A professora que eu ainda não conhecia

 Em Mata Doce, Luciany Aparecida transforma o sertão baiano em arquivo de mulheres, cartas, violências e formas obstinadas de permanência


Era o primeiro dia de aula do doutorado em Literatura e Crítica Literária, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Subi ao quarto andar, onde funcionam os programas de pós-graduação — ao menos aqueles que eu conhecia —, procurando descobrir em qual sala teria início a disciplina. Entrei na secretaria e encontrei a Ana, que cuida do programa e nos socorre como uma espécie de anjo da guarda burocrático, dessas pessoas que sabem onde estão as salas, os formulários, os prazos e os caminhos secretos de uma universidade. Ela conversava com uma mulher negra, elegante, de cabelos cheios e um cachecol enrolado ao pescoço, vestida para resistir ao frio incômodo de agosto em São Paulo. Entrei com a pressa egoísta dos recém-chegados e interrompi a conversa antes mesmo de perceber que havia uma conversa acontecendo.

— Ana, você sabe me dizer onde serão as minhas aulas?

— Com quem serão as suas aulas?

Peguei o celular e procurei o cronograma, tentando decifrar aquela primeira manhã a partir da pequena tela.

— Está escrito aqui que é com uma tal de Luciany Aparecida.

Ana olhou para a mulher ao lado.

— Essa moça aqui?

Olhei novamente para o celular, depois para a mulher de cachecol.

— Acho que é — respondi, já começando a sentir o peso da expressão “uma tal de”.

— Sala 307, terceiro andar.

Desci para aguardar a professora, fingindo que o constrangimento havia ficado no andar de cima. A porta da sala continuava fechada, e me sentei no chão do corredor. Eu ainda não ouvira falar de Luciany Aparecida. Desconhecia sua trajetória como escritora, pesquisadora e professora. Também ignorava que aquela mulher havia nascido em 1982, no Vale do Jiquiriçá, região da Bahia que guardava parentescos geográficos com o interior onde cresci, e que seu primeiro romance publicado com o próprio nome já alcançara uma circulação rara para a literatura brasileira contemporânea. Mata Doce, lançado pela Alfaguara em 2023, seria finalista do Prêmio Jabuti, semifinalista do Oceanos e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de melhor romance de 2023. Descobri parte dessas coisas nas conversas com os colegas. Outras vieram depois, quando comecei a compreender que a professora que entrava na sala carregava uma obra anterior assinada por Ruth Ducaso, Margô Paraíso e Antônio Peixôtro, nomes que ela prefere chamar de “assinaturas estéticas”, cada qual associado a uma forma de experimentar autoria, gênero literário e linguagem. A própria Luciany descreve esse procedimento como uma criação teatral e contracolonial, uma maneira de interrogar quem recebe o direito de assinar uma obra e sob quais condições uma mulher negra pode tornar-se autora de si mesma. Em entrevistas posteriores, ela lembraria que frequentemente se espera que a literatura produzida por pessoas negras recaia apenas naquilo que o público reconhece como panfleto.

Durante as aulas, encontrei uma professora simpática, generosa, apaixonada por poesia e aberta ao diálogo, inclusive quando minhas intervenções desviavam um pouco do caminho previsto. Havia algo de significativo nessa abertura: Luciany parecia compreender que uma aula de literatura precisa conservar algum espaço para o desvio, pois os livros importantes raramente nos conduzem ao lugar para o qual imaginávamos estar indo. Só depois fui ler Mata Doce. A leitura alterou também a memória daquele encontro. A mulher que eu vira com um cachecol no quarto andar começava a trazer para uma sala paulistana as vozes de um povoado baiano construído sobre lajedos, roseirais, cartas, terreiros, disputas de terra e histórias transmitidas entre mulheres.

O título já contém o romance em estado de semente. Mata carrega o verbo que elimina e o substantivo que abriga. É a ação que interrompe uma vida e o lugar onde a vida cresce escondida. Doce traz a promessa do açúcar, junto à história social que o açúcar brasileiro jamais conseguiu esconder: terra apropriada, trabalho violentado, riqueza concentrada e corpos transformados em instrumentos de produção. As duas palavras formam o nome de um povoado e enunciam sua contradição mais profunda. Em Mata Doce, a terra alimenta, fere, expulsa, chama de volta e conserva os mortos dentro da memória dos vivos. O romance parece nascer dessa ambiguidade. Cada gesto de cuidado preserva a lembrança de uma ferida. Cada violência encontra pela frente uma comunidade treinada pela necessidade de continuar.

