Retórica, Poder e o Fim do Mundo Comum



O diagnóstico do declínio da retórica revela uma mutação estrutural da política contemporânea. A perda da retórica é inseparável da perda de um mundo comum no qual o conflito político ainda podia ser mediado pela palavra. O que se dissolve não é a eloquência, mas a própria possibilidade de persuasão entre adversários que reconhecem a legitimidade recíproca de sua presença no espaço público.

A política moderna sempre viveu de uma tensão instável entre conflito e persuasão. Onde essa tensão se desfaz, a política não se torna mais racional; ela se torna mais primitiva. O desaparecimento da retórica não inaugura a era do argumento correto, mas a do poder exercido em nome de verdades que já não precisam convencer, apenas se impor. A crença de que seria possível purificar a política de suas dimensões retóricas — emoções, artifícios, ambiguidades — é parte da mesma ilusão que sustentou a ideia de progresso moral inevitável: a fantasia de que o conflito humano pode ser neutralizado por procedimentos racionais.

Essa ilusão nunca foi neutra. Ao substituir o julgamento político pela autoridade técnica ou moral, ela redefine o desacordo como desvio. O adversário não é alguém a ser persuadido, mas um erro a ser corrigido. Nesse contexto, a retórica deixa de ser vista como uma prática de convivência entre divergentes e passa a ser tratada como uma forma de manipulação suspeita, algo a ser expurgado em nome de uma racionalidade superior.

A tradição retórica clássica partia de uma suposição hoje quase inaceitável: a de que o outro compartilha um mundo suficientemente comum para que razões façam sentido. O ethos não era um detalhe psicológico, mas a condição política mínima da persuasão. Sem ethos, não há convencimento; há apenas reafirmação tribal. O discurso público contemporâneo, contudo, é organizado cada vez menos em torno dessa suposição e cada vez mais em torno da moralização absoluta do conflito.

O adversário político é alguém cuja presença ameaça a própria ordem moral do mundo. Argumentos não são oferecidos para persuadir, mas para deslegitimar. A linguagem deixa de ser um meio de mediação e torna-se um instrumento de exclusão simbólica. O paradoxo é evidente: nunca se invocou tanto a razão, a ciência e a evidência, e nunca o espaço público foi tão impermeável à argumentação. A racionalidade converte-se em linguagem de comando; a evidência, em pretexto para silenciar.

Esse processo é reforçado pela fantasia tecnocrática de um governo sem política. A crença de que sociedades complexas podem ser administradas como sistemas técnicos supõe que os conflitos fundamentais são, em última instância, mal-entendidos resolvíveis por dados e modelos. Mas conflitos políticos não são disputas sobre fatos isolados; são choques entre visões de mundo incompatíveis. Quando se tenta eliminar a retórica — isto é, a arte de lidar com desacordos insolúveis — elimina-se apenas a possibilidade de mediá-los simbolicamente.

A tecnocracia não supera a política; ela a desloca para formas mais cruas. Onde decisões são apresentadas como inevitáveis, a resistência assume formas cada vez mais ressentidas e irracionais. O declínio da retórica e a ascensão do populismo não são fenômenos opostos, mas complementares. Ambos emergem do mesmo vazio: o colapso da linguagem intermediária entre poder e violência.

Nesse cenário, a democracia persiste como procedimento, mas não como prática deliberativa. Eleições continuam a ocorrer, instituições permanecem de pé, mas o elemento persuasivo se esvazia. A maioria governa impondo; a minoria resiste deslegitimando. A política transforma-se numa disputa permanente por ocupação institucional, não numa luta por hegemonia construída pela palavra.

Costuma-se atribuir esse estado de coisas ao excesso de emoção ou à degradação do discurso público. Mas o problema central não é o excesso de retórica; é sua ausência. Onde não há persuasão, resta apenas a administração ou a coerção. Onde não se fala para convencer estranhos, fala-se apenas para confirmar aliados. A linguagem política deixa de criar mundos compartilhados e passa a operar como marcador de fronteiras morais.

Recuperar a retórica não significa restaurar civilidade superficial nem reviver um ideal clássico de harmonia. Retórica, em seu sentido mais profundo, é o reconhecimento do caráter trágico da política. Ela parte do pressuposto de que não há soluções finais, apenas acomodações provisórias entre valores que não se reconciliam. A retórica não promete consenso; ela torna o dissenso habitável.

Sem essa prática, o conflito não desaparece — ele se absolutiza. A política perde sua dimensão humana e se converte em um jogo entre abstrações morais ou sistemas técnicos. Reviver a retórica é aceitar que a política não é um ramo da engenharia nem uma extensão da moral privada, mas uma prática contingente cujo objetivo não é alcançar a verdade final, e sim adiar a violência por meio da palavra.

O declínio da retórica marca o momento em que as sociedades deixam de acreditar que podem falar consigo mesmas. Quando a palavra já não persuade, resta apenas o comando ou o silêncio. Nenhuma ordem política sobrevive indefinidamente nesse terreno. A retórica não é o oposto da razão; é a única forma política que a razão pode assumir em um mundo plural. Onde ela morre, a política não se torna mais esclarecida — torna-se apenas mais perigosa.

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