantes desse mundo. O narrador segue adiante. As lacunas acumulam-se. Deus parece arrepender-se de ter criado a humanidade antes do dilúvio, apesar da imagem posterior de uma divindade que conhece o futuro. Noé leva para a arca um par de cada animal e, em outra passagem, sete pares dos animais puros. José é vendido aos ismaelitas e aos midianitas dentro do mesmo episódio. Moisés recebe diferentes relatos de sua vocação. A Torá preserva costuras que uma revisão orientada pela coerência poderia ter escondido.

A explicação histórica mais plausível remete a um longo trabalho de composição. Narrativas circularam oralmente, tradições distintas foram registradas, leis de épocas diferentes foram reunidas e editores trabalharam sobre esse material durante séculos, com papel decisivo atribuído por muitos estudiosos ao período do exílio e do pós-exílio babilônico. A imagem da colcha de retalhos ajuda até certo ponto. Uma colcha resulta de fragmentos costurados; a escolha dos retalhos, sua disposição e a decisão de conservar suas diferenças pertencem ao desenho.

Os editores antigos certamente percebiam algumas das incongruências mais evidentes. Precisamos de grande arrogância para imaginar que contradições identificadas em poucos minutos por um leitor moderno escaparam a pessoas que dedicaram a vida à transmissão daqueles textos. Se mantiveram relatos diferentes da Criação, talvez enxergassem na verdade algo maior do que a uniformidade. Um único relato poderia converter-se numa janela; dois relatos funcionam como um prisma. A luz entra e se divide. Cada versão torna visíveis aspectos que a outra deixa na sombra.

Isso altera a pergunta dirigida à Bíblia. Em vez de perguntar apenas qual relato aconteceu, podemos perguntar por que uma comunidade decidiu conservar ambos. O primeiro capítulo imagina uma ordem cósmica, ritmada pela palavra e culminando no descanso. O segundo se aproxima do chão, da solidão, do desejo e da descoberta do outro. Em um, o ser humano recebe uma posição no universo; no outro, desperta dentro de um jardim e aprende que a existência solitária é insuficiente. A divergência formal produz uma ampliação da experiência. Cada narrativa corrige a pretensão de totalidade da outra.

A contradição torna-se, assim, parte do método. A Torá exige um leitor diferente daquele que procura somente recolher informações. Sua verdade surge na tensão entre mandamentos, histórias, silêncios e interpretações. Ler significa aproximar passagens, perceber atritos e suportar por algum tempo a ausência de solução. Essa tradição de leitura gerou páginas em que comentadores separados por séculos aparecem lado a lado, cada qual iluminando uma faceta e questionando a anterior. O texto ocupa o centro; ao redor dele, a inteligência coletiva transforma fidelidade em discussão.

Alguns capítulos depois, o Gênesis oferece uma imagem física desse trabalho. Jacó retorna à terra de onde fugira e sabe que encontrará Esaú, o irmão enganado. Durante a noite, sozinho junto ao rio Jaboque, luta com um adversário que permanece sem identificação clara. Homem, anjo, Deus, medo, memória: o texto abre um espaço que as interpretações jamais conseguiram fechar. A luta prossegue até o amanhecer. Jacó recebe um golpe na articulação da coxa, exige uma bênção e ganha outro nome: Israel, aquele que luta com Deus.

A cena contém uma teoria da leitura. Jacó sai ferido e abençoado. A bênção vem através do combate; a revelação deixa uma marca no corpo. Israel torna-se o nome de um homem, de um povo, de uma terra, de um reino e, muitos séculos depois, de um Estado atravessado por conflitos que também exigem crítica moral e responsabilidade histórica. Transformar o nome bíblico numa autorização automática para qualquer projeto humano seria trair justamente a luta contida em sua origem. O nome impõe uma tarefa: enfrentar Deus, o texto, a memória e o poder exercido em nome deles.

É por isso que a Torá termina e recomeça todos os anos. Uma leitura definitiva encerraria a luta. O retorno oferece ao leitor outra ocasião para examinar aquilo que julgava resolvido e descobrir que ele próprio se tornou parte do problema. Voltar ao Gênesis significa perguntar de novo o que entendemos por dignidade enquanto aceitamos vidas tratadas como descartáveis; o que significa domínio sobre a terra durante uma crise ambiental; o que resta da igualdade em sociedades organizadas para converter riqueza em privilégio hereditário; que espécie de liberdade sobrevive quando algoritmos aprendem nossos desejos e passam a antecipá-los.

As palavras antigas recebem perguntas que seus primeiros redatores jamais formularam nesses termos. Ainda assim, o texto conserva a capacidade de nos interrogar porque nasceu da experiência de pessoas que viveram à sombra de forças maiores do que elas. Impérios sempre se consideram naturais. Suas hierarquias parecem inscritas na ordem das coisas; seus vencedores confundem poder com mérito; suas narrativas apresentam submissão como destino. O Gênesis responde com uma voz quase desarmada: o mundo surgiu pela palavra, sua medida é a bondade e cada ser humano carrega uma imagem que nenhum rei possui em grau superior.

Fechei o livro e percebi que a história da Criação continuava exatamente onde sempre estivera. A mudança ocorrera do lado de fora da página. A luz voltou a aparecer, embora já não fosse a mesma luz lida na infância. Trazia consigo o corpo dividido de Tiamat, as cidades da Babilônia, escribas exilados, comentários acumulados e milhões de leitores que haviam pronunciado aquelas palavras antes de mim. O texto antigo adquiria novidade porque sua antiguidade começava finalmente a se tornar visível.

No próximo ciclo, retornaremos outra vez ao princípio. Conheceremos a história, lembraremos as contradições e talvez cheguemos com interpretações ainda mais firmes. Será preciso atravessar essa segurança para alcançar as águas escuras que antecedem a primeira palavra. Ali, por um instante, o mundo ainda aguarda uma forma. O sopro paira sobre o abismo, a luz permanece por nascer e cada criatura humana ainda está prestes a receber uma dignidade que a História passará milênios tentando negar. Então alguém abrirá o rolo e lerá: “No princípio”. A primeira tarefa será escutar como se ninguém tivesse dito aquilo antes.



Outro dia, enquanto fazia uma matéria, fui apresentado a um garoto de 14 anos que me disse sonhar em ser jornalista. Sua mãe, que apresentava o filho toda orgulhosa, queria saber se eu teria alguma sugestão para a futura carreira do moleque. O garoto permanecia ao lado dela, um pouco constrangido com a exposição, mas atento ao que eu responderia.

Em outra época, eu teria ficado lisonjeado. Esse tempo passou. Talvez eu até dissesse alguma coisa sobre a importância da profissão, a busca pela verdade, o compromisso com a sociedade e outras ideias que aprendemos a repetir quando ainda acreditamos que o jornalismo possui um lugar claramente definido no mundo. Dentro da minha pequena experiência, sei o quanto está difícil conseguir emprego no ramo. Trabalhos como freelancer funcionam como paliativos, mas até esses têm se tornado cada vez mais raros e mal remunerados.

Não duvido de que algumas pessoas ainda consigam manter-se apenas com os ganhos da profissão. Isso, no entanto, não tem sido verdade para mim. As redações encolheram, muitos jornais desapareceram e boa parte do trabalho migrou para a internet sem que surgisse um modelo capaz de remunerar adequadamente quem o realiza. Exige-se do jornalista que escreva, fotografe, grave, edite, publique e divulgue. Algumas vezes, espera-se que faça tudo isso sozinho, depressa e por um valor que mal corresponde a uma das tarefas.

A internet ampliou os espaços de publicação, mas também apagou algumas fronteiras. Um texto apurado durante dias aparece na mesma tela em que circulam boatos, anúncios disfarçados de notícia, opiniões escritas às pressas e postagens produzidas apenas para disputar a atenção do leitor. Alguns jornalistas conseguem viver da produção de conteúdo digital, embora nem sempre aquilo que produzem possa ser chamado de jornalismo. Outros acumulam empregos, prestam assessoria, dão aulas ou trabalham em áreas completamente diferentes para continuar escrevendo quando sobra algum tempo.

Diante de uma situação como essa, o que eu poderia dizer àquele garoto ou à sua mãe? Permaneci calado por alguns segundos. Passei a mão pelo celular, conferi a tela sem que houvesse nada para conferir e tentei organizar uma resposta. Os dois me observavam como se a experiência tivesse me ensinado alguma coisa que pudesse ser transmitida ali, em poucas palavras. Eu não sabia o que dizer.

Os cursos de jornalismo continuam recebendo alunos Brasil afora, embora o diploma já não seja exigido e a formação universitária esteja longe de garantir emprego. Um bacharelado, sozinho, significa muito pouco. A universidade pode ensinar técnicas, apresentar referências, proporcionar contatos e oferecer alguma compreensão histórica e ética da profissão. Não pode, entretanto, prometer que haverá uma redação esperando pelo estudante ao final do curso.

Também não basta escrever bem. É preciso conhecer pessoas, encontrar oportunidades, aprender a trabalhar com diferentes linguagens e, cada vez mais, saber criar o próprio espaço de atuação. A antiga ideia de entrar em um jornal, subir lentamente na carreira e permanecer ali durante décadas pertence a um tipo de mercado que praticamente desapareceu. Mesmo quem consegue uma vaga sabe que poderá perdê-la na próxima redução de custos.

A mãe continuava esperando. O garoto também. Eu tinha diante de mim alguém que ainda podia imaginar a profissão sem conhecer suas humilhações, seus salários atrasados, suas jornadas intermináveis e a quantidade de vezes em que o trabalho de uma semana termina publicado sem assinatura ou reduzido a algumas linhas. Pensei em dizer que procurasse outra coisa. Seria, porém, uma resposta covarde. Eu estaria convertendo as minhas frustrações em destino para alguém que mal começara a formar seus desejos.

