A superstição do adjetivo



Existem palavras que deixam de designar a realidade para funcionar como amuletos. Em determinados ambientes, elas dispensam demonstração, suspendem o contraditório e instauram uma pequena liturgia da obediência. Durante muito tempo, poucas cumpriram esse papel com tanta eficiência quanto o adjetivo acadêmico.

Basta qualificá-lo assim para que um argumento adquira uma espécie de imunidade ritual. A discussão deixa de girar em torno da consistência das evidências ou da coerência do raciocínio. O selo basta. O interlocutor que insiste em pedir demonstrações passa a ocupar, por um curioso deslocamento semântico, a posição de obscurantista. A palavra converte-se em tribunal, e a autoridade substitui aquilo que deveria legitimá-la: a força dos argumentos.

Essa inversão revela um equívoco profundamente moderno. Desde Max Weber sabemos que as instituições vivem de formas de legitimação que sobrevivem muito depois de perderem a energia intelectual que as criou. Pierre Bourdieu descreveu esse fenômeno ao mostrar que os campos científicos acumulam capital simbólico, um patrimônio de prestígio que pode continuar produzindo deferência mesmo quando seus mecanismos internos deixam de funcionar com o rigor esperado. A ciência nunca dependeu desse capital para produzir conhecimento; dependeu, antes, da permanente disposição para destruir as próprias certezas. Karl Popper sintetizou essa exigência de maneira quase brutal: "o critério do estatuto científico de uma teoria é a sua falseabilidade". Quando uma afirmação deixa de admitir a possibilidade de refutação, ela já não pertence ao universo da ciência. Pertence ao domínio da ortodoxia.

O curioso é que muitos dos que mais recorrem ao adjetivo acadêmico parecem esquecer justamente aquilo que distingue o trabalho universitário de qualquer catecismo: metodologia rigorosa, controle de vieses, revisão crítica permanente, abertura à contestação e disposição para abandonar hipóteses fracassadas. A academia nasceu como um espaço institucionalizado para a dúvida. Transformá-la numa fonte de verdades inquestionáveis equivale a negar sua própria razão de existir.

Enquanto o interlocutor aceita intimidar-se pelo vocabulário técnico, a encenação funciona sem maiores dificuldades. Os jargões produzem uma atmosfera de competência que frequentemente substitui a própria competência. Ortega y Gasset observava que a especialização excessiva cria um tipo humano peculiar: o "sábio ignorante", profundamente competente numa estreita parcela da realidade e extraordinariamente confiante fora dela. A proliferação contemporânea desse personagem talvez explique parte do problema. O prestígio do especialista passou a valer como autorização para qualquer pronunciamento, ainda que ele escape completamente ao domínio em que sua expertise foi construída.

Quando, porém, o debate encontra alguém familiarizado com os métodos, as fontes ou a bibliografia, a retórica sofre um deslocamento previsível. O que antes era apresentado como conclusão definitiva passa, subitamente, a ser apenas um "recorte metodológico". A palavra que encerrava a discussão reaparece agora reduzida a uma escolha entre muitas outras possíveis. O argumento deixa de reivindicar universalidade e procura abrigo na relativização. O curioso é que ambas as posições dificilmente podem coexistir. Se a conclusão depende inteiramente do recorte, ela jamais poderia ter sido apresentada como verdade indiscutível. Se constitui uma verdade sólida, o recorte não pode servir como álibi para escapar às objeções.

Esse mecanismo não é novo. Só ganhou novas formas de circulação.

Foi impossível não recordar o episódio que entrou para a história como Caso Sokal. Em 1996, o físico Alan Sokal submeteu à revista Social Text um artigo deliberadamente destituído de sentido, repleto de impropriedades conceituais, raciocínios inválidos e jargões cuidadosamente distribuídos para produzir uma aparência de sofisticação intelectual. O texto defendia, entre outras extravagâncias, que a gravidade seria uma construção social e linguística. Publicado sem consulta a especialistas em física, o artigo atravessou todo o processo editorial protegido justamente pelo prestígio da linguagem que empregava.

Depois da publicação, Sokal revelou tratar-se de uma fraude cuidadosamente planejada. Seu objetivo não consistia em ridicularizar toda a produção das humanidades, como tantas vezes se afirma de maneira simplista, mas testar até que ponto determinadas comunidades intelectuais haviam passado a valorizar a conformidade ideológica acima da consistência argumentativa. A experiência produziu um desconforto raro porque revelou algo mais perturbador do que um erro editorial. Foi possível perceber que oprestígio institucional pode anestesiar justamente os mecanismos críticos encarregados de protegê-lo.

Richard Feynman costumava advertir que "o primeiro princípio é que você não deve enganar a si mesmo — e você é a pessoa mais fácil de enganar". Poucas frases descrevem tão bem a fragilidade das instituições intelectuais. O perigo sempre residiu na facilidade com que comunidades inteiras aprendem a reconhecer como profundidade aquilo que apenas reproduz o vocabulário esperado.

Seria reconfortante acreditar que episódios dessa natureza produziram reformas duradouras. A história recente inspira uma conclusão menos otimista. Instituições humanas raramente aprendem de maneira definitiva. Corrigem um defeito enquanto cultivam outro. Abandonam um dogma apenas para fabricar seu sucessor.

Quando setores da extrema-direita passaram a investir contra as universidades, encontraram terreno fértil justamente porque alguns intelectuais pareciam empenhados em confirmar os estereótipos mais caricatos de seus adversários. A caricatura tornou-se matéria-prima da propaganda. Bastaram alguns professores transformando conferências em performances narcisistas, algumas teses de relevância duvidosa e uma quantidade razoável de exibicionismo moral para que décadas de produção científica séria fossem reduzidas, aos olhos do público, a uma coleção de excentricidades.

Essa tragédia possui uma ironia difícil de ignorar. Os inimigos da universidade jamais precisaram compreender seu funcionamento para atacá-la. Bastou explorar as deformações produzidas por aqueles que mais reivindicavam falar em seu nome. Toda instituição suficientemente antiga produz seus próprios anticorpos e também suas próprias doenças. A universidade não escaparia dessa regra porque nenhuma instituição criada por seres humanos consegue escapar.

John Gray observa que uma das ilusões persistentes do pensamento moderno consiste em imaginar que o conhecimento torna a espécie humana moralmente superior. A história sugere exatamente o contrário. O conhecimento amplia instrumentos; raramente transforma caráter. Civilizações acumulam bibliotecas inteiras enquanto continuam repetindo antigas formas de vaidade, tribalismo e autoengano. As universidades, como qualquer outra instituição, permanecem submetidas à mesma condição antropológica. Produzem descobertas extraordinárias. Produzem também sacerdotes convencidos de sua própria infalibilidade.

Talvez a maior ameaça ao pensamento nunca tenha sido a ignorância. A ignorância reconhece seus limites com mais frequência do que a inteligência institucionalizada. O verdadeiro perigo começa quando o prestígio substitui a investigação, quando o vocabulário ocupa o lugar da evidência e quando a autoridade passa a dispensar a demonstração. Nesse instante, a universidade deixa de cumprir sua vocação mais elevada e se converte em mais uma igreja entre tantas outras.

Toda ortodoxia imagina possuir um monopólio da verdade. Toda ortodoxia acaba descobrindo, cedo ou tarde, que apenas administrava um monopólio da linguagem. A verdade, indiferente aos nossos títulos, às nossas credenciais e aos nossos congressos, continua existindo muito depois que os aplausos cessam. Ela nunca precisou de certificados. Muito menos de sacerdotes.

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