O equívoco de ser si mesmo

Entre Freud e a rotina do escritório, a ideia de um “eu autêntico” resiste como uma superstição elegante

cena desenhada apenas com linhas pretas finas sobre fundo branco, como uma charge elegante de revista.  No centro, há um homem sentado de frente para um espelho grande, apoiado sobre uma mesa. Nós vemos suas costas — ele está levemente curvado, com a mão no queixo, numa postura pensativa. No espelho, porém, aparece o seu rosto: um homem comum, expressão cansada e um pouco confusa, como se estivesse tentando entender algo que não se deixa entender.  Dentro do espelho, ao redor da imagem dele, surgem várias outras figuras — versões ou vozes diferentes, como se fossem pessoas distintas habitando o mesmo espaço mental. Cada uma fala algo diferente, em pequenos balões de fala. As frases são curtas, meio contraditórias, como pensamentos concorrentes: – “Seja eficiente.” – “Não decepcione.” – “Parece uma ótima ideia.” – “Você merece mais.” – “Relaxa. Todo mundo finge.” – “O que você quer mesmo é outra coisa...” – “Eles vão pensar que você é fraco.” – “Posta alguma coisa inteligente.”  Essas vozes não parecem hostis, mas também não ajudam — são como conselhos simultâneos que se anulam. Criam uma sensação de ruído interno.  À esquerda da cena, na parede, há pequenos papéis presos com alfinetes, como lembretes do dia a dia: – “Reunião 10:00” – “Responder e-mails” – “Ligar para o banco”  Logo abaixo deles, um bilhete maior chama atenção. Está escrito: “Lembrar: quem está falando agora?” É quase uma pergunta dirigida ao próprio homem — e talvez ao observador.  Sobre a mesa, há alguns objetos simples: um notebook aberto, um caderno com uma caneta, e uma caneca. Na caneca está escrito, com humor seco: “Análise não resolve, mas atrapalha menos.”  À direita da mesa, há uma pequena pilha de livros. Os títulos são nomes de pensadores: Freud, Nietzsche, Jung, Voegelin. Eles estão ali como referências intelectuais — mas não parecem oferecer uma solução clara para o dilema do homem.  Uma luminária de mesa completa a cena, inclinada para baixo, iluminando o espaço de trabalho.  No canto inferior direito, há uma assinatura estilizada, como a de um cartunista.  A imagem, como um todo, transmite uma sensação de conflito silencioso: não é um drama explosivo, mas uma espécie de desorientação íntima, organizada e civilizada — alguém funcionando normalmente por fora, enquanto por dentro é atravessado por vozes demais e uma dúvida central: qual delas, afinal, é “eu”?


Há uma crença persistente nas sociedades modernas de que cada indivíduo abriga, em algum lugar recôndito, um “verdadeiro eu” — uma entidade relativamente estável, moralmente mais íntegra e ontologicamente mais legítima do que as máscaras que o cotidiano impõe. Essa crença, embora raramente formulada com precisão filosófica, orienta boa parte do que hoje se chama de “busca por autenticidade”. 

O sujeito contemporâneo pode passar décadas operando com notável eficiência: trabalha, responde mensagens, ajusta-se a códigos sociais cada vez mais voláteis, aprende a modular opiniões conforme o ambiente. Nada disso exige que ele saiba quem é. Pelo contrário, essa ignorância pode ser uma vantagem funcional. A ideia de que há algo essencial a ser descoberto — uma identidade profunda esperando por reconhecimento — é, nesse contexto, mais um artefato cultural do que uma necessidade existencial.

Freud, com seu costumeiro pessimismo clínico, já havia minado parte dessa fantasia. O eu, em sua teoria, não é soberano nem transparente a si mesmo; é antes uma instância precária, pressionada por forças que não controla e frequentemente não compreende. O sujeito que “fala muito e já não sabe quem, dentro dele, está falando” não é uma anomalia moderna: é uma descrição bastante adequada da condição humana em geral. A diferença é que, hoje, essa condição vem acompanhada de uma retórica inflacionada sobre autenticidade.

Nietzsche foi mais longe ao sugerir que a própria ideia de unidade do eu é uma ficção útil. O que chamamos de identidade seria, na melhor das hipóteses, um arranjo provisório de impulsos conflitantes. A “colagem de vozes alheias” que tantos lamentam não é um desvio recente, mas o estado normal de um animal que se tornou social antes de se tornar coerente. A pretensão de eliminar essa multiplicidade em nome de um núcleo autêntico pode ser uma nostalgia metafísica.

Ainda assim, a suspeita de que há algo de errado em viver inteiramente na superfície não é facilmente descartável. Mesmo que o “verdadeiro eu” seja uma construção, há graus de autoengano que produzem efeitos discerníveis. O acúmulo de pequenas falsidades — concessões feitas por conveniência, reações ensaiadas para evitar conflito — tende a embotar aquilo que, por falta de termo melhor, ainda chamamos de consciência. Não porque exista um centro puro a ser preservado, mas porque o instrumento de percepção se deteriora quando é sistematicamente distorcido.