Pensei então em falar sobre vocação, mas já não confio inteiramente nessa palavra. Chamamos de vocação aquilo que muitas vezes é apenas insistência, necessidade ou incapacidade de abandonar uma atividade que se tornou parte de nós. Há quem possua talento e desista. Há quem permaneça por teimosia. Há também quem descubra muito tarde que amava escrever, mas nunca gostou do jornalismo.

Respirei fundo e respondi:

— Você deve criar um blog o mais rápido possível. Publique com frequência, tente escrever textos mais longos e não espere que alguém mande você escrever. Entreviste pessoas, conte histórias do lugar onde vive, acompanhe as decisões da prefeitura, vá às reuniões da comunidade e preste atenção ao que acontece perto de você. Isso vai ajudá-lo a amadurecer a escrita e lhe dará alguma dimensão do que significa procurar uma informação, conferir o que ouviu e enfrentar a página todos os dias. Se chegar aos 18 anos ainda querendo fazer isso, ao menos saberá que não gosta apenas da imagem do jornalista. Durante esse período, também poderá conhecer melhor o ambiente digital e descobrir se existe alguma maneira de tornar o seu trabalho comercialmente viável.

Enquanto falava, comecei a desconfiar da segurança da minha própria voz. Eu organizava as frases devagar, acrescentando uma recomendação depois da outra, como se o acúmulo de conselhos pudesse esconder a ausência de uma resposta verdadeira. O garoto ouvia em silêncio. A mãe concordava com a cabeça. Quanto mais atenção me davam, mais difícil se tornava interromper aquele pequeno discurso.

O conselho talvez não fosse ruim. Criar um blog, escrever com frequência, entrevistar pessoas e conhecer o lugar onde se vive eram recomendações razoáveis. Eu mesmo gostaria de ter começado mais cedo. Aos 18 anos, o garoto poderia possuir um arquivo considerável de textos, alguma disciplina e uma compreensão menos fantasiosa do trabalho. Talvez descobrisse que queria ser jornalista. Talvez descobrisse justamente o contrário. Em ambos os casos, teria aprendido alguma coisa.

Ainda assim, eu sabia que havia respondido menos para orientá-lo do que para não decepcionar sua mãe e preservar, diante dos dois, a aparência de alguém que conhecia a profissão. Eles não haviam me pedido uma previsão sobre o futuro do jornalismo. Queriam apenas uma frase capaz de confirmar que o sonho do garoto fazia sentido. Eu poderia ter admitido que não sabia. Poderia ter dito que nenhuma experiência profissional nos concede autoridade para decidir o que outra pessoa deve fazer com a própria vida. Em vez disso, improvisei uma pequena lição.

A mãe me agradeceu, apertou minha mão e seguiu com o filho. O garoto se despediu com um sorriso tímido, talvez satisfeito por ter recebido uma tarefa concreta. Por alguns instantes, imaginei que ele realmente criaria o blog. Imaginei também que, dentro de alguns anos, pudesse recordar aquela conversa e concluir que eu estava errado sobre quase tudo.

Fiquei olhando enquanto eles se distanciavam. Sentia-me um embusteiro. Aquele tipo de idiota que diz qualquer coisa que pareça inteligente por medo de admitir que não tem resposta.

José Craveirinha acompanhou, em sua poesia, a luta contra o domínio português, a fundação de Moçambique e as feridas deixadas pela guerra civil.

Em “Quero ser tambor”, José Craveirinha pede ao “velho Deus dos homens” que lhe conceda uma voz. Para fazer soar a tradição de sua terra, o poeta dirige-se à divindade trazida pelos mesmos homens que ajudaram a silenciá-la. O tambor grita, sangra, atravessa a noite da Mafalala e espera a “grande festa do batuque”. Sua pele foi curtida ao sol moçambicano; seu corpo veio dos troncos duros da terra. Quando o sujeito poético deseja assumir a forma do instrumento, aproxima seu próprio corpo da memória coletiva. O som perseguido pelo poema pertence às pessoas submetidas ao colonialismo e aos costumes que sobreviveram dentro das casas, nos bairros suburbanos, nas cerimônias familiares e nas línguas afastadas dos espaços de poder. A construção poética de Moçambique começa nesse gesto de recuperar uma voz.

Craveirinha escreveu durante o domínio português, participou da mobilização pela independência, sofreu a repressão da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, assistiu à proclamação da República e viveu os anos da guerra civil. Cada período alterou o vocabulário de sua esperança. O tambor que desejava romper o silêncio colonial seria acompanhado pelos nomes africanos, pelas multidões que respondiam “SIA-VUMA”, pelas críticas dirigidas aos funcionários do novo Estado e pelos cadernos queimados nas escolas destruídas. A nação percorre os poemas como uma experiência histórica sujeita à euforia, à cobrança e ao luto.

Moçambique adquiriu suas fronteiras durante a expansão colonial europeia. O mapa reuniu povos, línguas e tradições cuja existência obedecia a outros vínculos territoriais. Reinos, chefaturas, comunidades agrícolas e redes comerciais relacionavam-se muito além das linhas posteriormente fixadas pelos tratados internacionais. A administração portuguesa impôs uma unidade política enquanto distribuía a população em categorias desiguais. Colonos, indígenas, assimilados, mestiços e grupos de origem asiática recebiam estatutos distintos. Direitos civis, acesso à escola, circulação pela cidade e oportunidades de trabalho dependiam dessas classificações. O território estava submetido a um único governo, embora seus habitantes vivessem dentro de mundos jurídicos e sociais separados.

A língua portuguesa participava diretamente desse sistema. Seu domínio abria algumas portas da educação e do emprego público, sobretudo para quem alcançava a condição de assimilado. As línguas africanas eram associadas pela administração colonial a uma posição social inferior. A escola ensinava o idioma metropolitano junto com uma disciplina cultural destinada a afastar o aluno dos costumes de sua comunidade. Craveirinha conheceu essa fratura dentro da própria família. Filho de mãe ronga e pai português, cresceu entre o xi-ronga da memória materna e o português que organizava as relações oficiais. A obra que produziria conservaria essa convivência conflituosa. Seus versos acolhem topônimos, ritmos, animais, alimentos e formas sintáticas moçambicanas. O idioma aprendido sob a autoridade colonial acaba pronunciando tudo aquilo que essa autoridade relegara às margens.

A formação de uma literatura moçambicana acompanhou a lenta aquisição dessa consciência. José Pedro da Silva Campos Oliveira, um de seus pioneiros, fundou a Revista Africana em 1881 e escreveu poemas dedicados à vida local. Em “O pescador de Moçambique”, a paisagem, o mar e o trabalhador africano fornecem os elementos da composição. O pescador enfrenta diariamente as águas, garante o sustento da família e encontra repouso ao lado da esposa. Sua vida árdua recebe uma representação harmoniosa, organizada pela fé, pelo trabalho e pela aceitação do destino. O assunto pertence à colônia; o ritmo, as convenções formais e os valores dominantes continuam próximos da literatura portuguesa.

Rui de Noronha atribuiria outra função aos elementos africanos. Em “Lua nova”, a palavra xi-ronga “Quenguêlêquêze” conduz o ritmo e nomeia a cerimônia em que uma criança é apresentada à lua. A expressão participa da estrutura sonora do poema e guarda o sentido da experiência narrada. Em “Pós da história”, Noronha recupera Gungunhana, imperador de Gaza capturado pelas tropas de Mouzinho de Albuquerque em 1895 e levado para o exílio. A memória do soberano permite representar uma resistência africana à ocupação portuguesa, ainda que sua trajetória permaneça cercada por disputas e contradições. A procura de um herói revela o esforço para retirar a história local da versão escrita pelos vencedores.

Surge et ambula”, também de Rui de Noronha, convoca a África adormecida a levantar-se. O título latino e a imagem bíblica de Lázaro convivem com a denúncia da cobiça dirigida ao continente. Essa convivência expõe o lugar ocupado pelos primeiros escritores moçambicanos: formados dentro da cultura europeia, utilizavam suas referências para falar de uma realidade africana que começava a exigir outro vocabulário. A literatura carregava as marcas da educação colonial enquanto reunia recursos para contestá-la.

Noémia de Sousa aprofundou essa ruptura. Os poemas escritos entre as décadas de 1940 e 1950, posteriormente reunidos em Sangue negro, incorporaram o verso livre, a oralidade, o ritmo dos batuques e uma consciência racial ligada à experiência histórica africana. Em “Se me quiseres conhecer”, a voz poética se reconhece numa escultura maconde. As órbitas vazias, as mãos enormes e o corpo ferido pela escravidão compõem uma figura na qual o sofrimento convive com a altivez. O eu abriga os gemidos dos trabalhadores no cais, a rebeldia dos machanganas e as canções que atravessam a noite. A identidade pessoal adquire espessura coletiva. A mulher que fala no poema apresenta-se como um corpo marcado pela história do continente.

Craveirinha começou a escrever nesse ambiente de mobilização cultural. Sua formação escolar encerrou-se na quarta classe, em razão das dificuldades financeiras da família. Os livros do pai, as lições do irmão e o trabalho na imprensa deram continuidade ao aprendizado. O jornalismo ensinou-lhe a observar as personagens comuns, a escutar os modos de falar e a perceber as diferenças entre a linguagem oficial e a vida cotidiana. A Mafalala completou essa educação. O bairro suburbano de Lourenço Marques abrigava trabalhadores, músicos, desportistas, intelectuais e futuros militantes. Pessoas oriundas de diferentes regiões do território conviviam em ruas situadas à margem dos serviços reservados aos colonos. A segregação adquiria uma forma urbana visível: a chamada cidade de cimento concentrava os privilégios, enquanto os bairros de caniço acumulavam carências.