O povoado situa-se na zona rural baiana. Diante de um casarão ergue-se um lajedo de pedra; ao redor da casa, um roseiral floresce em branco. Ali cresce Maria Teresa, a Filinha Mata-Boi, criada pela professora Mariinha e por Tuninha, mulher trans que participa da formação afetiva da menina e da arquitetura doméstica daquela comunidade. “Um lajedo é um lugar de pedra”, escreve Luciany. “Sobre a natureza dura de Mata Doce as mulheres daquelas terras sustentavam suas histórias.” O lajedo oferece ao romance sua metáfora central. Pedra é aquilo que permanece, aquilo que resiste à passagem dos corpos e conserva as marcas de quem pisou sobre ela. Também é o solo aparentemente impróprio para a delicadeza de um roseiral. A narrativa planta suas mulheres nesse terreno e acompanha o esforço necessário para que uma história atravesse a dureza sem adquirir a forma daquilo que a feriu.

Mata Doce reúne Maria Teresa, Mariinha, Tuninha, Luzia, Lai, Josefa, Mãe Maximiliana, Mãe Carminha e tantas outras personagens numa constelação em que parentesco, afeto e responsabilidade possuem uma força comparável à do sangue. Um estudo comparativo de Luciana Carvalho Gomes aproxima o romance de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, para mostrar como a desagregação familiar produzida pelas estruturas escravistas e patriarcais encontra resposta na construção de vínculos afetivos. Essa perspectiva esclarece a importância sociológica do livro. Luciany apresenta mulheres negras rurais como produtoras de formas próprias de sociabilidade. Elas acolhem, ensinam, adotam, protegem, escrevem, narram e organizam a vida coletiva. A casa passa a constituir uma instituição de sobrevivência. Dentro dela são transmitidos saberes que os arquivos oficiais raramente registraram: quem era filha de quem, quem conhecia determinada reza, quem ajudou num parto, quem cuidou do corpo, quem encontrou abrigo, quem soube reconhecer a chegada de uma entidade, quem se lembrou de contar.

Essa comunidade feminina oferece uma resposta literária à maneira como a história brasileira registrou as populações negras do campo. A documentação oficial costuma alcançá-las quando ocorre um conflito de terras, um crime, uma desapropriação, uma ação policial ou uma disputa judicial. A vida cotidiana permanece fora do enquadramento. Luciany devolve duração a essas existências. Suas personagens amam, desejam, rezam, cozinham, criam filhos, escrevem cartas, fazem alianças, guardam ressentimentos e imaginam outros destinos. A relevância do romance cresce justamente nesse ponto: suas mulheres carregam as determinações de raça, gênero e classe sem se reduzirem à condição de exemplos sociológicos. Elas possuem contradições, opacidades, medos, crueldades, ternuras e desejos. A literatura começa quando uma vida excede a categoria usada para explicá-la.

Leyla Perrone-Moisés ajuda a compreender a exigência contida nesse gesto. Em seu ensaio sobre a literatura engajada, a crítica revisita o antigo problema do compromisso político da obra e recorda que a justeza de uma causa oferece apenas uma parte da avaliação. A literatura atua por meio da linguagem, da forma e da imaginação; seu alcance político depende da força com que esses elementos reorganizam nossa percepção. Uma obra pode defender valores admiráveis e permanecer literariamente inerte. Também pode criar uma experiência estética que nos obrigue a ver aquilo que a vida social treinou nossos olhos para ignorar. A potência contracolonial de Mata Doce cresce porque Luciany constrói um mundo, oferece espessura às personagens e transforma a memória em princípio formal da narrativa. O romance toca as estruturas brasileiras de opressão por dentro das vidas que essas estruturas tentaram governar.

