Nem todo texto seu será genial



Se você decidir que só vai escrever quando tiver uma ideia genial — dessas que parecem chegar já vestidas para a posteridade — é provável que passe mais tempo esperando do que vivendo como escritor. A genialidade, quando vira pré-condição, transforma-se em álibi elegante para a inércia.

Durante muito tempo, pensei sobre essa dificuldade quase constrangedora de criar o hábito da escrita. Mesmo quando a tarefa parecia modesta — um comentário, uma crônica breve, uma opinião sobre política ou sobre o campeonato do fim de semana — havia sempre uma resistência inicial, um silêncio interno que se impunha antes da primeira frase.

Imaginemos alguém que decide abrir um blog. Não para revolucionar o pensamento nacional, mas para registrar impressões: a movimentação política, o desempenho de um time, os pequenos escândalos cotidianos que alimentam as manchetes. A disciplina exigida é simples no papel — ler diariamente, refletir, escrever. Um ciclo regular, quase mecânico. Ainda assim, poucos conseguem sustentá-lo.

Por quê?

As razões variam: falta de tempo, compromissos pessoais, cansaço acumulado. Mas, no meu caso, havia algo menos circunstancial e mais corrosivo: a comparação. Eu lia os autores que admirava — aqueles que pareciam manejar as palavras com naturalidade clínica — e, ao tentar imitá-los, produzia textos que me soavam pálidos, artificiais. Entre o que eu lia e o que eu escrevia havia uma distância que me constrangia.

Não é difícil entender o que acontece em seguida. A pessoa escreve duas ou três vezes, considera o resultado insuficiente, arquiva os textos numa pasta esquecida e passa a evitar a próxima tentativa. O hábito, que depende de repetição, morre antes de nascer. Como cultivar constância sem prática? É impossível. Estudos sugerem que são necessários, em média, sessenta e seis dias de repetição para consolidar um novo hábito — mas quem persevera por dois meses escrevendo algo que julga medíocre?

Ocasionalmente, eu produzia um texto que considerava aceitável. Esses eu publicava. Depois, vinha um longo intervalo até que algo “digno” surgisse novamente. Era um sistema irregular, governado por lampejos e silêncios.

Até que um dia reli alguns desses textos “publicáveis” e percebi que eram, na verdade, tão imperfeitos quanto os outros que eu havia descartado. A diferença estava menos na qualidade objetiva e mais na minha indulgência momentânea. Foi uma constatação desconfortável, mas libertadora. Se todos eram imperfeitos, então a prática — e não a espera pela excelência — era o único caminho razoável.

Passei a publicar quase diariamente. Não porque os textos fossem melhores, mas porque eu já não exigia deles uma grandeza que eu ainda não possuía. Seis meses depois, voltei aos primeiros escritos. A evolução era visível, quase didática. O que antes parecia aceitável agora denunciava hesitação; o que antes eu temia mostrar tornara-se apenas um estágio necessário.

Quando entrei na faculdade, já não havia receio em submeter meus textos ao olhar alheio. Era inevitável escrever e ser avaliado em praticamente todas as disciplinas. A revisão dos professores — por vezes severa, mas sempre técnica — revelou estruturas, vícios, possibilidades. Aprendi recursos que dificilmente descobriria sozinho, perdido na própria admiração por autores inalcançáveis.

Mas essa é uma história que merece ser contada com mais vagar.

Por ora, resta a pergunta — talvez menos retórica do que parece: você escreve todos os dias? Se sim, como organiza sua prática? Que métodos sustentam sua constância? Que autores o desafiam e, ao mesmo tempo, o intimidam?

A escrita, afinal, não é um ato isolado de inspiração, mas um compromisso reiterado com a própria imperfeição.

José Fagner Alves Santos

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