O tambor de Craveirinha ecoa dentro dessa geografia. O poema menciona diretamente o “silêncio amargo da Mafalala”, convertendo o bairro numa imagem das populações impedidas de participar plenamente da cidade. A repetição da expressão “minha terra” liga o instrumento ao território e àqueles que o habitam. O tambor recebe ações humanas, pois grita, sangra e se perde na escuridão. O homem também recebe a matéria do instrumento, como se seu corpo pudesse tornar-se madeira, pele e som. A simbiose sustenta o sentido político do texto: silenciar uma tradição significa ferir as pessoas que vivem por meio dela.

O “velho Deus dos homens” ocupa uma posição desconfortável nesse pedido. A religião cristã acompanhou a expansão portuguesa e ofereceu ao colonialismo uma justificativa moral. A missão de converter os povos africanos caminhava ao lado da exploração de suas terras e de sua força de trabalho. Craveirinha dirige o apelo à divindade do colonizador e utiliza contra ele a própria ideia cristã de humanidade. A palavra “homens” também carrega um conflito. As teorias raciais difundidas durante o século XIX concediam ao europeu a posição superior numa hierarquia pretensamente científica e aproximavam os povos colonizados da animalidade. Ao pedir ao Deus dos homens que o deixe ser tambor, o sujeito reivindica a humanidade que o discurso colonial lhe recusava.

A “grande festa do batuque”, anunciada nos versos finais, projeta a libertação política. O poema ainda guarda o tom de uma súplica, embora a insistência já contenha uma disposição de resistência. A tradição pede passagem até converter o pedido em força sonora. O país surge dentro desse som, ligado a uma população que deseja falar com seus próprios ritmos e reconhecer-se nos elementos de sua cultura.

Em “Hino à minha terra”, a voz assume uma postura mais declaratória. Os quatro versos iniciais afirmam que o sangue dos nomes equivale ao sangue dos homens e desafiam o interlocutor incapaz de amar aqueles que pronunciam esses nomes. Em seguida, o poema reúne Metengobalame, Macomia, Inhamússua, Mutamba, Massangulo, Chulamáti, Angoche, Marrupa e dezenas de outras localidades. Rios, plantas, frutos, animais e instrumentos ampliam o inventário. As palavras procedem do ronga, do macua, do suaíli, do changana, do xitsua e do bitonga. A sucessão produz uma geografia guiada pela memória e pela boca.

Os nomes preservam vínculos antigos entre as comunidades e o território. A ocupação colonial podia alterar documentos, criar circunscrições administrativas e rebatizar cidades. A palavra transmitida entre gerações continuava guardando a experiência de quem conhecia os rios, as árvores e os caminhos. Pronunciá-la publicamente significava restituir à paisagem uma memória africana. Craveirinha enche o português com essa matéria verbal, até que a língua metropolitana precise acomodar os sons que durante muito tempo tratou como estranhos.

A diversidade linguística fornece ao poema a imagem de um país formado por muitas comunidades. O desejo de unidade nacional precisava lidar com essa multiplicidade, pois Moçambique reunia povos com histórias, idiomas e práticas culturais próprias. “Hino à minha terra” aproxima essas diferenças sem apagá-las. O poeta ama os nomes em cada uma das línguas que os conservaram. A unidade nasce da enumeração, da proximidade criada pelo verso e do pertencimento comum à terra ameaçada pela dominação portuguesa.

A expressão “meu País” adquire uma força particular porque foi escrita durante o período colonial. Moçambique ainda era chamado oficialmente de província ultramarina; o poema já o tratava como país. A soberania ingressa primeiro na linguagem. Craveirinha escreve também sobre cidades inconstruídas, ruas largas ainda ausentes e casas que ninguém havia sonhado. A memória dos nomes conduz ao projeto do que poderá existir. O país reúne as paisagens herdadas e as obras que seus habitantes desejam realizar.

Essa expectativa reaparece no “Poema do futuro cidadão”. A voz anuncia sua chegada a partir de uma nação “que ainda não existe”. O cidadão precede o documento capaz de reconhecê-lo. Ele pertence a uma comunidade pressentida na cultura, na resistência política e no desejo de liberdade. A poesia oferece morada provisória a essa cidadania. Nos versos, o país possui nome, habitantes e futuro, apesar da permanência do governo colonial.

O movimento de libertação ganharia uma organização política decisiva com a fundação da Frente de Libertação de Moçambique, em 1962. A FRELIMO reuniu grupos independentistas, iniciou a luta armada em 1964 e procurou criar uma consciência nacional acima das divisões regionais. Craveirinha colaborou com a causa e sofreu diretamente a repressão. Preso pela PIDE em 1965, passou vários anos encarcerado. A experiência fortaleceu em sua poesia a ligação entre escrita e testemunho. Os poemas da prisão registram a solidão, a vigilância e a tentativa de preservar uma liberdade interior sob o controle do Estado colonial.

SIA-VUMA” oferece uma das expressões mais amplas da confiança na libertação. O termo xi-ronga repetido ao final das estrofes significa “que assim seja”. Sua recorrência sugere a resposta de uma multidão às palavras de um orador. A composição começa com personagens e situações criadas pela desigualdade colonial e segue em direção ao país que os moçambicanos pretendem construir. Os comboios usados no transporte de trabalhadores para as minas sul-africanas levarão crianças às escolas; os alojamentos dos mineiros servirão como celeiros; hospitais, maternidades, universidades, fábricas, pontes, jardins, teatros e bibliotecas atenderão à população. Água canalizada e eletricidade chegarão aos bairros suburbanos. Os filhos dos trabalhadores poderão tornar-se jornalistas, arquitetos, artistas e atletas.

A liberdade recebe endereço e infraestrutura. Ela alcança a escola, a maternidade, o transporte, a energia elétrica, o livro e a alimentação. O poema especifica aquilo que a independência deverá entregar à população. Também reúne timbilas, xipendanas e o imbondeiro sagrado com geradores, altos-fornos, piscinas e universidades. A modernização imaginada por Craveirinha acolhe as tradições moçambicanas e distribui recursos técnicos entre comunidades excluídas pelo colonialismo. O futuro desejado possui máquinas e amuletos, ciência e marrabenta.

Um “círculo de braços negros, amarelos, castanhos e brancos” envolve o imbondeiro de Moçambique. A cena apresenta a nacionalidade como adesão ao país, superando as classificações raciais que organizavam a sociedade colonial. Essa confiança aproximava-se do projeto defendido pela FRELIMO, sobretudo da criação de uma consciência nacional capaz de enfrentar o tribalismo, o racismo e os hábitos deixados pela ocupação portuguesa. As tensões desse projeto apareceriam com maior nitidez após a independência.

Moçambique tornou-se independente em 25 de junho de 1975. O novo governo recebeu um país marcado pela concentração de recursos nas áreas coloniais, pela escassez de profissionais qualificados e pela precariedade dos serviços destinados à maioria da população. A saída de grande parte dos portugueses agravou os problemas econômicos e administrativos. O conflito entre a FRELIMO e a RENAMO conduziu o território a uma guerra prolongada. A fome, os deslocamentos populacionais, as emboscadas nas estradas e a destruição de escolas e unidades de saúde reduziram o alcance das promessas celebradas poucos anos antes.

A poesia de Craveirinha acompanhou essas mudanças. “Saborosas tanjarinas d’Inhambane”, escrito durante os primeiros anos da República, dirige a ironia aos dirigentes acomodados, às empresas estatais deficitárias, aos funcionários incompetentes e à retórica utilizada para esconder os problemas. O poema recolhe as filas para comprar pão, peixe, lenha, água e tecido. Também menciona as carteiras quebradas das escolas, o lixo acumulado nas avenidas, os trabalhadores que pouco produzem e os responsáveis públicos habituados aos hotéis europeus e aos carros oficiais.

Craveirinha escreve com a linguagem coloquial ouvida nas ruas. A sintaxe incorpora marcas da fala popular e das línguas locais. A escolha permite que as reclamações dos cidadãos ingressem no poema com sua entonação própria. Os discursos dos chefes recebem aplausos, enquanto os sussurros da população indicam outra leitura da realidade. O poeta escuta justamente o que a celebração oficial procura encobrir. A independência política havia sido conquistada; a liberdade de falar continuava precisando de proteção.

A crítica ao novo governo conserva uma ligação profunda com o projeto nacional. As escolas e os hospitais imaginados em “SIA-VUMA” fornecem a medida para avaliar os serviços existentes. As promessas anteriores permanecem ativas dentro da ironia. Craveirinha cobra do Estado os compromissos associados à luta de libertação e alerta para o risco de substituir a autoridade colonial por novos mecanismos de silêncio. A nomeação de artistas para cargos públicos também recebe sua desconfiança, pois o poeta teme que o funcionário passe a obedecer à instituição e abandone a independência necessária à criação.

As tanjarinas de Inhambane concentram o afeto do poema. O caminhão que as transporta precisa atravessar estradas ameaçadas pela guerra e pelos postos de controle. A fruta deveria chegar primeiro aos hospitais, às creches e às escolas, adoçando o futuro do país. Seu deslocamento entre províncias representa a circulação interna de Moçambique. Cada barreira burocrática interrompe uma ligação entre cidadãos do mesmo território.

O “camarada Control” encarna a autoridade que confunde sua função com a propriedade do país. Craveirinha enumera as diferenças entre aldeia, vila, cidade, distrito, província e nação, situando o funcionário dentro da estrutura que deveria servir. O território se estende de Cabo Delgado à Ponta do Ouro e pertence à população. Quando o agente permite a passagem do caminhão e prova um gomo, participa por alguns instantes da realidade que tentava controlar. A tanjarina devolve-lhe o sabor concreto da terra.