A forma, nesse sentido, constitui parte central da tese. A narração começa em terceira pessoa; em determinado momento, Maria Teresa assume a primeira. O tempo recua, avança, contorna acontecimentos e retorna a eles por outra voz. Cartas datilografadas atravessam o livro como mensagens dirigidas a ausentes: a mãe de Venâncio, o filho de Gerônimo levado pelas águas, a filha de Lai. As histórias chegam aos poucos, submetidas ao trabalho da lembrança, que escolhe, repete, silencia e modifica. A polifonia impede que uma única consciência se torne proprietária de Mata Doce. Ninguém conhece todo o povoado. Cada personagem guarda um pedaço, e a totalidade só pode ser pressentida pela sobreposição das vozes.

Pesquisadores têm associado essa estrutura ao tempo espiralar das cosmopercepções africanas. Em artigo publicado na revista Terra Roxa e Outras Terras, Jerson Oliveira Mendes Junior e Vitor Cei observam que o romance articula ancestralidade, conflitos agrários, raça, gênero e classe por meio de uma temporalidade na qual passado e presente continuam atuando um sobre o outro. O estudo identifica em Mata Doce a ficcionalização de um povoamento quilombola marcado pelo coronelismo e pelos abusos de poder. Essa espiral oferece uma chave mais fecunda que a ideia de simples retorno. O passado volta transformado pela voz que o recebe. Cada mulher herda a história anterior e acrescenta a ela sua maneira de suportá-la.

As cartas materializam esse movimento. Escreve-se para quem partiu, para quem ainda não chegou, para quem talvez jamais leia. Maria Teresa registra palavras que atravessam distâncias incapazes de ser vencidas pelo corpo. Muitas dessas cartas parecem destinar-se tanto a quem escreve quanto a quem deveria recebê-las. Datilografar torna-se uma forma de tocar a ausência sem dissolvê-la. A literatura conhece bem esse gesto. Todo livro é uma carta enviada a um desconhecido; o autor escreve sem saber quem encontrará a página, em qual cidade ela será aberta ou que espécie de falta acompanhará o leitor naquele dia. Mata Doce radicaliza essa condição: suas mensagens circulam entre vivos, mortos e pessoas cuja identidade ainda está sendo construída pela própria narração. A carta chega quando encontra alguém capaz de recebê-la.

O procedimento dialoga com as experiências de autoria realizadas anteriormente por Luciany. Ruth Ducaso, uma de suas assinaturas estéticas, já havia transformado a carta em objeto, performance e problema literário. Em Cartas de Bogotá, a escritora chegou a endereçar e enviar textos para si mesma, fazendo da circulação postal uma parte da criação. Há um estudo sobre essa assinatura que interpreta Ruth Ducaso como uma “arma tática, conceitual, criativa e anticolonial”. Em Mata Doce, esse conceito reaparece amadurecido: a carta passa a organizar relações entre memória, ausência e pertencimento. A escrita devolve alguma presença àqueles que a violência, a distância e a morte arrancaram do convívio.

Leyla Perrone-Moisés escreveu, em Mutações da literatura no século XXI, sobre a vitalidade de uma literatura cuja morte foi anunciada tantas vezes. A cultura do espetáculo empurrou o escritor para festivais, entrevistas, redes sociais e formas permanentes de exposição; ao mesmo tempo, a ficção continuou produzindo obras exigentes, capazes de sobreviver à velocidade do mercado e à redução do livro a produto de entretenimento. Para Perrone-Moisés, o realismo constitui uma das marcas fortes da produção brasileira contemporânea. Mata Doce participa dessa tendência e a desloca. Sua realidade inclui o visível, o ancestral, o religioso, o sonho, a assombração e os saberes preservados pelas comunidades. Luciany não acrescenta uma camada mágica a um mundo previamente racional. Ela escreve a partir de uma percepção na qual esses planos convivem e produzem efeitos concretos sobre a vida.

