Há uma pergunta que as tragédias devolvem a Deus com a insistência dos que perderam alguma coisa e precisam encontrar um culpado à altura da perda: onde estavas? Ela aparece depois das guerras, diante dos corpos retirados dos escombros, nos corredores dos hospitais, nas casas em que a fome se senta à mesa antes dos moradores. Onde estava Deus quando tudo isso aconteceu? A pergunta atravessa os séculos porque preserva uma esperança secreta. Se Deus estava em algum lugar, talvez o sofrimento possua uma explicação; talvez o mal tenha ocorrido dentro de uma ordem que ainda somos incapazes de compreender. O silêncio divino transforma-se, assim, numa espécie de réu universal. Chamamos Deus ao tribunal, apresentamos as provas, descrevemos a devastação e esperamos que o Criador explique por que permitiu que sua obra chegasse a esse estado. O Gênesis, porém, inverte o interrogatório. Nas primeiras páginas da Bíblia, quem pergunta onde está o outro é Deus. O homem come o fruto, percebe a nudez e se esconde entre as árvores. Então a voz atravessa o jardim: “Onde estás?”. A pergunta parece solicitar uma localização e alcança uma profundidade moral. Deus sabe onde Adão se escondeu. Adão é que precisa descobrir em que lugar de si mesmo foi parar.
A Bíblia é escrita em terceira pessoa e parece ter um narrador que observa o universo do lado de fora, como se alguém tivesse acompanhado a luz surgindo na escuridão, as águas se separando, os animais ocupando a terra e o homem recebendo o sopro que o converteu em criatura consciente. A doutrina da revelação introduz uma hipótese desconcertante: esse narrador oculto seria o próprio Deus. A história humana torna-se, então, o relato da Criação visto pelos olhos do Criador. Estamos acostumados a ler a Bíblia como um livro sobre a fé dos homens em Deus. Talvez ela seja também um livro sobre a fé de Deus nos homens. A mudança do ponto de vista altera tudo. Diante do Dilúvio, perguntamos por que alguém acreditaria numa divindade que submerge o mundo e quase extingue a espécie que havia criado. Vista do alto, a pergunta adquire outra direção: depois de conhecer os homens, por que Deus continuaria acreditando neles? Por que sustentaria uma criação que tão cedo aprendeu a transformar liberdade em violência, desejo em rivalidade e consciência em instrumento de desculpa?
No Éden, Adão oferece a primeira justificativa humana. A mulher lhe deu o fruto. Eva, por sua vez, entrega a culpa à serpente. Em poucas linhas, a humanidade descobre uma habilidade que aperfeiçoará ao longo de toda a história: fazer escolhas e atribuí-las aos outros. O pecado original pode ser lido como uma transgressão; sua permanência em nós se revela na recusa em responder por aquilo que fazemos. Adão aponta para Eva, Eva aponta para a serpente, e cada pessoa procura uma causa anterior a si mesma, como se a responsabilidade pudesse ser empurrada de mão em mão até desaparecer no fundo do jardim. Na geração seguinte, Caim mata Abel e escuta uma pergunta ainda mais difícil: “Onde está teu irmão?”. Também dessa vez Deus conhece a resposta. O corpo de Abel está no chão, e seu sangue clama da terra. A pergunta se dirige à consciência daquele que ficou vivo. Caim responde com uma frase que atravessou milênios e se converteu no lema subterrâneo de muitas sociedades: “Sou eu o guardião do meu irmão?”.
É nesse mundo, já marcado pela fuga e pelo sangue, que surge Noé. A Torá o apresenta com uma acumulação de elogios concedida a poucas de suas personagens: homem justo, íntegro entre seus contemporâneos, alguém que andava com Deus. Sua presença impede que a Criação seja inteiramente abandonada. O Dilúvio representa uma inversão do Gênesis. As águas que haviam recuado para que a terra firme aparecesse avançam novamente, apagam caminhos, cidades, plantações, nomes e memórias. O mundo retorna ao estado indiferenciado que antecedeu a palavra criadora. Tudo fica suspenso pela existência de um único homem em quem Deus ainda consegue depositar alguma confiança. Noé torna-se a linha frágil que separa a decepção absoluta de uma nova tentativa. Enquanto a chuva cai e a terra desaparece sob as águas, a arca transporta a derradeira fé de Deus na possibilidade humana.