A guerra civil levaria a poesia de Craveirinha a uma região muito mais sombria. Em Babalaze das hienas, a devastação das aldeias, as mortes e o sofrimento dos sobreviventes aparecem em poemas curtos e secos. “Moçambiquicida” descreve uma escola destruída durante uma incursão. Entre os escombros, restam cinco tabuadas, dez ou onze cadernos e um pedaço de giz. O pequeno inventário contém uma geração inteira. Cada objeto pertencia a uma criança e a um dia de aula interrompido pela violência.

A palavra “moçambiquicida” designa o cidadão que mata seu próprio país. Ela reúne a nacionalidade e o crime dentro do mesmo corpo verbal. O combatente que destrói a escola elimina uma parte da comunidade à qual pertence. A guerra atinge os habitantes e também as condições de continuidade da vida coletiva. Sem escolas, cadernos e professores, as crianças herdam um território cheio de mortos e pouca capacidade de reconstruir sua história.

A última palavra do poema, “infuturo”, leva essa destruição para o tempo. Os sobreviventes permanecem num presente incapaz de gerar continuidade. A escola incendiada responde dolorosamente às escolas prometidas em “SIA-VUMA”. O projeto de país percorreu o caminho entre o edifício sonhado e o caderno queimado. Craveirinha registra essa distância sem abandonar o nome de Moçambique. Sua indignação ainda pressupõe um vínculo com a comunidade ferida.

Baragatti Neto interpreta a sequência dos poemas por meio das etapas da vida humana. O desejo de ser tambor corresponde à gestação da consciência nacional; a recuperação dos nomes marca o nascimento; “SIA-VUMA” reúne as expectativas da infância; “Saborosas tanjarinas d’Inhambane” expressa os questionamentos de uma juventude já capaz de examinar as autoridades; “Moçambiquicida” apresenta a agonia produzida pela guerra. A metáfora organiza a trajetória estudada na dissertação e mostra como Craveirinha escreveu a história moçambicana a partir de dentro, acompanhando mudanças que alteravam também sua posição como poeta.

Essa proximidade dificulta a associação de sua obra à epopeia tradicional. Camões escreveu Os Lusíadas com base numa história portuguesa já consolidada por documentos, mitos e conquistas convertidas em passado heroico. Craveirinha trabalhava sobre acontecimentos ainda abertos, cercados por disputas e consequências imprevisíveis. Sua experiência pessoal participava dos conflitos representados. A prisão, a militância, a vida na Mafalala e a guerra impediam qualquer distância serena diante dos fatos.

Os poemas carregam, contudo, uma respiração épica. A voz coletiva, as enumerações territoriais, a evocação dos nomes e a amplitude do projeto nacional aproximam certos textos do relato de uma gesta. Pires Laranjeira observou que a poesia de Craveirinha conserva marcas épicas e registra de maneira concentrada a luta do povo moçambicano. O poeta trabalha com essa grandeza sem retirar dos acontecimentos a fome, a precariedade, os erros e as hesitações. Sua nação possui rios caudalosos, imbondeiros sagrados e multidões insurgentes; também possui filas, funcionários medíocres, caminhões parados e crianças sem cadernos.

Craveirinha observa, registra, denuncia e participa. Sua poesia acolhe o grito do tambor, a fala da mulher na fila, o discurso do militante, a voz do motorista e o silêncio da escola destruída. A identidade nacional surge da convivência entre essas vozes e da responsabilidade de impedir que alguma delas seja excluída da memória.

Craveirinha recebeu o Prêmio Camões em 1991 e morreu em 2003. A condição de poeta nacional de Moçambique veio do longo compromisso assumido com as pessoas e os lugares que atravessaram sua escrita. Ele acompanhou as esperanças da libertação, cobrou do Estado as promessas feitas durante a luta e lamentou os mortos da guerra civil. Sua fidelidade dirigiu-se ao país vivido nas ruas, nas línguas, nas machambas, nos bairros e nos corpos de seus habitantes.

No início desse percurso, o tambor pede licença para soar na Mafalala. Próximo ao fim, um pedaço de giz permanece entre os restos de uma escola. O instrumento guarda a memória dos que resistiram ao colonialismo. O giz pertence às crianças que poderiam escrever a continuidade do país. Craveirinha colocou ambos dentro de sua poesia e entregou-lhes a mesma tarefa: conservar a voz de Moçambique quando a história tenta condená-la ao silêncio.


Um mito fundador narra a origem de uma comunidade e transforma essa origem numa explicação de sua identidade. O episódio relatado pode reunir acontecimentos históricos, personagens lendários, intervenções divinas e símbolos transmitidos durante muitas gerações; sua força reside na capacidade de organizar uma memória comum, justificar costumes e oferecer aos indivíduos um lugar dentro de uma história coletiva. Ao contar de onde um povo veio, o mito também estabelece os valores que ele atribui a si mesmo e o destino que imagina cumprir. Por isso, a fundação ultrapassa o instante inicial: ela retorna nos rituais, nas festas, nos textos sagrados, nos monumentos e nas narrativas repetidas pelos mais velhos aos mais jovens.

O mito fundador organiza uma origem e entrega a um povo uma imagem de si mesmo. Sua matéria pode vir da religião, da guerra, da migração, da aventura de um herói ou da lembrança de uma catástrofe. O acontecimento narrado adquire uma força que ultrapassa a comprovação histórica. Passa a explicar costumes, instituições, fronteiras, hierarquias e compromissos coletivos. Quando uma comunidade repete esse relato, ela reafirma quem acredita ser, de onde veio e qual destino imagina cumprir.

A palavra “mito” costuma ser confundida com mentira. Para a antropologia, a história das religiões e os estudos literários, ela possui outro alcance. O mito conta uma verdade social por meio de uma narrativa simbólica. Sua eficácia depende da capacidade de orientar a vida coletiva. Roma pode ter sido formada por processos políticos e militares bastante longos; a história de Rômulo e Remo condensou esses processos numa cena de origem. O irmão assassinado, a loba, o abandono e a fundação da cidade deram aos romanos uma memória suficientemente dramática para ser transmitida durante séculos.

A Torá fornece ao povo judeu uma de suas estruturas fundamentais de memória. O Gênesis apresenta a criação do mundo, o dilúvio, a aliança com Abraão e a trajetória dos patriarcas. O Êxodo conduz os descendentes de Israel da escravidão no Egito à liberdade, sob a liderança de Moisés. No Sinai, a libertação adquire forma jurídica e religiosa com a entrega da Lei. A comunidade nasce da aliança: Deus escolhe um povo, esse povo recebe mandamentos e sua história passa a ser interpretada à luz dessa relação. A travessia do deserto, a promessa da terra e a lembrança da escravidão tornam-se fundamentos da identidade judaica.

O caráter fundador dessa narrativa aparece com clareza em Pessach. A celebração atualiza a saída do Egito e transforma a memória dos antepassados numa experiência compartilhada pelos vivos. Cada geração ocupa simbolicamente o lugar daqueles que atravessaram o mar. A história sagrada institui uma comunidade de lembrança, e seus ritos impedem que a origem permaneça confinada ao passado. A Torá oferece um vocabulário para compreender o exílio, a fidelidade, a justiça, o sofrimento e a esperança de restauração.

O cristianismo recebeu a Torá e os demais livros da tradição judaica, relendo-os a partir da vida, da morte e da ressurreição de Jesus. O Novo Testamento ocupa posição fundadora porque narra o acontecimento que dá origem à comunidade cristã. Os Evangelhos apresentam Jesus como o Messias; a crucificação e a ressurreição estabelecem uma nova aliança; os Atos dos Apóstolos acompanham a formação das primeiras comunidades; as cartas de Paulo ajudam a definir crenças, práticas e formas de pertencimento. O cristão ingressa simbolicamente nessa narrativa por meio do batismo e a revive na Eucaristia. A repetição litúrgica da última ceia, da paixão e da ressurreição conserva o acontecimento fundador dentro do tempo presente.

Os credos religiosos condensam essas narrativas. Quando uma comunidade recita “creio”, ela reúne numa fórmula os episódios e doutrinas que sustentam sua identidade. O credo transforma uma longa história numa profissão coletiva de pertencimento. Cada frase recorda uma parte da narrativa sagrada e indica como ela deve ser compreendida. A pessoa fala na primeira pessoa, enquanto sua voz se une às vozes dos demais. A crença adquire corpo social por meio dessa recitação conjunta.

A Epopeia de Gilgamesh permite observar uma etapa muito antiga dessa necessidade de organizar simbolicamente a experiência humana. Composta a partir de tradições mesopotâmicas e preservada em diferentes versões, a epopeia acompanha o rei de Uruk, sua amizade com Enkidu, o encontro com a morte e a busca fracassada pela imortalidade. Gilgamesh começa como soberano excessivo, encontra no amigo uma medida para sua força e, depois da morte de Enkidu, percebe que nenhum poder o livrará do destino humano. Ao regressar a Uruk, reconhece nas muralhas da cidade a permanência possível de sua obra.

O poema articula a autoridade do rei, a vida urbana, a amizade, a natureza, a mortalidade e a memória. Seu relato do dilúvio aproxima-se de tradições que depois apareceriam no Gênesis, revelando a circulação de antigas imagens pelo Oriente Próximo. A epopeia preservou uma maneira mesopotâmica de compreender a civilização: os homens morrem, as cidades sobrevivem e a escrita conserva o nome daqueles que desapareceram. Sua função difere daquela desempenhada pela Torá no judaísmo ou pelo Novo Testamento no cristianismo, pois nenhuma comunidade religiosa contemporânea organiza sua vida ao redor de Gilgamesh. O poema permanece como testemunho de uma civilização que procurou enfrentar a morte por meio das obras e da narrativa.

