A forma que o Brasil não sabe o que fazer

O ensaio, a crônica e o desconforto de pensar em público


Montaigne inventou o ensaio em 1580 sem pretender inventar coisa alguma. Retirou-se para uma torre, mandou gravar nas vigas sentenças céticas dos antigos e começou a escrever sobre si mesmo — o eu era o único objeto de que dispunha com certeza. O resultado foi um gênero que, desde o primeiro dia, incomodou todo mundo. Os sistemáticos o achavam frouxo. Os líricos o achavam árido. As instituições não sabiam onde arquivá-lo.

Quinhentos anos depois, o ensaio continua sem lar fixo. A pergunta sobre o que ele é persiste pela quantidade de respostas ruins que acumula. O ensaio é uma prática com um problema: o de que o pensamento humano não se deixa reduzir às formas que os humanos constroem para organizá-lo.

Francis Bacon tentou disciplinar o gênero em aforismos. Os seus ensaios são elegantes, às vezes brilhantes, estruturalmente fechados — o pensamento já estava resolvido antes de ser escrito. A linguagem servia para transmitir conclusões. Isso os aproximava do tratado e os afastava do movimento que Montaigne havia inaugurado: o de uma escrita que descobre enquanto avança, sem saber aonde vai, porque o pensamento genuíno raramente sabe.

O ensaio é o registro de um pensamento que sabe, ainda que confusamente, que não domina o mundo que tenta compreender.


A tradição que se seguiu — de Hazlitt a Lamb, de Woolf a Adorno, de Benjamin a Cioran — produziu variações sobre uma postura: a de um sujeito que expõe o percurso de seu pensamento, com suas hesitações e seus desvios, recusando a autoridade das conclusões prontas. A digressão é a fidelidade do ensaio ao objeto que investiga. O pensamento humano opera por associações, recuos e desvios que nenhuma metodologia consegue domesticar inteiramente.

No Brasil, o ensaio chegou com as vanguardas modernistas e nunca se estabeleceu. O tipo de pensamento que suas instituições toleram explica isso com suficiência.

O que prosperou foi a crônica — ela resolve um problema que o ensaio recusa resolver: o da brevidade aceitável. Cabe num jornal, cabe num intervalo, cabe no tempo de atenção disponível numa cultura que nunca teve muita paciência com o pensamento em processo. É inteligente, por vezes brilhante, estruturalmente confortável. Raramente exige do leitor que acompanhe uma dúvida até o fim.

A crônica de Drummond, de Rubem Braga, de Paulo Mendes Campos é uma forma nobre. Uma forma que administra a perturbação em vez de aprofundá-la. Oferece a ilusão do pensamento sem o custo do pensamento — o que, para a maioria dos leitores e editores, conta como virtude.

O ensaio exige a presença de um sujeito não estabilizado. As instituições brasileiras valorizam exatamente o contrário.

A academia ocupa o outro polo. Rigor, reconhecimento institucional, notas de rodapé — e a supressão sistemática dos elementos que tornam o ensaio singular. O sujeito desaparece como ruído metodológico. A dúvida é convertida em problema de pesquisa. O desvio é cortado na revisão. O que sobra é um texto avaliável por pares e publicável em periódicos — o que é, para uma instituição, tudo que importa.

O ensaio propriamente dito sobrevive no interstício entre esses dois polos. Aparece em revistas de vida curta, em prefácios que ultrapassam o livro que introduzem, em textos que ninguém sabe exatamente como classificar. Quando aparece, é tratado como desvio tolerado por sistemas que preferem a previsibilidade.

O problema vai além do editorial. O ensaio depende de uma certa relação com a incerteza — a disposição de expor o pensamento antes de saber aonde ele vai. Isso exige uma tolerância ao fracasso que as culturas de alto desempenho não cultivam. O Brasil produziu muita coisa notável; produziu relativamente pouco pensamento que se expõe à própria ruína sem rede de proteção.

Há exceções. Sérgio Buarque de Holanda escreveu em Raízes do Brasil algo que oscila entre o ensaio e o diagnóstico histórico — e é justamente essa oscilação que lhe dá força. Paulo Prado, Oswald de Andrade, Nelson Rodrigues em seus textos mais selvagens: casos de uma escrita que não sabe muito bem o que é, e é melhor por isso. São ilhas. O continente é outro.

O continente é formado por uma literatura que prefere o acabamento à exposição, o epigrama ao desvio, a elegância da crônica ao risco do ensaio. Uma descrição, isso — as culturas produzem as formas que suas condições permitem, e as condições brasileiras, historicamente, permitiram pouco pensamento que se contradiz em público.

Hoje, o cenário se complicou de maneiras que os defensores do ensaio não anteciparam. As plataformas digitais democratizaram a publicação e atomizaram a atenção. O resultado foi mais crônica, em formatos ainda mais breves e mais dependentes do engajamento imediato. A newsletter é uma crônica com assunto de e-mail. O thread é um aforismo partido em pedaços. O ensaio, que já encontrava dificuldade em se firmar nas condições do impresso, encontra nas condições do digital algo próximo à impossibilidade estrutural.

Quem escreve ensaio no Brasil de hoje o faz contra a corrente — contra a lógica das plataformas, contra as exigências da academia, contra o conforto da crônica, contra a expectativa de um leitor que aprendeu a querer textos que não o deixem desconfortável por tempo demais.

O ensaio depende da exposição do pensamento em processo, recusa conclusões definitivas e exige a presença de um sujeito não estabilizado. Dificilmente encontrará abrigo em instituições que valorizam previsibilidade, eficiência e autoridade. No Brasil, há ainda uma particularidade: existe uma forma alternativa elegante e bem-amada que faz aproximadamente a mesma coisa com muito menos custo. Enquanto a crônica existir e for o que é — uma forma brilhante de administrar o pensamento sem se render a ele — o ensaio será sempre o estranho na festa.

Esse animal escreve ensaios. Não para chegar a conclusões — porque não consegue deixar de tentar.


O ensaio é a expressão de um certo tipo de criatura. Um animal sem acesso direto à verdade que tampouco consegue abandonar a busca por ela. Um animal que constrói sistemas para se orientar e constantemente se vê desmentido por eles. Esse animal escreve ensaios — não para chegar a conclusões, porque não consegue deixar de tentar. Cada tentativa carrega a marca de sua limitação: a necessidade de partir de si, a incapacidade de seguir em linha reta, a tendência a se perder em desvios que revelam mais do que qualquer trajeto planejado.

Se o Brasil produz poucos ensaios no sentido mais exigente do termo, talvez seja porque esse tipo de criatura encontra aqui, como em toda parte, formas mais confortáveis de existir. A crônica é uma delas.

E se isso parece pouco, é porque ainda esperamos demais do pensamento. Esperar demais é uma das coisas que os humanos fazem com maior consistência — em qualquer latitude.

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