Esse homem justo constrói a embarcação, reúne a família, acolhe os animais e atravessa a destruição. A narrativa parece conduzi-lo ao lugar dos grandes fundadores. A partir dele, o mundo recomeçará. Ainda assim, a vida de Noé termina de maneira estranhamente pequena. Depois do Dilúvio, planta uma vinha, embriaga-se e aparece nu dentro da tenda. O homem que preservou a vida de toda a terra termina como uma figura humilhada diante dos próprios filhos. Sua morte recebe poucas palavras. Abraão será lembrado pela aliança e pela peregrinação; Moisés, pela libertação e pela lei; José, enterrado com a dignidade reservada aos poderosos do Egito. Noé envelhece entre o vinho e a vergonha. A Bíblia parece sugerir que sobreviver ao fim do mundo jamais garantiu saber viver no mundo reconstruído.
O problema de Noé estava contido na própria grandeza de sua virtude. Ele conseguiu permanecer justo enquanto todos ao redor se corrompiam. Protegeu a família, obedeceu às instruções recebidas, suportou o escárnio que provavelmente acompanhou a construção de uma arca em terra seca. Sua retidão, entretanto, permaneceu encerrada nele. Uma antiga imagem da tradição judaica afirma que existem duas maneiras de enfrentar o frio: vestir um casaco ou acender uma fogueira. O casaco aquece quem o veste; a fogueira reúne pessoas ao redor de uma chama comum. Noé possuía um excelente casaco. Foi capaz de conservar sua integridade em meio a uma geração violenta e construiu paredes suficientemente fortes para proteger os seus. Faltou-lhe acender uma fogueira.
A justiça pessoal organiza a vida de um indivíduo; a liderança moral procura alterar o destino dos outros. Noé ouviu a pergunta dirigida a Adão — “Onde estás?” — e respondeu com a própria conduta. Sabia onde estava quando o restante de sua geração havia se perdido. Diante da pergunta dirigida a Caim — “Onde está teu irmão?” —, sua resposta se torna menos clara. Durante os anos em que construiu a arca, quantas pessoas foram advertidas? Quantas foram convidadas a mudar? Quantas escutaram dele que a violência estava empurrando o mundo de volta ao caos? O texto preserva o silêncio. Noé trabalha, recolhe madeira, mede compartimentos, aplica betume por dentro e por fora. Cada golpe de seu martelo anuncia a catástrofe e parece também levantar uma parede entre sua família e o restante da humanidade. Quando a chuva começa, a arca está pronta. A comunidade, não.
Talvez ninguém o escutasse. Os homens raramente acolhem uma advertência que exige a transformação de seus desejos, sobretudo quando a vida ainda parece transcorrer em sua normalidade habitual. Comiam, negociavam, disputavam, celebravam casamentos, acumulavam bens e tratavam a crueldade como parte natural da existência. Noé poderia ter falado durante décadas sem convencer uma única pessoa. Como alguém pode ter certeza do fracasso antes de tentar? A responsabilidade da palavra independe da garantia de ser ouvida. Há épocas em que o protesto preserva apenas a dignidade daquele que se recusou a colaborar com o silêncio. A possibilidade de fracasso jamais absolve previamente quem assistiu à violência e preferiu cultivar sua virtude em segurança.
