O momento em que a realidade responde



Quase todo mundo que deseja escrever passa por uma experiência parecida.

Ela costuma surgir cedo. Às vezes na adolescência. Às vezes um pouco depois. A pessoa lê um romance, uma crônica, um conto ou um poema e sente uma espécie de choque. Não exatamente admiração. Menos ainda inveja.

É uma sensação mais estranha.

A impressão de que existe alguma coisa ali que ela também gostaria de fazer.

Então vem a segunda descoberta.

Ela não sabe como.

O mundo parece dividido em dois grupos. De um lado estão os escritores. Do outro estão as pessoas comuns. Os escritores parecem possuir acesso a alguma dimensão secreta da realidade. Conseguem encontrar significado onde os demais encontram rotina. Conseguem transformar experiências comuns em algo memorável.

O iniciante conclui que lhe falta talento.

Durante muito tempo eu pensei assim.

Acreditava que os escritores observavam um mundo diferente do meu. Imaginava que a matéria-prima da literatura estivesse escondida em experiências excepcionais, viagens extraordinárias, acontecimentos históricos, paixões arrebatadoras ou reflexões filosóficas profundas.

A vida cotidiana parecia insuficiente.

Era comum olhar para minha própria existência e sentir que nada nela merecia ser escrito.

Os dias passavam.

As pessoas conversavam.

Os ônibus chegavam atrasados.

Os vizinhos discutiam.

As tardes terminavam.

Nada daquilo parecia literatura.

Depois de algum tempo comecei a perceber um detalhe curioso.

Os grandes escritores que eu admirava frequentemente escreviam sobre coisas muito menores do que eu imaginava.

Proust era capaz de passar páginas inteiras descrevendo uma sensação provocada por uma lembrança.

Machado transformava uma conversa aparentemente banal em radiografia moral.

Nelson Rodrigues encontrava tragédias em partidas de futebol.

Rubem Braga construía crônicas inteiras a partir de uma janela, de uma rua ou de um passarinho.

O problema estava na maneira como eu a observava.

Existe uma armadilha muito comum na formação de quem escreve.

Acreditamos que a literatura nasce quando encontramos assuntos importantes.

Na verdade, ela costuma nascer quando descobrimos a importância dos assuntos.

A diferença parece pequena.

Não é.

Uma pessoa pode atravessar uma praça sem notar nada.

Outra pode atravessar a mesma praça e perceber um casal prestes a terminar um relacionamento, um aposentado alimentando pombos por pura necessidade de companhia, uma criança aprendendo pela primeira vez que pode cair e se machucar.

A praça continua a mesma.

O que mudou foi a atenção.

Talvez seja por isso que tantos aspirantes a escritor permaneçam paralisados durante anos.

Eles estão procurando temas.

A literatura está esperando observadores.

Os temas já estão por toda parte.

Numa fila de supermercado.

Num grupo de mensagens da família.

Num elevador silencioso.

Num velório.

Num aniversário infantil.

Numa conversa que termina alguns segundos antes do esperado.

As pessoas costumam chamar essas coisas de banalidades.

Talvez porque ainda não tenham parado para observá-las de verdade.

A banalidade é frequentemente apenas profundidade mal observada.

Foi isso que Nelson Rodrigues entendeu quando decidiu olhar para o futebol.

Outros cronistas viam resultados.

Ele via personagens.

Outros viam partidas.

Ele via dramas.

Outros viam torcidas.

Ele via multidões revelando medos, esperanças, ressentimentos e desejos que normalmente permaneciam escondidos.

A bola servia apenas como ponto de partida.

O assunto verdadeiro era o ser humano.

Essa descoberta não vale apenas para a literatura.

Vale para quase toda forma de criação.

O fotógrafo aprende que não está fotografando objetos.

Está fotografando relações.

O cineasta aprende que não está filmando cenas.

Está filmando conflitos.

O escritor aprende que não está escrevendo sobre fatos.

Está escrevendo sobre experiências.

E as experiências estão em toda parte.

O problema é que demoramos para acreditar nisso.

Continuamos esperando autorização.

Esperando maturidade suficiente.

Esperando conhecimento suficiente.

Esperando viver algo grandioso.

Esperando nos transformar em alguém digno de escrever.

Enquanto isso, a matéria-prima da escrita continua passando diante dos nossos olhos.

Todos os dias.

Silenciosamente.

Como se tivesse infinita paciência.

Durante muito tempo imaginei que o escritor fosse alguém capaz de encontrar respostas.

Hoje desconfio que seja quase o contrário.

O escritor é alguém que aprende a permanecer diante das perguntas.

Por que aquela lembrança continua voltando?

Por que aquela frase aparentemente inocente ficou ecoando durante anos?

Por que certas pessoas desaparecem da nossa vida sem deixar vestígios e outras permanecem para sempre?

Por que uma rua da infância consegue nos emocionar mais do que lugares objetivamente mais bonitos?

A escrita começa quando paramos de fugir dessas perguntas.

Não para respondê-las imediatamente.

Para habitá-las.

Para permitir que elas trabalhem dentro de nós.

E então acontece algo curioso.

Aquilo que antes parecia comum começa a adquirir densidade.

Os dias deixam de ser apenas dias.

As pessoas deixam de ser apenas pessoas.

As lembranças deixam de ser apenas lembranças.

Tudo ganha espessura.

Tudo ganha profundidade.

Tudo parece esconder alguma coisa.

Nesse momento, o futuro escritor costuma acreditar que finalmente encontrou a literatura.

Na verdade, encontrou algo ainda mais importante.

Encontrou a realidade.

A realidade verdadeira.

Não aquela que usamos para pagar contas, cumprir horários e atravessar a semana.

A outra.

A que vive por baixo das aparências.

A que transforma um gesto mínimo em revelação.

A que faz um cheiro devolver uma infância inteira.

A que faz uma derrota esportiva parecer uma tragédia nacional.

A que faz uma despedida comum carregar mais peso do que muitos acontecimentos históricos.

E então chega o instante decisivo.

O instante que separa quem deseja escrever de quem efetivamente começa.

Você percebe que não está esperando a vida acontecer.

Ela já aconteceu.

Está acontecendo.

Acontecerá amanhã novamente.

Na mesa da cozinha.

Na esquina da sua rua.

Na voz dos seus pais.

No silêncio dos seus amigos.

Nas coisas que você ama.

Nas coisas que perdeu.

Nas coisas que ainda não compreende.

De repente, a sensação de insuficiência desaparece.

Não porque você se tornou mais inteligente.

Não porque se tornou mais culto.

Não porque finalmente encontrou um grande tema.

Ela desaparece porque você compreende algo que os grandes escritores compreenderam antes de você.

O mundo nunca esteve vazio.

Você é que ainda não tinha aprendido a vê-lo.

E quando finalmente aprende, ainda que por alguns segundos, acontece uma espécie de milagre.

A realidade deixa de ser cenário.

Ela se torna interlocutora.

Você olha para ela.

E, pela primeira vez, ela olha de volta.

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