A Ilíada entregou aos gregos uma memória heroica da Guerra de Troia. Aquiles, Heitor, Agamêmnon e os demais guerreiros encarnam valores e conflitos reconhecíveis por comunidades espalhadas por diferentes cidades. O poema examina a glória, a honra, a cólera e o preço pago por aqueles que buscam sobreviver na lembrança dos homens. A cena em que Príamo beija as mãos de Aquiles para recuperar o corpo de Heitor restitui humanidade aos adversários e suspende, por um instante, a lógica da vingança.

A Odisseia oferece outra face dessa tradição. Ulisses deseja regressar a Ítaca, recuperar sua casa e reencontrar Penélope. A identidade grega aparece vinculada à navegação, à hospitalidade, à astúcia e ao reconhecimento do lar. A guerra funda uma memória heroica; o regresso mostra o esforço necessário para recompor o mundo destruído por ela. Durante séculos, os dois poemas educaram os gregos, forneceram modelos de conduta e ofereceram aos diferentes povos helênicos um repertório comum de deuses, antepassados e aventuras.

Virgílio realizou com a Eneida uma operação política mais explícita. Eneias foge da Troia destruída carregando o pai e conduzindo o filho. Leva consigo o passado, o presente e o futuro. Sua viagem prepara a fundação de Roma, e os sofrimentos pessoais do herói recebem um sentido dentro do destino imperial. Escrita durante o governo de Augusto, a epopeia liga Roma ao mundo troiano, legitima sua grandeza e apresenta o império como cumprimento de uma missão histórica. A literatura organiza retrospectivamente o acaso, a conquista e a violência, atribuindo-lhes a aparência de necessidade.

As paixões pelos times de futebol reproduzem, em escala cotidiana e secular, parte desses mecanismos. Cada clube possui sua origem, seus mártires, seus heróis, suas derrotas traumáticas e suas vitórias milagrosas. O estádio funciona como território sagrado; a camisa identifica os membros da comunidade; o hino exerce uma função próxima à do credo; pais transmitem aos filhos histórias que eles próprios receberam. Uma final vencida nos últimos minutos converte-se numa narrativa repetida durante décadas. O torcedor recorda onde estava, quem marcou o gol e quem chorou ao seu lado.

A devoção futebolística revela a força dos mitos fundadores porque a escolha de um time raramente depende apenas de seu desempenho. Ela envolve família, bairro, classe social, cidade e memória. O torcedor aprende a dizer “nós” para falar de homens que correm em campo. Quando o clube vence, ele sente que venceu; quando perde, leva a derrota para casa. A narrativa coletiva incorpora sua biografia e oferece a ele antepassados, símbolos e companheiros.

Povos, religiões e torcidas reconhecem-se nas histórias que repetem. A fundação precisa ser contada porque nenhuma comunidade sobrevive apenas de documentos, regulamentos e datas. Ela requer imagens capazes de converter indivíduos dispersos em herdeiros de uma mesma memória. O mito cumpre essa tarefa: recolhe a fragilidade humana, dá-lhe uma origem e promete que alguma parte de nós continuará vivendo na história narrada pelos outros.

Camões organizou a viagem portuguesa como epopeia de fundação; Lobo Antunes regressou à África para recolher, entre cadáveres, silêncios e memórias partidas, os destroços desse mesmo império.


Camões começa Os Lusíadas escolhendo aquilo que Portugal deveria recordar de si mesmo: as armas, os navegadores, os reis e a travessia do mar. Publicado em 1572, o poema reúne episódios dispersos da história portuguesa e lhes atribui uma direção, como se a formação do reino tivesse preparado, desde o princípio, a chegada de Vasco da Gama à Índia. O poema reuniu acontecimentos dispersos da história portuguesa, acomodou-os dentro da forma prestigiosa da epopeia clássica e atribuiu à expansão marítima um sentido que ultrapassava o comércio, a conquista territorial e a guerra. Sob a condução de Camões, as viagens portuguesas ganham a solenidade de uma missão histórica, amparada pelos deuses antigos e incorporada aos desígnios da providência cristã. Portugal podia ser pequeno no mapa europeu; dentro do poema, tornava-se grande o bastante para alterar a ordem do mundo.

Quatro séculos depois, quando António Lobo Antunes publicou Os cus de Judas, em 1979, essa construção encontrava-se cercada pelos escombros da Guerra Colonial, pela Revolução dos Cravos, pela independência das antigas colônias africanas e pelo retorno de milhares de soldados portugueses traumatizados. A viagem a Angola realizada pelo narrador do romance guarda uma relação subterrânea com a viagem de Vasco da Gama. Os dois deixam Lisboa, atravessam o mar e chegam à África como representantes de Portugal. A semelhança termina quando cada viajante procura conferir sentido à experiência. Gama regressa integrado a uma narrativa coletiva, cercado pela glória dos antepassados e pela promessa de futuros triunfos. O médico de Lobo Antunes regressa com a consciência devastada, incapaz de organizar a guerra numa história coerente, preso a imagens que irrompem durante uma conversa noturna com uma mulher quase silenciosa. Entre uma partida e outra, o império percorreu sua longa trajetória: nasceu como canto, sobreviveu como ideologia e terminou como trauma.

Para os estudantes de Tradição e Ruptura em Literatura, a aproximação entre essas obras permite compreender que a ruptura literária raramente consiste no abandono absoluto das formas anteriores. Lobo Antunes escreve sobre um mundo que aprendeu a imaginar Portugal com a ajuda de Camões. O romance contemporâneo recolhe palavras, imagens, instituições e fantasias legadas pela tradição imperial e as submete à experiência de quem viu a guerra por dentro. A epopeia oferecia unidade ao passado; o romance apresenta uma memória que perdeu a capacidade de obedecer a qualquer ordem. A estrutura de cada obra já contém uma interpretação de Portugal.


A arquitetura da grandeza

A proposição de Os Lusíadas anuncia o projeto do poema antes que a viagem propriamente dita comece. Camões apresenta a matéria que pretende cantar e define o sujeito de sua epopeia:


As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.
(CAMÕES, 2009, canto I, est. 1).


As “armas” e os “barões” aproximam imediatamente o poema das epopeias antigas. A fórmula recorda a abertura da Eneida, em que Virgílio canta as armas e o homem destinado a fundar Roma. Camões escolhe como herói uma coletividade: os navegadores, os reis, os guerreiros e, por extensão, “o peito ilustre lusitano”. Vasco da Gama ocupa o centro da ação, embora carregue consigo toda uma genealogia nacional. Quando fala ao rei de Melinde, no canto III, sua voz transforma-se na voz da história portuguesa. A viagem à Índia comporta, então, várias viagens anteriores; o passado inteiro parece avançar dentro das embarcações.

A construção do mito fundador depende dessa articulação entre um acontecimento delimitado — a abertura do caminho marítimo para a Índia — e uma história nacional que recua às origens de Portugal. Camões trabalha com três tempos. O primeiro corresponde ao presente da viagem de Vasco da Gama, iniciada in medias res, quando a armada já navega pelo oceano Índico. O segundo reúne o passado narrado pelo capitão aos interlocutores africanos, incluindo episódios como a formação do reino, a batalha de Ourique, a história de Inês de Castro e a batalha de Aljubarrota. O terceiro projeta o futuro das conquistas portuguesas, revelado por meio de profecias e visões. Desse modo, o poema cerca a viagem por todos os lados. Aquilo que ocorreu antes parece prepará-la; aquilo que ocorrerá depois aparece como sua consequência necessária.

Essa arquitetura converte a história em destino. Reis, navegadores e soldados realizam ações particulares, enquanto o poema as reúne numa direção comum. Guerras dinásticas, disputas políticas, interesses comerciais e atos de violência recebem uma forma capaz de ordená-los. O passado deixa de parecer uma sucessão incerta de conflitos e assume a aparência de uma marcha conduzida para o mar. A expansão ultramarina surge como culminação da história portuguesa, momento em que um povo confinado à extremidade ocidental da Europa atravessa suas fronteiras geográficas e alcança o centro do mundo conhecido.

Camões amplia essa grandeza por meio da comparação com os antigos. Depois de anunciar os navegadores portugueses, o poeta pede que cessem as celebrações de Ulisses, Eneias, Alexandre e Trajano:


Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram.
(CAMÕES, 2009, canto I, est. 3).


A imitação dos modelos clássicos contém uma disputa com esses mesmos modelos. Camões acolhe Homero e Virgílio dentro da língua portuguesa e procura superá-los pela matéria histórica do poema. Os heróis antigos pertenciam a um mundo remoto e parcialmente fabuloso; os portugueses haviam realizado suas navegações num passado recente, documentado por crônicas, relatos e testemunhos. A epopeia transfere para Portugal o capital simbólico da Antiguidade. Lisboa pode agora apresentar seus próprios argonautas, seu próprio Eneias e seus próprios feitos dignos de memória.

O recurso à mitologia greco-romana participa dessa operação. No Concílio dos Deuses, Baco procura impedir o avanço dos portugueses, enquanto Vênus e Marte os protegem. A viagem marítima ganha uma dimensão cósmica: deuses discutem o destino de uma frota humana. O maravilhoso pagão, inserido num horizonte cristão, fornece ao acontecimento histórico a amplitude que a epopeia exige. As tempestades, os encontros e os perigos já pertencem ao domínio da política imperial e, simultaneamente, à ordem do universo.

A presença dos deuses também permite representar as forças que favorecem ou ameaçam o empreendimento português. Baco teme perder no Oriente a fama que conquistara; sua resistência traduz o conflito entre antigas e novas hegemonias. Vênus percebe nos portugueses qualidades associadas aos romanos e decide protegê-los. O poema fabrica, assim, uma linhagem simbólica na qual Portugal aparece como herdeiro de Roma. A língua portuguesa, descendente do latim, fortalece essa aproximação. O império marítimo recebe a dignidade do império antigo, enquanto o poeta reivindica para seu idioma um lugar entre as grandes línguas literárias.