Por isso a inocência também pode possuir uma zona sombria. Uma pessoa cumpre seus deveres, trata bem a família, paga as contas, conserva as mãos limpas e atravessa uma sociedade sustentada pela miséria de gente cujo rosto nunca precisou conhecer. A honestidade individual oferece conforto porque permite olhar para o espelho e encontrar ali uma pessoa decente. O mundo pergunta por aquilo que nossa decência produziu ao redor, por quem foi aquecido por ela, por quais sofrimentos recebeu nossa palavra, por quais injustiças encontrou em nós alguma resistência. Há homens corretos que passam pela história como passageiros bem-comportados de uma embarcação conduzida para o desastre. Obedecem às regras do convés, arrumam a própria cabine, tratam os tripulantes com cortesia e consideram cumprida sua obrigação. Quando o navio afunda, apresentam a limpeza das mãos como prova de inocência.
A embriaguez de Noé, depois que as águas recuam, ganha assim uma dimensão trágica. O vinho pode ser interpretado como a tentativa de suportar a memória de um mundo inteiro desaparecido. Dentro da arca, em meio ao rumor da chuva e ao movimento dos animais, ele deve ter escutado os sons do lado de fora. A madeira o protegia da água e pouco podia fazer contra aquilo que permanecia na consciência. Sobreviver possui culpas próprias. O vinho pode ter sido sua maneira de esquecer os rostos que ficaram fora da embarcação, inclusive aqueles a quem jamais ofereceu um lugar. A narrativa bíblica nada afirma sobre esse sentimento. Sua secura abre espaço para uma conjectura terrível: o homem que não chorou publicamente pela geração perdida terminou afogado dentro de si. As águas haviam abandonado a terra, continuavam subindo em Noé.
Se o Dilúvio dramatiza o fracasso da responsabilidade comunitária, Babel apresenta outro risco: a dissolução do indivíduo no interior do coletivo. Depois de enumerar os descendentes de Noé e distribuir entre eles povos, territórios, línguas e costumes, o Gênesis nos conduz a uma planície onde todos falam as mesmas palavras. A humanidade decide construir uma cidade e uma torre cujo topo alcance os céus. Costuma-se interpretar o episódio como punição da arrogância humana, o desejo de invadir o território divino. Há, porém, algo ainda mais inquietante naquela cidade: nela ninguém possui nome. Adão, Eva, Caim, Abel e Noé aparecem como pessoas singulares, atravessadas por escolhas e responsabilidades. Em Babel, fala uma multidão anônima: “Vamos fazer tijolos”, “vamos construir uma cidade”, “vamos tornar célebre o nosso nome”. Todos pronunciam as mesmas frases, desejam a mesma coisa, participam do mesmo projeto. A unidade tornou-se uma máquina.
Os tijolos de Babel carregam uma filosofia política. Pedras apresentam formas irregulares, resistem ao encaixe perfeito e preservam as marcas do lugar de onde vieram. Tijolos saem de moldes. Podem ser empilhados, substituídos e contados. Um império prefere tijolos porque todo poder voltado para a expansão sonha com seres humanos fabricados segundo a mesma medida. A língua única, as palavras únicas e o projeto único prometem eliminar conflitos, enquanto eliminam também a diferença, a imaginação e a responsabilidade pessoal. Ninguém em Babel precisa responder “onde estás?”, pois todos estão onde a multidão ordenou. Ninguém pergunta “onde está teu irmão?”, porque o irmão deixou de ser uma pessoa e se tornou mais uma peça empregada na construção. A torre cresce à medida que seus construtores diminuem.
A dispersão das línguas pode ser lida como a defesa divina da multiplicidade humana. Deus interrompe a construção para devolver às pessoas aquilo que o projeto imperial havia retirado delas: a diferença. A confusão linguística, tantas vezes compreendida como castigo, contém uma forma de libertação. As pessoas voltam a falar com vozes próprias, espalham-se pela terra, inventam costumes, histórias e maneiras distintas de nomear o mundo. A diversidade impõe o trabalho da tradução, e traduzir significa reconhecer que o outro contempla a realidade a partir de um lugar que também possui sentido. Babel pretendia livrar os homens do esforço de se compreenderem. Deus os condena — ou talvez os presenteie — com a necessidade do encontro.
