Quando o corpo escreve a frase

Em Batida Só, Giovana Madalosso transforma arritmia em linguagem e faz da pontuação um modo de pensar o mistério biológico, a fé em crise e o limite entre vida e morte




Há livros que tentam convencer o leitor por meio de ideias, e há outros que o constrangem pela experiência direta. Batida Só, de Giovana Madalosso, pertence à segunda categoria. Não argumenta; impõe. Não explica; mostra. E é justamente por isso que merece atenção num ambiente literário cada vez mais inclinado a confundir intensidade subjetiva com profundidade intelectual.

O romance parte de um achado simples e rigoroso: a descoberta de uma arritmia grave por uma narradora que é jornalista. A escolha da primeira pessoa não serve aqui ao exibicionismo emocional, mas à construção de um campo de observação. A doença, antes de ser um fato clínico, aparece como problema de linguagem. Nesse ponto, a aproximação com a intuição formulada por Siddhartha Mukherjee em O Imperador de Todos os Males não é acidental. Nomear uma doença é produzir uma narrativa capaz de organizar o sofrimento. A medicina começa quando a experiência deixa de ser muda.

Giovana Madalosso compreende isso com clareza incomum. Seu domínio técnico aparece onde menos se espera: na pontuação. As vírgulas que se acumulam, se interrompem ou rareiam não são efeitos decorativos nem truques de estilo. Funcionam como uma prosódia fisiológica. O texto respira mal quando o coração falha. O leitor não interpreta esse ritmo; ele o sofre. Eis um exemplo raro de forma literária que não simboliza um conteúdo, mas o encarna.

Essa inteligência formal distingue o romance do grosso da ficção contemporânea brasileira, marcada por um impulso declaratório que costuma substituir elaboração por desabafo. Aqui, não há manifesto, não há tese sociológica disfarçada de narrativa, não há pedagogia moral. A autora mantém o olhar rente aos acontecimentos: consultas médicas, o retorno à casa da família no interior, o contato com a dor alheia encarnada no filho doente de uma amiga de infância. Nada disso é elevado artificialmente a alegoria. O sentido emerge da justa proporção entre observação e silêncio.

Há, no entanto, um tema subterrâneo que sustenta o livro sem nunca se transformar em discurso: uma crise de fé. Não a fé religiosa em seu aspecto doutrinário, sempre colocada na boca de personagens observados com certa distância irônica, mas algo mais fundamental — a perplexidade diante do corpo. A narradora não busca transcendência; é o funcionamento íntimo da matéria viva que a desarma. O coração, órgão simbólico por excelência, aparece despido de metáfora, operando segundo lógicas que nos escapam.

Nesse ponto, o romance toca um problema filosófico legítimo, sem jamais nomeá-lo como tal: a coexistência, no mesmo princípio vital, de forças que apontam para a conservação e para a destruição. Como lembra Mukherjee a respeito do câncer, o mal pode ser resultado do excesso de uma função originalmente benigna. O mesmo se aplica ao coração de Batida Só: ele bate porque vive, mas justamente por isso pode falhar. A pergunta que emerge — “Como pode um corpo apontar, ao mesmo tempo, para a vida e a morte?” — não exige resposta. Exige contemplação.

Giovana Madalosso escreve como quem sabe que a literatura não existe para resolver mistérios, mas para delimitá-los com precisão. Seu romance não consola, não instrui, não oferece saídas. Oferece algo mais raro: uma experiência formal à altura da gravidade do que descreve. Num tempo em que a ficção frequentemente se reduz a panfleto sentimental ou exercício narcísico, Batida Só lembra que escrever ainda pode ser um ato de inteligência.

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