Maria Teresa é filha de Yemanjá Sabá, a mais velha das Yemanjás, e traz consigo a reserva e a solidão atribuídas a essa filiação. Suas mães reconhecem a herança antes que a menina possa nomeá-la. O romance recebe esse conhecimento com a naturalidade reservada aos fatos decisivos: o curso de um rio, a mudança de uma estação, o nome dado a uma criança. A religiosidade de matriz africana participa da organização do mundo narrado e da inteligência das personagens. Trata-se também de uma escolha estética. Ao dispensar a tradução permanente desses saberes para uma racionalidade exterior, Luciany altera a posição do leitor. Somos nós que entramos em Mata Doce; o povoado não precisa sair de si para tornar-se legível aos nossos hábitos.

A violência chega pelo coronel Gerônimo Amâncio, figura que condensa o poder senhorial, a posse da terra, a apropriação dos corpos e o direito imaginário de decidir quais vidas podem continuar. Ele mata Zezito, filho que também era seu, viola Luzia e ataca Maria Teresa na véspera do casamento, enquanto ela experimenta o vestido de noiva. O branco retorna no vestido, no sangue que o mancha, na cobra, nas rosas do jardim. A repetição das imagens retira a violência do campo do episódio isolado e a instala na estrutura do romance. Gerônimo pertence a uma história brasileira em que o proprietário aprende a confundir extensão de terra com extensão de poder. O corpo feminino torna-se, para ele, mais uma área sobre a qual acredita possuir direitos.

Luciany evita transformar essa violência em espetáculo. O acontecimento repercute nos corpos, nas relações e na memória, como uma ferida cuja existência modifica a maneira de tocar o mundo. A resistência das mulheres surge no trabalho cotidiano de sustentar umas às outras. Elas constroem comunidades, criam meninas, enterram mortos, transmitem histórias e preservam formas de vida sob a pressão contínua do poder. Sua força carece da limpeza moral que tantas narrativas concedem aos vencedores. Há raiva, medo, ressentimento, culpa e cansaço. A sobrevivência conserva marcas. Essa ausência de pureza engrandece o romance, porque resistir raramente significa sair ileso.

A sociologia de Mata Doce encontra-se nessa rede de proteção criada por pessoas historicamente afastadas dos centros de decisão. Em entrevista, a própria Luciany afirmou que colocou mulheres rurais e negras no centro da narrativa para mostrar como populações excluídas constroem “lugares de amparo e de composição social”. A frase ilumina aquilo que o romance realiza: a comunidade funciona como tecnologia de sobrevivência. Estudos sobre a obra já destacam as relações entre território, negritude, terreiros e resistência feminina. Em Mata Doce, cuidar possui uma dimensão política porque mantém vidas em circulação num território onde o poder pretende interrompê-las.

A presença de Úrsula explicita a tradição literária na qual Luciany inscreve seu romance. Manuel Querino pede a Maria Teresa que procure o livro de Maria Firmina dos Reis, publicado em 1859 e reconhecido como marco da autoria feminina negra e do romance abolicionista brasileiro. O gesto cria uma linhagem. Maria Firmina concedeu interioridade a sujeitos escravizados num período em que grande parte da literatura os tratava como tipos, sombras ou instrumentos do enredo. Luciany recolhe essa conquista e a leva ao sertão contemporâneo. Quando Maria Teresa lê Úrsula, deseja trazer Mata Doce para mais perto de si. “Ela queria outro tempo.” A leitura inaugura uma temporalidade que o mundo ao redor ainda não lhe ofereceu.

Um livro pode introduzir outro tempo dentro daquele que nos coube viver. Maria Teresa, criada para um destino aparentemente traçado, encontra numa página a possibilidade de imaginar uma duração própria. A literatura não substitui a vida, tampouco repara por decreto aquilo que a história destruiu. Ela amplia o campo do possível. Depois de certos livros, permanecemos na mesma casa, sob o mesmo salário, diante das mesmas limitações; alguma coisa em nós já aprendeu a desconfiar do enredo recebido. Essa pequena insubordinação da imaginação antecede muitas mudanças que depois parecerão inevitáveis.