Entre Noé e Babel, o Gênesis desenha os dois extremos de um mesmo fracasso. No primeiro, o homem se fecha em sua justiça e abandona a comunidade ao próprio destino. No segundo, entrega sua consciência à comunidade e desaparece dentro dela. Noé é o indivíduo sem o outro; Babel, o coletivo sem indivíduos. Um veste o casaco enquanto todos tremem. O outro lança todos à fornalha para fabricar tijolos idênticos. A vida moral se estabelece no espaço difícil entre esses dois abismos: conservar uma consciência própria e permitir que ela nos comprometa com o destino alheio. “Se eu não for por mim, quem será por mim? E, se sou apenas por mim, o que sou eu?”, pergunta Hillel. A primeira frase nos retira da massa. A segunda nos retira da arca.
Continuamos vivendo entre essas duas tentações. Em períodos de crise, alguns procuram uma arca particular: o condomínio protegido, a reserva financeira, a família preservada, o círculo de pessoas que pensam da mesma maneira. Imaginam que a salvação consiste em atravessar o desastre sem serem tocados por ele. Outros buscam a segurança de Babel: entregam a própria voz ao partido, à igreja, à empresa, à multidão digital, ao grupo que oferece respostas prontas e um inimigo comum. Na arca, a pessoa fecha a porta para o mundo. Na torre, esquece que um dia possuiu uma porta própria. Em ambos os casos, a responsabilidade se dissolve. O homem protegido afirma que a tragédia dos outros não lhe pertence; o homem absorvido pela massa afirma que apenas cumpria aquilo que todos faziam.
Quando perguntamos onde está Deus diante da fome, da doença, da guerra e dos corpos abandonados, talvez ainda estejamos repetindo o gesto de Adão, apontando para fora de nós em busca da origem de uma culpa que nos alcance o mínimo possível. A Bíblia acolhe a pergunta e a devolve ampliada. Onde está você quando alguém tem fome? Onde está você quando o sofrimento do outro se converte em paisagem? Onde está você quando uma multidão escolhe uma vítima e pede sua concordância? Onde está você quando o mundo exige uma palavra que provavelmente será inútil? E onde está seu irmão enquanto você trabalha, cuidadosamente, na construção da própria arca?
Deus já sabe onde estamos. Somos nós que ainda precisamos responder. Talvez o juízo comece pelo inventário de nossas ausências: as vezes em que permanecemos corretos e estéreis, as ocasiões em que confundimos prudência com silêncio, os dias em que chamamos de impotência aquilo que já era acomodação. No fim, a porta da arca conserva marcas dos dois lados. Do lado de fora, ficaram as mãos dos que pediram entrada. Do lado de dentro, permanecem as mãos daquele que a fechou. Quando as águas baixam, é com essas mãos que o sobrevivente precisa reconstruir o mundo.
A Bíblia é escrita em terceira pessoa e parece ter um narrador que observa o universo do lado de fora, como se alguém tivesse acompanhado a luz surgindo na escuridão, as águas se separando, os animais ocupando a terra e o homem recebendo o sopro que o converteu em criatura consciente. A doutrina da revelação introduz uma hipótese desconcertante: esse narrador oculto seria o próprio Deus. A história humana torna-se, então, o relato da Criação visto pelos olhos do Criador. Estamos acostumados a ler a Bíblia como um livro sobre a fé dos homens em Deus. Talvez ela seja também um livro sobre a fé de Deus nos homens. A mudança do ponto de vista altera tudo. Diante do Dilúvio, perguntamos por que alguém acreditaria numa divindade que submerge o mundo e quase extingue a espécie que havia criado. Vista do alto, a pergunta adquire outra direção: depois de conhecer os homens, por que Deus continuaria acreditando neles? Por que sustentaria uma criação que tão cedo aprendeu a transformar liberdade em violência, desejo em rivalidade e consciência em instrumento de desculpa?