A regularidade formal sustenta esse mundo ordenado. Os Lusíadas possui dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos, organizados predominantemente em oitavas decassilábicas com o esquema de rimas ABABABCC. Cada estrofe contém uma pequena arquitetura: os seis primeiros versos desenvolvem a matéria, e o dístico final frequentemente a conclui com uma sentença, uma imagem ou uma inflexão decisiva. A disciplina métrica converte a instabilidade do oceano em cadência. Tempestades, batalhas, discursos e profecias submetem-se à medida do verso. O domínio formal exercido pelo poeta guarda correspondência com o domínio náutico atribuído aos navegadores. Camões governa a língua como Gama governa a armada.

A viagem reúne ainda os componentes tradicionais da epopeia: proposição, invocação, dedicatória, narração dos feitos, intervenção do maravilhoso e glorificação heroica. A invocação às Tágides procura instituir uma inspiração adequada à matéria portuguesa. As musas agora habitam o Tejo. O deslocamento possui força cultural: a poesia épica abandona sua morada exclusivamente mediterrânica e encontra uma nascente portuguesa. Ao pedir um “som alto e sublimado”, Camões associa a grandeza do estilo à grandeza do objeto. Um império precisa de uma dicção capaz de torná-lo memorável.

A dedicatória a D. Sebastião introduz o poema no presente político de 1572. O jovem rei aparece como esperança de continuidade do projeto expansionista e destinatário de uma pedagogia heroica. Camões canta o passado para orientar o futuro do soberano. A epopeia desempenha, nesse ponto, uma função pública: celebra, aconselha, adverte e busca intervir na condução do reino. O mito fundador depende de sua capacidade de produzir condutas. Os mortos oferecem modelos aos vivos; a glória narrada solicita novas ações gloriosas.

A Ilha dos Amores, oferecida por Vênus aos navegadores no canto IX, representa a consagração sensível do heroísmo. Depois dos perigos da viagem, os portugueses recebem como recompensa uma ilha preparada para satisfazê-los. O episódio mistura erotismo, alegoria e apoteose. As ninfas reconhecem o valor dos marinheiros, e a natureza inteira parece celebrar sua vitória. O império encontra uma forma paradisíaca: conquistar o mundo conduz ao prazer, ao conhecimento e à imortalidade da fama. Na ilha, o desejo masculino e a expansão territorial aproximam-se. A terra surge disponível ao navegador vitorioso, figura que ajuda a compreender a imaginação colonial elaborada ao longo dos séculos seguintes.

No canto X, a Máquina do Mundo oferece a Vasco da Gama uma visão total do universo. Depois de atravessar mares desconhecidos, o navegador contempla a ordem cósmica e recebe o conhecimento das futuras ações portuguesas. O olhar imperial torna-se panorâmico. Ver o mundo inteiro equivale a ocupá-lo simbolicamente, nomear seus lugares e inscrevê-los numa narrativa portuguesa. A cartografia, a cosmologia e a poesia colaboram na produção desse olhar. O oceano, antes percebido como limite, transforma-se no meio pelo qual Portugal se imagina universal.

As fissuras do canto

A força celebratória de Os Lusíadas convive com passagens de desalento. Camões conhecia as contradições da expansão e experimentara pessoalmente a precariedade dos serviços prestados à Coroa. O poema exalta o feito marítimo enquanto dirige críticas à cobiça, ao abandono das artes, à corrupção e à incapacidade dos governantes de reconhecer o mérito. A fala do Velho do Restelo, no canto IV, interrompe o entusiasmo da partida e nomeia a “glória de mandar” e a “vã cobiça” que conduzem os homens ao perigo. Sua voz introduz uma interpretação sombria da viagem:


Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
(CAMÕES, 2009, canto IV, est. 95).


O Velho do Restelo enxerga na expansão uma forma de desejo capaz de sacrificar vidas, famílias e recursos. Sua censura permanece dentro do poema, cercada pela realização heroica que a narrativa continuará a celebrar. A ambivalência impede uma leitura inteiramente homogênea da epopeia. Camões constrói o monumento e grava nele a consciência de suas rachaduras. O mito português surge poderoso, acompanhado pela suspeita de que a fama cobra um preço alto e favorece interesses menos nobres que os proclamados.

O Adamastor concentra outra fissura. A figura gigantesca encarna o Cabo das Tormentas e ameaça os navegadores com naufrágios e mortes futuras. Sua própria história, marcada pelo desejo frustrado por Tétis, transforma o obstáculo geográfico numa personagem trágica. Para a perspectiva portuguesa, o gigante representa a natureza vencida pela coragem e pela técnica náutica. Uma leitura pós-colonial percebe ainda o corpo ameaçador que se ergue diante da entrada europeia no oceano Índico. Adamastor anuncia que a expansão espalhará sofrimento entre os próprios conquistadores. O império avança, deixando mortos no caminho.

O encerramento do poema aprofunda o desencanto. A voz que antes reivindicava uma altura épica apresenta-se cansada diante de uma pátria mergulhada na cobiça e na tristeza:


No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
(CAMÕES, 2009, canto X, est. 145).


A lira destemperada complica a imagem de uma epopeia triunfal. O poeta conclui sua celebração diante de ouvintes incapazes de corresponder à grandeza cantada. A distância entre os heróis representados e a sociedade contemporânea produz uma melancolia que atravessa o final. A tradição imperial portuguesa encontraria, nos séculos seguintes, amplo uso para a face gloriosa do poema. As advertências camonianas continuariam ali, disponíveis para leituras que reconhecessem na epopeia um conflito entre grandeza, violência, desejo e ruína.

A viagem depois do império

Os cus de Judas começa num espaço distante das caravelas e dos palácios. Um homem conversa com uma mulher num bar de Lisboa. Durante a noite, bebe, seduz, recorda e fala compulsivamente. A interlocutora quase permanece fora do alcance do leitor; conhecemos suas possíveis perguntas pelas respostas do narrador. O romance inteiro parece nascer da tentativa de preencher esse silêncio. A guerra em Angola retorna através de associações, imagens, odores, corpos feridos, lembranças da infância e fragmentos da vida posterior. O narrador procura contar sua história, embora cada memória abra outras feridas e desorganize a sequência dos acontecimentos.

Publicado em 1979, cinco anos após a Revolução dos Cravos e a poucos anos do encerramento da Guerra Colonial, o romance integra o primeiro ciclo da produção de Lobo Antunes, ao lado de Memória de elefante e Conhecimento do inferno. A experiência do escritor como médico do Exército português em Angola, entre 1971 e 1973, fornece parte decisiva de sua matéria ficcional. A narrativa situa-se naquele território instável em que autobiografia, testemunho, memória e invenção se contaminam. O narrador compartilha traços com o autor, embora o romance elabore uma voz construída pela linguagem, atravessada por exageros, fantasias, deformações e contradições.

A estrutura dos capítulos oferece uma primeira chave para a comparação com Camões. Eles recebem como títulos as letras do alfabeto, de A a Z, considerando as 23 letras usadas oficialmente no português da época. À primeira vista, o alfabeto promete totalidade e ordem: começar em A, terminar em Z, percorrer todas as etapas de uma experiência. A leitura desfaz essa promessa. As recordações avançam por movimentos associativos, retornam, interrompem-se e confundem tempos distintos. A ordem exterior dos capítulos envolve uma consciência interiormente despedaçada. O alfabeto, sistema elementar pelo qual aprendemos a organizar a linguagem, torna-se moldura para aquilo que resiste à organização.

Em Camões, os dez cantos integram acontecimentos dispersos numa história providencial. Em Lobo Antunes, os capítulos alfabéticos expõem o fracasso da totalização. A experiência da guerra deixou resíduos, cenas obsessivas e palavras incapazes de cicatrizar o vivido. O narrador fala porque a memória insiste; sua fala tampouco alcança uma conclusão apaziguadora. A história nacional já perdeu a forma de marcha. Ela chega à consciência como estilhaço.

As duas obras começam sob o signo da fabricação do homem português. Camões apresenta os “barões assinalados”, homens cuja coragem ultrapassa “a força humana”. A família do narrador de Os cus de Judas conserva uma versão empobrecida e autoritária desse ideal. Diante do jovem convocado para a guerra, os parentes celebram a transformação prometida pelo Exército: “a tropa há de torná-lo um homem” (ANTUNES, 2003, p. 14-15). A frase condensa séculos de educação imperial. Ser homem significa combater, obedecer, dominar o medo, servir à pátria e provar a virilidade em território africano. A guerra colonial apresenta-se como ritual de passagem oferecido por uma sociedade patriarcal.

Lobo Antunes acompanha a decomposição desse modelo. A guerra fabrica um sobrevivente assombrado, preso à culpa, à impotência e à dificuldade de estabelecer relações afetivas. A masculinidade épica chega ao século XX administrada por quartéis, famílias conservadoras, propaganda salazarista e discursos religiosos. O herói coletivo cede lugar a um indivíduo incapaz de reconhecer a pessoa em que se transformou. A “aprendizagem” proporcionada pela guerra conduz à agonia.

A partida de Lisboa também reaparece alterada. Em Os Lusíadas, as naus deixam o Restelo sob lágrimas e temores, enquanto a narrativa conhece antecipadamente a grandeza do destino. O sofrimento da despedida será absorvido pela glória do regresso. No romance, a cidade afasta-se “num turbilhão [...] de marchas marciais” (ANTUNES, 2003, p. 21). A música militar, destinada a produzir entusiasmo, acompanha rostos imóveis e trágicos. O navio transporta jovens para uma guerra mantida por um regime que insistia na fantasia de Portugal como nação pluricontinental. A partida conserva seus ritos, embora a promessa de grandeza tenha envelhecido. Restaram uniformes, hinos, discursos e homens enviados para territórios que o poder chamava de províncias ultramarinas.