Aqui preciso reconhecer uma dívida pessoal. Também cresci lendo romances nos quais o sertão aparecia como paisagem das dores de personagens distantes de mim. Muitas dessas obras foram decisivas para minha formação; algumas ensinaram uma linguagem com a qual ainda penso o mundo. Sua grandeza convivia com áreas de silêncio que eu demoraria a perceber. Mata Doce devolveu o sertão às pessoas que o habitam e me fez reconhecer quantas vezes a literatura que me formou atravessou o interior sem olhar demoradamente para quem permanecia ali. Reconhecer essa ausência faz parte da leitura. Um livro novo também modifica os livros antigos, pois nos ensina a enxergar aquilo que suas páginas deixaram fora do quadro.

A aproximação com Guimarães Rosa surge quase inevitável e exige cuidado. O sertão rosiano alcança uma dimensão metafísica; a linguagem recria a paisagem até torná-la um território da consciência. Luciany percorre outro caminho dentro desse chão literário. Seu sertão é sustentado pela memória de mulheres negras, pelos vínculos afetivos, pelo terreiro, pelas cartas e pelas disputas agrárias. O que em Rosa se expande como pergunta sobre o destino humano, em Mata Doce ganha a forma concreta de uma pergunta sobre quem recebeu o direito de narrar esse destino. O romance conversa com a tradição e altera a disposição dos lugares à mesa. Maria Teresa não ocupa a margem de um universo sertanejo anteriormente organizado. É a partir de seus olhos, de suas mães e de sua comunidade que esse universo começa a existir.

Essa alteração também responde a um problema discutido por Perrone-Moisés: o valor literário num período em que a crítica enfrenta pressões simultâneas do mercado, das identidades e das urgências políticas. A resposta oferecida por Mata Doce encontra-se na elaboração formal. A representatividade amplia a experiência estética porque reorganiza as posições de onde o mundo pode ser percebido. A obra alcança força quando identidade, história e linguagem entram em combustão. Luciany sabe que uma personagem negra, lésbica, trans ou rural merece complexidade, desejo, tempo narrativo, contradição e uma linguagem capaz de acolher tudo aquilo que escapa às categorias.

No final, Mãe Carminha escreve a Maria Teresa: “Você não deve temer. Deve se sustentar nessa aparição de beleza e se levantar. E ir embora. Tua história está contada e seguirá sendo repetida.” A carta encerra um percurso e entrega a narrativa ao futuro. Contar uma história não impede sua perda; cria as condições para que alguém a encontre novamente. A repetição anunciada por Mãe Carminha também possui algo do tempo espiralar: a história voltará em outra voz, carregando marcas das pessoas que a transmitiram.

A editora apresenta Mata Doce como um romance “épico, delicado e poderoso”. A experiência de leitura encontra uma epopeia ajustada à medida da sobrevivência. As mulheres atravessam a violência carregando suas consequências. A vida continua sem a cerimônia de uma vitória definitiva. Essa é a grandeza discreta do livro: perceber que continuar pode exigir uma coragem maior que vencer, porque a vitória encerra o combate e a sobrevivência precisa acordar novamente na manhã seguinte.

Naquele primeiro semestre, a disciplina ministrada por Luciany foi concentrada. Durante algumas semanas, encontrávamo-nos de segunda a sexta-feira, das sete da manhã ao meio-dia. Era uma intensidade estranha para quem ainda tentava aprender os caminhos do prédio, os nomes dos colegas e o peso que cada leitura teria na formação que começava. Hoje, quando recordo a mulher de cachecol conversando com Ana na secretaria, penso na facilidade com que passamos diante das pessoas sem conhecer as histórias que elas trazem consigo. Eu procurava o número de uma sala. Luciany carregava Mata Doce para dentro dela.

Ao final daquelas manhãs, descíamos os andares e retornávamos à cidade. São Paulo seguia ruidosa, apressada, coberta pelo frio de agosto. Em algum lugar da imaginação, porém, um casarão permanecia diante do lajedo, cercado por mulheres que guardavam nomes, cartas e mortos. Sobre a pedra, o roseiral insistia em florescer. Acredito que toda aula de literatura comece verdadeiramente nesse instante: quando saímos da sala levando conosco a memória de um lugar onde nunca estivemos. Eu havia perguntado onde encontraria Luciany Aparecida. Meses depois, compreendi que a resposta estava num povoado inexistente do interior da Bahia, diante de uma pedra antiga, onde rosas brancas aprendiam a nascer.

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