Contra as Ideias Puras

Num mundo obcecado por teorias e abstrações, a literatura sobrevive como uma arte imperfeita da matéria — e talvez como a única forma honesta de conhecimento que nos resta.


Há um traço curioso na cultura contemporânea: a convicção de que compreender o mundo é reduzi-lo a ideias. Explicações substituem experiências. Teorias ocupam o lugar das coisas. Tornou-se possível atravessar um romance inteiro sem sentir o peso de uma porta, o cheiro de um quarto fechado, a aspereza de uma roupa molhada. As personagens pensam muito. Vivem pouco.

Isso não é apenas um vício estilístico. É um sintoma.

Durante séculos, a literatura soube que a inteligência começa no corpo. Não porque seus autores fossem empiristas disciplinados, mas porque escreviam a partir do que viam, ouviam e tocavam. Em Madame Bovary, Gustave Flaubert não descreve a chuva como um conceito meteorológico, mas como alteração do mundo: odores que sobem da terra, cores que se tornam opacas, superfícies que mudam de textura. A realidade não é cenário; é resistência.

Hoje, a tendência dominante parece inversa. Muitos romances são compostos por uma sucessão de abstrações. O amor é discutido; raramente é encarnado. A angústia é analisada; dificilmente é sentida. Personagens vagam como consciências sem gravidade, libertas do inconveniente de habitar um espaço reconhecível.

Essa literatura é filha legítima de uma época que acredita que o pensamento pode substituir a experiência. A modernidade foi construída sobre a esperança de que a razão nos libertaria do acaso e da contingência. Criou ideologias, sistemas políticos, teorias econômicas e, inevitavelmente, romances que aspiram à condição de ensaio filosófico.

O problema é que seres humanos não vivem em conceitos. Vivem em ambientes.

Flannery O'Connor observou que o escritor precisa lembrar-se de que nosso conhecimento começa pelos sentidos. Não recebemos o mundo por telepatia. Somos criaturas sensoriais antes de sermos criaturas racionais. A advertência é simples, mas contraria uma ilusão profundamente moderna: a de que podemos escrever — e viver — a partir de ideias puras.

Até Karl Marx, cujo pensamento se estruturou em torno de sistemas grandiosos, reconheceu que a educação dos sentidos é tarefa de uma vida inteira. A frase sobrevive à arquitetura ideológica que a cerca. Os sentidos são treinados pela experiência; não podem ser substituídos por doutrinas.

Quando a literatura abandona essa base sensível, transforma-se em comentário sobre si mesma. Pode ser espirituosa, pode ser crítica, pode até parecer sofisticada. Mas raramente cria a ilusão indispensável de realidade. Torna-se um exercício de inteligência, não uma forma de conhecimento.

Anton Chekhov formulou o problema com precisão: não diga que a lua está brilhando; mostre o brilho do luar refletido num pedaço de vidro quebrado. A frase é citada como conselho técnico, mas é mais do que isso. É um lembrete de que o universal só se torna visível no particular. O conceito só ganha sentido quando atravessa a matéria.

Algo semelhante aparece no prefácio de Joseph Conrad a The Nigger of the Narcissus, quando ele fala em fazer justiça ao universo visível. A ambição é modesta — e, por isso mesmo, radical. Não se trata de explicar o mundo. Trata-se de descrevê-lo com fidelidade suficiente para que o leitor o reconheça.

A literatura, nesse sentido, é uma arte da encarnação. Lida com seres feitos de pó, inseridos em circunstâncias que não escolheram, submetidos ao desgaste do tempo. Quando o escritor evita essa materialidade, produz algo leve demais para ser verdadeiro. Um romance pode sobreviver à ausência de uma tese; dificilmente sobrevive à ausência de mundo.

Convém, porém, resistir a qualquer romantização excessiva. A literatura nunca foi antídoto contra a barbárie. Sociedades capazes de produzir obras-primas também foram capazes de atrocidades. A leitura não purifica. Não impede o retorno cíclico das ilusões políticas ou das paixões coletivas.

O que ela pode oferecer é algo mais discreto: uma forma de atenção. Num ambiente saturado por discursos, análises e teorias que prometem explicar tudo, o romance lembra que a experiência humana é opaca, fragmentária e sensorial. Ele não resolve o enigma da existência. Apenas o torna visível.

Talvez isso seja pouco. Mas, num mundo que insiste em substituir as coisas por ideias, pode ser o único gesto de honestidade que ainda resta.


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