Roma Caiu — e o homem continuou o mesmo



Há um sentimentalismo histórico particularmente moderno: a crença de que certas épocas “caem”, enquanto outras “progridem”. Como quase todas as ilusões modernas, essa também depende de uma mitologia reconfortante — a ideia de que a história possui direção moral. O curioso é que mesmo pessoas que perderam a fé em Deus continuam acreditando numa espécie de providência secular chamada “avanço civilizacional”.

É nesse contexto que figuras como Santo Agostinho costumam ser mal compreendidas. Ele é frequentemente apresentado como um homem vivendo “o fim de um mundo”, como se houvesse antes dele uma ordem sólida, racional e estável que simplesmente começou a desmoronar. Mas o Império Romano nunca foi esse organismo harmonioso imaginado pelos nostálgicos da civilização clássica. Era um sistema gigantesco sustentado por violência militar, exploração fiscal, instabilidade política e guerras recorrentes. Sua aparência de permanência era apenas isso: aparência.

Os homens sempre confundem duração com eternidade.

Quando Agostinho nasceu, em 354, em Tagaste, no norte da África romana, o Império ainda preservava suas formas monumentais: estradas, tribunais, escolas de retórica, administração imperial, culto à ordem. Como muitas sociedades complexas, Roma produzia a impressão psicológica de inevitabilidade. Seus cidadãos instruídos acreditavam habitar o centro do mundo civilizado. Mas civilizações não desmoronam subitamente como edifícios implodidos; é mais comum que elas entrem num longo processo de exaustão em que as instituições continuam existindo mesmo depois de perderem a substância que lhes dava coesão.

Agostinho foi formado precisamente nesse ambiente ambíguo. Estudou retórica, buscou reconhecimento, ensinou em Cartago, Roma e Milão. Como tantos intelectuais talentosos de qualquer época, imaginava inicialmente que inteligência e eloquência poderiam garantir domínio sobre a própria vida. É uma crença persistente. Os antigos a possuíam tanto quanto os modernos. Hoje ela apenas assume a linguagem da meritocracia, da realização pessoal e da “alta performance”.

Mas a experiência humana raramente confirma essas fantasias de autossuficiência.

Enquanto Agostinho construía sua carreira, o mundo romano atravessava crises militares, fragmentação política e disputas religiosas incessantes. Ainda assim, seria ingênuo imaginar que os contemporâneos percebiam claramente estar vivendo uma “queda civilizacional”. Os seres humanos quase nunca compreendem o próprio tempo dessa maneira. Continuam trabalhando, disputando prestígio, acumulando riqueza, defendendo ideologias e planejando o futuro mesmo quando as estruturas ao redor começam a falhar.

O saque de Roma pelos visigodos em 410 costuma ser tratado retrospectivamente como um símbolo do colapso do mundo antigo. Mas símbolos históricos são construções posteriores. Para muitos habitantes do Império, aquilo foi mais um episódio de violência numa história já saturada de guerras, usurpações e catástrofes.

A diferença é que certos choques destroem mitos psicológicos.

Roma parecia eterna porque os romanos precisavam acreditar nisso. Quando a cidade foi saqueada, caiu uma imagem metafísica de segurança. E é aqui que Agostinho se torna intelectualmente importante de uma maneira que continua desconfortável para o homem contemporâneo.

Ele não tentou salvar a ilusão.

Em A Cidade de Deus, Agostinho rejeita a crença — antiga ou moderna — de que qualquer ordem política possa oferecer redenção histórica. Nenhum império, nenhuma civilização, nenhum sistema social elimina a precariedade fundamental da condição humana. Essa talvez seja a ideia mais estranha para mentalidades modernas, acostumadas a imaginar que tecnologia, crescimento econômico ou engenharia institucional possam finalmente resolver o drama humano.

Agostinho compreendeu algo que o liberalismo contemporâneo frequentemente se recusa a aceitar: progresso material não altera decisivamente a natureza humana.

Os romanos acreditavam na eternidade de Roma. Os modernos acreditam na eternidade do progresso. Ambos confundem estabilidade temporária com solução definitiva. Mas civilizações continuam vulneráveis ao caos, à violência, ao fanatismo e à fragmentação porque os seres humanos permanecem os mesmos animais conflituosos de sempre.

É por isso que as Confissões sobrevivem tão bem ao tempo, porque recusam ilusões sentimentais sobre o homem. Agostinho descreve divisão interior, desejo contraditório, vaidade intelectual, incapacidade de governar plenamente a si mesmo. Sua conversão aparece como reconhecimento da falência da vontade.

Essa percepção continua profundamente ofensiva numa cultura obcecada por autonomia pessoal.

A modernidade prometeu emancipar os indivíduos das antigas dependências religiosas, morais e metafísicas. Em troca, produziu pessoas frequentemente mais ansiosas, mais desorientadas e mais incapazes de lidar com contingência. O homem contemporâneo gosta de acreditar que vive numa época singularmente caótica porque ainda preserva uma expectativa implícita de controle histórico. Espera que o mundo seja administrável. Quando ele deixa de parecer administrável, interpreta isso como anomalia.

Agostinho provavelmente acharia essa surpresa curiosa.

Ele viveu num mundo em transformação violenta, cercado por disputas doutrinárias, instabilidade política e sensação difusa de decadência. Ainda assim, sua obra não é um manifesto de desespero civilizacional. Tampouco é um programa de reconstrução utópica. É algo mais raro: uma investigação radical sobre os limites permanentes da vida humana.

Talvez seja exatamente isso que torna Agostinho moderno — não no sentido progressista da palavra, mas porque ele compreendeu cedo demais uma verdade que as sociedades modernas continuam tentando evitar: a história não salva ninguém.

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