Existe um erro recorrente na vida intelectual brasileira: imaginar que a grandeza de um escritor reside naquilo que ele diz sobre o seu tempo. A grandeza verdadeira aparece quando o escritor alcança uma camada da experiência humana onde o tempo histórico já não basta como chave explicativa. Nessa região, os fatos continuam presentes, os costumes permanecem reconhecíveis, os acontecimentos conservam sua materialidade. A inteligência do autor opera sobre algo mais profundo: a estrutura da alma.
É por essa razão que Machado de Assis continua crescendo à medida que o Brasil encolhe diante dele. No dia 21 de junho comemora-se o nascimento dessa figura tão importante para as nossas letras.
A crítica universitária passou décadas procurando encaixá-lo em categorias sociológicas, psicológicas, raciais, econômicas, ideológicas. Cada geração fabricou um Machado conveniente para suas preocupações. O resultado é curioso: quanto mais se multiplicavam os Machados teóricos, mais desaparecia o homem que escreveu os livros.
O verdadeiro Machado não é um intérprete do Segundo Reinado. Tampouco é um cronista elegante da burguesia carioca. Essas definições possuem algum valor descritivo. Permanecem na superfície do problema.
Quem abre Memórias Póstumas de Brás Cubas encontra algo muito mais raro: uma investigação sistemática dos mecanismos da autoilusão.
Brás Cubas mente para si mesmo. A descoberta parece simples. Sua execução literária exige um grau de refinamento quase inacreditável. Machado compreendeu que o homem raramente conhece as razões autênticas dos próprios atos. O indivíduo cria versões retrospectivas de si mesmo. Organiza justificativas. Reescreve sua biografia. Constrói uma narrativa moralmente suportável. Em seguida, passa a acreditar nela.
A literatura ocidental conhecia esse fenômeno. Santo Agostinho já o examinava nas Confissões. Pascal o observou com precisão devastadora. La Rochefoucauld transformou-o numa anatomia das motivações humanas. Machado absorveu essa tradição e a transplantou para a língua portuguesa com uma naturalidade desconcertante.
Alfredo Bosi percebeu algo essencial quando descreveu a ironia machadiana como uma forma de conhecimento. Não se trata de um recurso ornamental. A ironia funciona como instrumento cognitivo. Ela remove as camadas de autocomplacência que encobrem a realidade moral dos personagens.
Essa operação alcança seu ponto máximo em Dom Casmurro.
Durante mais de um século, multidões de leitores discutiram a fidelidade de Capitu. A questão possui importância secundária. O verdadeiro mistério do romance encontra-se em Bento Santiago.
Helen Caldwell, em seu estudo clássico The Brazilian Othello of Machado de Assis, percebeu aquilo que grande parte da crítica brasileira havia ignorado: o centro dramático da obra não está na culpa de Capitu. Está na imaginação de Bentinho. A suspeita torna-se um princípio organizador da realidade. O narrador reorganiza décadas inteiras de experiência para justificar uma conclusão previamente estabelecida.
John Gledson aprofundou essa percepção ao demonstrar como a estrutura narrativa do romance produz deliberadamente um estado de incerteza permanente. O leitor recebe interpretações dos fatos. Recebe lembranças filtradas por um homem envelhecido que escreve sob o peso de uma obsessão.
A genialidade de Machado aparece justamente aí.
Ele entrega um problema metafísico.
Como distinguir a realidade daquilo que desejamos enxergar?
Essa pergunta atravessa toda a sua obra.
Em Quincas Borba, a filosofia do Humanitismo costuma ser lida como sátira social. A leitura é correta. Existe algo mais profundo em jogo. O Humanitismo constitui uma caricatura dos sistemas ideológicos que prometem explicar integralmente a experiência humana. Rubião enlouquece porque tenta habitar uma interpretação total da realidade. Sua loucura nasce do excesso de sentido.
Eugênio Gomes observou, há décadas, a presença constante de uma inteligência filosófica subterrânea nos romances machadianos. O comentário merece atenção. Machado nunca foi um filósofo sistemático. Sua literatura contém uma percepção filosófica superior à de muitos sistemas. Ele compreendeu uma verdade elementar: a existência humana resiste ao enquadramento conceitual completo.
Daí sua desconfiança diante dos grandes discursos.
Daí sua aversão à retórica.
Daí sua preferência pela observação minuciosa de um gesto, de uma hesitação, de uma frase aparentemente banal.
A alma se revela nos detalhes.
Os ideólogos procuram abstrações.
Os romancistas procuram homens.
Machado pertence à segunda categoria.
Existe ainda um aspecto pouco comentado. Raymundo Faoro, em A Pirâmide e o Trapézio, identificou a extraordinária capacidade machadiana de perceber a circulação do poder dentro das relações cotidianas. O poder político. O poder psicológico. O poder simbólico. O poder afetivo.
Quem domina uma conversa?
Quem conduz uma amizade?
Quem manipula uma lembrança?
Quem estabelece os termos de uma relação?
Essas perguntas percorrem silenciosamente seus romances.
Nenhum personagem machadiano vive isolado. Todos habitam uma rede de influências recíprocas. Cada palavra produz consequências invisíveis. Cada gesto altera uma hierarquia.
A grande literatura nasce dessa percepção.
A literatura menor descreve acontecimentos.
A grande literatura descreve estruturas permanentes da experiência.
Por essa razão Machado continua atual sem precisar ser atualizado.
A expressão “atualizar os clássicos” revela uma incompreensão fundamental. Um clássico não necessita de atualização. Necessita, isso sim, de leitores capazes de alcançá-lo.
Silviano Santiago observou que Machado escrevia a partir de uma posição de deslocamento, olhando para a sociedade brasileira sem aderir integralmente a nenhuma de suas ilusões coletivas. Esse distanciamento intelectual explica parte de sua força. O escritor não se confundia com as paixões do ambiente.
O resultado é uma obra que educa a inteligência moral do leitor.
Poucos autores realizam essa tarefa.
A maioria oferece emoções.
Alguns oferecem ideias.
Machado oferece discernimento.
Sua prosa ensina a desconfiar das versões prontas. Ensina a examinar os movimentos ocultos da consciência. Ensina que o autoengano constitui uma das forças mais poderosas da história humana.
Num país apaixonado por slogans, por palavras de ordem, por fórmulas redentoras, a leitura de Machado adquire um valor quase terapêutico.
Ele recorda uma verdade esquecida: o homem não é transparente para si mesmo.
Toda civilização que esquece esse fato caminha em direção à estupidez.
Toda literatura que o compreende aproxima-se da sabedoria.
Machado de Assis alcançou essa sabedoria com uma elegância que continua sem equivalente entre nós. Não ergueu monumentos verbais. Não precisou levantar a voz. Não procurou impressionar ninguém.
Limitou-se a observar.
Observou tão profundamente que transformou a língua portuguesa num instrumento de investigação da alma.
É por isso que continua acima de seus intérpretes, acima de suas escolas críticas, acima de suas épocas sucessivas.
Os grandes escritores sobrevivem porque conhecem algo permanente.
Machado conhecia. E escreveu.
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