A África camoniana pertence ao itinerário da expansão. Seus reis, mercadores, povos e paisagens aparecem filtrados pela perspectiva da viagem portuguesa. Em Lobo Antunes, Angola surge como espaço concreto de devastação, marcado pelo mato, pelas minas, pelos helicópteros, pelas evacuações médicas, pelos soldados mutilados e pelas populações submetidas à violência. O próprio título retira da geografia imperial qualquer dignidade cartográfica. “Os cus de Judas” designa um lugar remoto, abandonado, situado fora da atenção daqueles que controlam a guerra desde Lisboa. A periferia do império revela o conteúdo material da retórica metropolitana.

O contraste entre os títulos resume uma mudança histórica. Os Lusíadas nomeia um povo pela descendência mítica de Luso e lhe oferece unidade. Os cus de Judas escolhe uma expressão vulgar, corporal e periférica. O primeiro título reúne; o segundo lança o leitor num espaço de abandono. Luso representa uma origem nobilitadora; Judas carrega a traição. O corpo grotesco substitui a genealogia heroica, e a parte baixa do corpo invade o lugar antes ocupado pelo “peito ilustre lusitano”. O império passa da cabeça erguida do navegador ao corpo ferido do soldado.

A linguagem dos dois livros realiza essa transformação. Camões emprega a elevação retórica, o decassílabo, a oitava-rima, a mitologia e o discurso oratório. Lobo Antunes escreve períodos extensos, carregados de comparações inesperadas, enumerações, imagens grotescas e deslocamentos temporais. Sua prosa avança como uma consciência alcoolizada que tenta adiar o silêncio. A abundância metafórica produz uma espécie de lirismo contaminado. Objetos cotidianos, animais, órgãos, excrementos, ruínas e lembranças familiares misturam-se. A guerra dissolve as hierarquias que separavam o sublime do repulsivo.

Essa opção estética contém uma crítica à linguagem imperial. O Estado Novo português prolongou a imagem da vocação ultramarina do país e mobilizou a tradição épica para legitimar sua presença em África. O vocabulário oficial falava em missão civilizadora, defesa da pátria, unidade nacional e heroísmo. Lobo Antunes devolve essas palavras ao campo de batalha, onde encontram corpos amputados, aldeias destruídas e soldados que desconhecem o sentido daquilo que fazem. A materialidade da guerra corrói a abstração patriótica.

O narrador ocupa uma posição incômoda nesse processo. Ele participou do Exército colonizador e reconhece a violência da colonização. Sua consciência crítica surge ligada à culpa, sem lhe conceder um lugar moralmente puro. Médico, deveria preservar vidas; como militar, integra uma máquina que produz mortos. Português, carrega a cultura e os privilégios da metrópole; regressado, sente-se estrangeiro em Lisboa. A identidade desmancha-se entre essas posições. A primeira pessoa do romance traz a história para dentro do sujeito e revela que o império também destruiu aqueles que enviou para defendê-lo, numa escala diferente da violência imposta aos povos colonizados.

Essa diferença de escala precisa permanecer visível. O sofrimento do soldado português jamais absorve a experiência angolana. O romance privilegia a voz do ex-combatente europeu e, por isso, suas personagens africanas aparecem muitas vezes através de seu olhar. Ainda assim, a fragmentação desse olhar impede a restauração confortável da autoridade colonial. O narrador regressa sem a certeza de que conhece Angola, Portugal ou a si mesmo. A antiga confiança épica no poder de nomear o mundo cede espaço a uma fala que reconhece sua própria desorientação.

Tradição, ruptura e memória

A ruptura promovida por Os cus de Judas alcança seu sentido mais profundo quando o romance é lido dentro da tradição que Os Lusíadas ajudou a formar. Lobo Antunes escreve após Camões, após o uso escolar e político de Camões, após séculos de expansão e após a conversão da epopeia em monumento nacional. Seu romance dirige-se tanto à guerra vivida em Angola quanto às narrativas que tornaram aquela guerra imaginável. Os jovens embarcaram porque um sistema político ainda conseguia apresentar a África como parte do destino português. A epopeia renascentista e a propaganda salazarista pertencem a momentos históricos distintos; o regime soube apropriar-se da memória dos descobrimentos para prolongar sua política colonial.

Camões cantara uma potência marítima que buscava conferir forma duradoura a suas conquistas. Lobo Antunes escreve quando o mar devolve soldados, colonos e lembranças que Portugal preferiria esquecer. A viagem de ida, central no imaginário expansionista, converte-se numa poética do regresso. Quem regressa traz consigo a prova de que nenhum retorno recompõe inteiramente o lugar deixado para trás. Lisboa continua ali, com suas ruas, bares e apartamentos, enquanto o sobrevivente a percorre como alguém que perdeu a linguagem comum.

O espaço de enunciação das duas obras também carrega essa mudança. Camões assume a voz pública do poeta que fala ao rei e à comunidade portuguesa. Mesmo quando lamenta sua pobreza ou denuncia a ingratidão dos poderosos, apresenta-se como responsável pela memória coletiva. O narrador de Lobo Antunes fala a uma mulher anônima durante uma noite de bebida. Seu discurso nasce numa situação íntima, precária, quase clandestina. A nação já deixou de ouvir seus poetas reunida em torno de uma epopeia; um homem tenta contar a guerra a alguém cuja atenção permanece incerta.

A mulher silenciosa funciona como destinatária e superfície de projeção. O narrador procura seduzi-la, confessar-se e justificar-se. Em diversos momentos, parece falar consigo mesmo. A comunicação encontra-se ameaçada desde o início. Em Os Lusíadas, o poeta acredita que o canto preservará os feitos contra o esquecimento. Em Os cus de Judas, a fala luta contra um esquecimento que se instalou dentro da própria memória. Recordar significa reviver imagens que jamais adquiriram a distância necessária para se transformarem em passado.

O final de cada obra torna essa diferença ainda mais aguda. Camões termina enrouquecido, embora conserve a expectativa de que D. Sebastião realize feitos dignos de novos cantos. Seu desencanto dirige-se a um presente que ainda poderia ser corrigido pela ação do rei. A história permanece aberta à recuperação heroica. O romance de Lobo Antunes chega à letra Z sem redenção política, amorosa ou psicológica. A noite termina, a mulher partirá e o narrador continuará entregue aos fantasmas. Percorrer o alfabeto inteiro foi insuficiente para produzir uma frase capaz de salvá-lo.

A tradição literária portuguesa pode ser percebida entre essas duas vozes enrouquecidas. A primeira se cansa de cantar a uma “gente surda e endurecida”; a segunda fala compulsivamente diante de uma ouvinte quase muda. Camões teme a surdez do reino diante da poesia. Lobo Antunes enfrenta a surdez de um país diante da memória colonial. A distância de quatro séculos preserva uma inquietação: que espécie de comunidade pode surgir quando seus membros recusam escutar o preço de sua grandeza?

Ler Os Lusíadas somente como propaganda imperial reduz sua complexidade e ignora as advertências inscritas pelo próprio Camões. Ler Os cus de Judas apenas como negação da epopeia também empobrece a relação entre as obras. O romance contemporâneo herda do poema épico a ambição de pensar Portugal por meio de uma viagem. Herda ainda a intensidade metafórica, o trabalho radical com a língua e a convicção de que a literatura pode disputar o sentido da história. A ruptura ocorre dentro dessa herança. Lobo Antunes vira a viagem pelo avesso, desloca o olhar para o soldado anônimo, substitui a totalidade pela fragmentação e conduz o leitor da glória marítima à lama da guerra colonial.

A disciplina de Tradição e Ruptura encontra nesse diálogo um de seus problemas fundamentais. Uma obra passa a integrar a tradição quando continua produzindo respostas, apropriações, recusas e reescritas. Camões ofereceu a Portugal uma imagem grandiosa de si mesmo, forte o bastante para atravessar os séculos. Lobo Antunes recebeu essa imagem depois que a história a cobriu de sangue e poeira. Seu romance contempla o antigo retrato nacional por meio dos olhos de alguém que esteve dentro da moldura e descobriu, tarde demais, tudo o que ela deixava fora.

Entre a Ilha dos Amores e os cus de Judas estende-se a história do império português. Num extremo, os navegadores recebem ninfas e contemplam a Máquina do Mundo; no outro, um médico recolhe pedaços de corpos e tenta reconhecer, entre eles, os pedaços de sua própria consciência. A literatura acompanha essa travessia porque participou de sua origem e recebeu seus destroços. Camões deu ao mar uma forma heroica. Lobo Antunes escutou o que o mar trouxe de volta.

O estudante que lê essas obras em conjunto aprende a desconfiar das separações confortáveis entre monumento e ruína. O monumento já guardava uma voz cansada, um velho que denunciava a cobiça e um gigante que profetizava mortes. A ruína conserva uma extraordinária energia verbal e procura, entre lembranças partidas, alguma forma possível de conhecimento. Tradição e ruptura habitam o mesmo território. A primeira fornece as palavras com que um país aprende a sonhar; a segunda devolve a essas palavras o peso das vidas sacrificadas em seu nome.

Talvez a literatura portuguesa tenha precisado desses dois livros para contar a extensão de sua viagem. Um escreveu o instante em que Portugal se imaginou maior que sua geografia. O outro registrou a madrugada em que um português percebeu a devastação produzida por esse sonho. Entre ambos permanece a língua, ora disciplinada pela oitava-rima, ora arrastada pelo fluxo febril da memória. É nela que a glória e a culpa continuam a se enfrentar. É nela também que os mortos, afastados das celebrações oficiais, recuperam por um momento o direito de regressar.