Jung reinterpretou esse problema como um descompasso entre diferentes camadas da psique. Seu conceito de individuação sugere que a tarefa não é descobrir uma essência oculta, mas integrar conteúdos dispersos e frequentemente conflitantes. Trata-se de um projeto ambicioso, talvez excessivamente otimista, que pressupõe uma capacidade de síntese nem sempre disponível. Ainda assim, ele reconhece algo importante: a vida psíquica não se reduz àquilo que o sujeito consegue narrar sobre si mesmo.

Mas é em Eric Voegelin que encontramos uma crítica mais incisiva à ideia de autossuficiência do eu. Para Voegelin, a consciência humana não é um sistema fechado, mas uma abertura para uma ordem que a transcende. A noção de que o indivíduo poderia “produzir a si mesmo” — tão cara a certas versões contemporâneas do individualismo — seria, nesse sentido, uma forma de desorientação espiritual. O reconhecimento de que não somos autores de nossa própria existência introduz um elemento de humildade que a linguagem da autenticidade frequentemente omite.

Curiosamente, essa humildade não elimina o problema inicial: o sujeito continua sem saber exatamente quem é. O que muda é o enquadramento da questão. Em vez de buscar uma identidade definitiva, ele pode começar a observar os mecanismos pelos quais se engana. Esse exercício de sinceridade não conduz necessariamente a uma revelação edificante. Com frequência, revela apenas a extensão do autoengano.

João Ubaldo Ribeiro, se convocado a esse debate, provavelmente desconfiaria de toda a empreitada. Sua obra sugere que o brasileiro, ao menos, desenvolveu uma competência notável para conviver com contradições sem a necessidade de resolvê-las filosoficamente. Há nisso uma sabedoria prática que falta a muitas teorias do eu. A insistência em coerência pode ser, em certos casos, mais uma obsessão intelectual do que uma exigência da vida.

O problema é que a ausência completa de exame também cobra seu preço. Um sujeito que nunca interroga suas próprias motivações torna-se previsível em seu automatismo. Ele reage ao mundo como um sistema de estímulo e resposta, com pouca margem para revisão interna. Sua inteligência, longe de ser um instrumento de conhecimento, converte-se em um mecanismo de racionalização. Ele perde a capacidade de distinguir entre o que percebe e o que projeta.

A proposta de “retornar a um centro” deve, portanto, ser tratada com cautela. Se esse centro for entendido como uma essência imutável, estamos de volta ao mito inicial. Se, porém, for concebido como uma função — um ponto de referência a partir do qual o sujeito pode examinar suas próprias ilusões — então a ideia ganha alguma utilidade. Não se trata de encontrar o eu, mas de criar condições para não se perder completamente.

Esse retorno, convém insistir, não oferece garantias. Não há promessa de unidade, muito menos de redenção. O sujeito continuará sendo, em grande medida, aquilo que sempre foi: um conjunto instável de tendências, influenciado por circunstâncias que não controla. O que pode mudar é o grau de consciência com que ele habita essa instabilidade.

A noção de que existe em nós algo que “permanece idêntico a si mesmo” ao longo do tempo é, sob escrutínio rigoroso, difícil de sustentar. O que há, talvez, é uma continuidade narrativa — uma capacidade de contar a própria história como se houvesse um fio condutor. Essa capacidade é indispensável para a vida prática, mas não deve ser confundida com uma identidade substancial. O “eu” que diz “eu” é menos uma entidade do que um hábito linguístico profundamente enraizado.

E, no entanto, abandonar completamente essa linguagem não parece uma opção viável. O ser humano continua a operar como se fosse alguém, mesmo quando reconhece a fragilidade dessa suposição. Há aqui uma ironia: sabemos que o eu é uma construção, mas não conseguimos viver sem ele. A lucidez, nesse caso, não elimina a ilusão; apenas a torna mais consciente.

Talvez seja esse o máximo que se pode esperar de um projeto de autoconhecimento despojado de ilusões grandiosas. Não a descoberta de uma essência, nem a conquista de uma autenticidade plena, mas uma redução modesta do autoengano. Um sujeito que se observa com alguma honestidade pode continuar fraco, contraditório, sujeito a recaídas — mas será, ao menos, um pouco menos previsível para si mesmo.

No melhor dos casos, o que se obtém é um acordo temporário com as próprias incoerências. Um armistício precário entre impulsos divergentes, mantido por uma vigilância que nunca se completa. Não é uma solução elegante, mas tem a vantagem de ser plausível.

Em um mundo que celebra narrativas de autoaperfeiçoamento e promete reconciliações definitivas, essa conclusão pode parecer desanimadora. Talvez seja apenas uma descrição mais sóbria do que está em jogo. Afinal, como já se suspeitava desde Freud, o problema não é que não sabemos quem somos. É que, mesmo quando sabemos um pouco mais, isso raramente nos torna aquilo que imaginávamos querer ser.

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