Edições utilizadas

ANTUNES, António Lobo. Os cus de Judas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Organização de Emanuel Paulo Ramos. 9. ed., 9. reimp. Porto: Porto Editora, 2009.
Referências críticas

BACCARIN-COSTA, Eduardo Luiz. Os cus de Judas, de António Lobo Antunes: uma releitura do passado histórico português a partir da desconstrução do “eu”. Desassossego, São Paulo, v. 11, n. 20, p. 210-223, jun. 2019. DOI: 10.11606/issn.2175-3180.v11i20p210-223.

FELIPE, Cleber Vinicius do Amaral. Os Lusíadas, 450 anos depois: hipóteses de leitura. História da Historiografia, Ouro Preto, v. 15, n. 40, p. 235-264, 2022.

ROMMEL, Leonardo von Pfeil; SPAREMBERGER, Alfeu. A construção da memória da Guerra Colonial em Os cus de Judas, de Lobo Antunes. Navegações, Porto Alegre, v. 10, n. 1, p. 3-11, jan./jun. 2017. DOI: 10.15448/1983-4276.2017.1.25252.

SEIXO, Maria Alzira. Os romances de António Lobo Antunes: análise, interpretação, resumos e guiões de leitura. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

SILVA, Alba Valéria Niza. A guerra de “A” a “Z”: uma leitura de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes. Travessias, Cascavel, v. 11, n. 3, p. 90-99, set./dez. 2017.

Reler é descobrir que algumas obras permanecem no mesmo lugar enquanto nós atravessamos o tempo.




Há alguns anos, ao reorganizar uma estante, encontrei um romance que havia lido durante a juventude. Reconheci a capa, o papel amarelado e a dobra que eu costumava fazer no canto superior das páginas, hábito que hoje me causa certo constrangimento. Havia também frases sublinhadas, pequenos sinais à margem e comentários escritos com uma convicção que já não possuo. Em determinada página, deparei com uma observação tão categórica que precisei interromper a leitura. A caligrafia era minha, a ideia parecia pertencer a outra pessoa. Fiquei algum tempo diante daquele vestígio, tentando compreender o jovem que havia passado por ali e deixado, entre as palavras de um escritor, uma versão provisória de si mesmo.

Acreditamos que voltamos a um livro, quando também voltamos ao leitor que fomos. As páginas guardam a história narrada pelo autor e outra história, silenciosa, formada pelas circunstâncias em que a conhecemos. Um romance lido durante uma viagem carrega o rumor das estações, o cansaço dos hotéis, a paisagem contemplada pela janela de um ônibus. Um poema encontrado durante o luto conserva a temperatura daquele período. Existem livros nos quais permanecem o rosto de alguém, uma casa onde já não moramos, o entusiasmo de uma amizade desfeita. A biblioteca pessoal transforma-se, com os anos, numa espécie de autobiografia involuntária.

Vivemos, entretanto, sob o governo da novidade. Livros chegam às livrarias cercados pela urgência que antes pertencia aos jornais. São anunciados como acontecimentos, disputam algumas semanas de atenção e cedem espaço à próxima temporada. As redes sociais ampliaram essa velocidade. O leitor termina uma obra enquanto já organiza a fotografia da capa, registra uma nota, atualiza a meta anual e pergunta qual será a leitura seguinte. Aos poucos, o livro passa a integrar a mesma corrente de objetos que surgem, brilham e desaparecem. A experiência da leitura converte-se em contabilidade: tantos títulos por mês, tantas páginas por ano, tantos clássicos antes de determinada idade.

Existe prazer na descoberta e alguma felicidade no encontro com um autor desconhecido. Uma biblioteca alimentada somente pelas antigas fidelidades correria o risco de se transformar num aposento fechado, protegido das vozes que ainda não aprendemos a escutar. Cada novo livro pode deslocar as fronteiras daquilo que julgávamos saber. O problema começa quando a novidade deixa de ser abertura e se torna obrigação, quando o leitor atravessa as obras com a ansiedade de quem percorre um catálogo infinito. Nessa marcha, terminamos muitos livros e convivemos com poucos.

A releitura introduz outra medida do tempo. Na primeira passagem, somos conduzidos pela curiosidade: queremos saber o que acontecerá, aonde aquela voz pretende nos levar, qual destino aguarda as personagens. Na segunda, o enredo já perdeu parte de seu poder de surpresa. Livres da urgência do desfecho, começamos a observar a construção. Percebemos a imagem discreta que antecipava uma tragédia, a mudança quase imperceptível no ritmo das frases, o silêncio de uma personagem, a palavra repetida que organiza secretamente um capítulo. A história que antes nos arrastava passa a revelar sua arquitetura.

Foi assim que reencontrei Anna Kariênina. Na primeira leitura, eu havia acompanhado sobretudo a força pública da tragédia: o adultério, a condenação social, o conflito entre desejo e convenção, o movimento inexorável em direção à morte. Anos depois, encontrei outro romance dentro do romance. Tolstói me pareceu menos interessado numa queda repentina do que no lento estreitamento da consciência de Anna. Seu mundo vai perdendo saídas à medida que o ciúme transforma cada gesto de Vronski em indício, cada ausência em ameaça, cada palavra em confirmação de abandono. A tragédia já estava presente na primeira leitura. Faltava-me experiência para reconhecer a maneira como uma pessoa pode ser aprisionada pelas interpretações que produz.

O livro permanecera quase o mesmo. Eu havia mudado. Entre uma leitura e outra, a vida acrescentara ao meu vocabulário experiências que nenhum dicionário conseguiria definir: perda, desconfiança, envelhecimento, culpa, responsabilidade. Algumas passagens adquiriram peso porque agora encontravam, em mim, uma superfície capaz de recebê-las. Outras perderam o brilho que possuíam. O romance revelou novos sentidos e também expôs as limitações do leitor anterior. Toda releitura contém esse pequeno julgamento do passado.

Essa mudança explica por que nenhum grande livro se oferece inteiro de uma só vez. Uma obra literária possui camadas, ambiguidades, ritmos e relações internas que excedem a memória de uma primeira aproximação. Há também sentidos que dependem do tempo histórico. Uma geração lê um romance atenta às relações de classe; outra percebe nele as marcas do gênero, da raça, do colonialismo ou da devastação ambiental. As obras atravessam os séculos porque aceitam perguntas que seus autores jamais formularam. Sua permanência decorre da capacidade de continuar produzindo inquietação.

Convém reconhecer que alguns livros se esgotam em nosso primeiro encontro. Outros merecem permanecer fechados. A releitura também pode funcionar como refúgio contra o desconhecido, uma repetição confortável de certezas antigas. Quem retorna somente às mesmas autoridades talvez procure nelas a confirmação de um mundo que deseja conservar. Por isso, uma biblioteca viva precisa combinar hospitalidade e fidelidade: espaço para as vozes que chegam e tempo para aquelas cuja complexidade ainda nos chama. Descobrir e retornar são movimentos complementares da formação de um leitor.

Há ainda livros que relemos por razões distantes de qualquer projeto intelectual. Voltamos a eles como se regressássemos a uma rua da infância. Conhecemos suas limitações, enxergamos os artifícios do enredo, antecipamos cada revelação e seguimos experimentando prazer. A obra preserva uma parcela de nossa história. Certas aventuras guardam a idade em que o mundo parecia mais extenso; certos poemas devolvem por alguns instantes a voz de quem os recitou para nós; certos romances transportam a luz de uma casa desaparecida. O valor dessas releituras pertence à memória afetiva, território em que as hierarquias da crítica literária exercem pouca autoridade.

Também relemos para verificar se ainda somos capazes de amar aquilo que amamos. Esse retorno envolve algum perigo. O livro venerado aos vinte anos pode parecer grandiloquente aos quarenta. A personagem que admirávamos revela uma crueldade antes invisível. A filosofia que nos orientava exibe suas fissuras. Uma antiga paixão literária pode sobreviver ao reencontro, transformar-se ou chegar serenamente ao fim. A releitura constitui, nesse sentido, uma prova de intimidade. Somente relações profundas suportam a descoberta de que o objeto amado possui falhas e de que o amor precisa encontrar outra forma para continuar existindo.

Talvez por isso as marcas deixadas nos livros sejam tão perturbadoras. Elas registram o instante em que uma consciência encontrou uma frase e decidiu salvá-la. Anos depois, voltamos à mesma página e sublinhamos outro trecho. Entre as duas linhas corre uma vida inteira. O livro torna-se o lugar onde diferentes versões de nós mesmos se encontram sem jamais conversar diretamente. Uma admirou a promessa; outra reconheceu a perda. Uma procurava respostas; outra aprendeu a permanecer diante das perguntas.

A quantidade de livros disponíveis continuará crescendo, e nossa vida conservará seus limites. Jamais alcançaremos todas as obras que parecem necessárias. Essa insuficiência pode produzir ansiedade ou ensinar uma forma de escolha. Ler passa então a significar também eleger companhias, aceitar que algumas vozes seguirão conosco e conceder a elas o tempo que uma relação verdadeira exige.

Quando retirei da estante aquele velho romance, pensei que voltaria a uma história conhecida. Encontrei o rastro de alguém que eu havia sido e percebi que os livros possuem uma paciência desconhecida pelos homens. Eles permanecem em silêncio durante anos, às vezes durante décadas, esperando que a experiência termine de nos ensinar aquilo que suas páginas já diziam. Um dia retornamos, abrimos o volume no mesmo lugar e descobrimos que, enquanto acreditávamos tê-los abandonado, eles continuavam à nossa espera — guardando as perguntas que ainda não sabíamos fazer.
José Fagner. Theme by STS.