No Éden, Adão oferece a primeira justificativa humana. A mulher lhe deu o fruto. Eva, por sua vez, entrega a culpa à serpente. Em poucas linhas, a humanidade descobre uma habilidade que aperfeiçoará ao longo de toda a história: fazer escolhas e atribuí-las aos outros. O pecado original pode ser lido como uma transgressão; sua permanência em nós se revela na recusa em responder por aquilo que fazemos. Adão aponta para Eva, Eva aponta para a serpente, e cada pessoa procura uma causa anterior a si mesma, como se a responsabilidade pudesse ser empurrada de mão em mão até desaparecer no fundo do jardim. Na geração seguinte, Caim mata Abel e escuta uma pergunta ainda mais difícil: “Onde está teu irmão?”. Também dessa vez Deus conhece a resposta. O corpo de Abel está no chão, e seu sangue clama da terra. A pergunta se dirige à consciência daquele que ficou vivo. Caim responde com uma frase que atravessou milênios e se converteu no lema subterrâneo de muitas sociedades: “Sou eu o guardião do meu irmão?”.
É nesse mundo, já marcado pela fuga e pelo sangue, que surge Noé. A Torá o apresenta com uma acumulação de elogios concedida a poucas de suas personagens: homem justo, íntegro entre seus contemporâneos, alguém que andava com Deus. Sua presença impede que a Criação seja inteiramente abandonada. O Dilúvio representa uma inversão do Gênesis. As águas que haviam recuado para que a terra firme aparecesse avançam novamente, apagam caminhos, cidades, plantações, nomes e memórias. O mundo retorna ao estado indiferenciado que antecedeu a palavra criadora. Tudo fica suspenso pela existência de um único homem em quem Deus ainda consegue depositar alguma confiança. Noé torna-se a linha frágil que separa a decepção absoluta de uma nova tentativa. Enquanto a chuva cai e a terra desaparece sob as águas, a arca transporta a derradeira fé de Deus na possibilidade humana.
Esse homem justo constrói a embarcação, reúne a família, acolhe os animais e atravessa a destruição. A narrativa parece conduzi-lo ao lugar dos grandes fundadores. A partir dele, o mundo recomeçará. Ainda assim, a vida de Noé termina de maneira estranhamente pequena. Depois do Dilúvio, planta uma vinha, embriaga-se e aparece nu dentro da tenda. O homem que preservou a vida de toda a terra termina como uma figura humilhada diante dos próprios filhos. Sua morte recebe poucas palavras. Abraão será lembrado pela aliança e pela peregrinação; Moisés, pela libertação e pela lei; José, enterrado com a dignidade reservada aos poderosos do Egito. Noé envelhece entre o vinho e a vergonha. A Bíblia parece sugerir que sobreviver ao fim do mundo jamais garantiu saber viver no mundo reconstruído.
O problema de Noé estava contido na própria grandeza de sua virtude. Ele conseguiu permanecer justo enquanto todos ao redor se corrompiam. Protegeu a família, obedeceu às instruções recebidas, suportou o escárnio que provavelmente acompanhou a construção de uma arca em terra seca. Sua retidão, entretanto, permaneceu encerrada nele. Uma antiga imagem da tradição judaica afirma que existem duas maneiras de enfrentar o frio: vestir um casaco ou acender uma fogueira. O casaco aquece quem o veste; a fogueira reúne pessoas ao redor de uma chama comum. Noé possuía um excelente casaco. Foi capaz de conservar sua integridade em meio a uma geração violenta e construiu paredes suficientemente fortes para proteger os seus. Faltou-lhe acender uma fogueira.
A justiça pessoal organiza a vida de um indivíduo; a liderança moral procura alterar o destino dos outros. Noé ouviu a pergunta dirigida a Adão — “Onde estás?” — e respondeu com a própria conduta. Sabia onde estava quando o restante de sua geração havia se perdido. Diante da pergunta dirigida a Caim — “Onde está teu irmão?” —, sua resposta se torna menos clara. Durante os anos em que construiu a arca, quantas pessoas foram advertidas? Quantas foram convidadas a mudar? Quantas escutaram dele que a violência estava empurrando o mundo de volta ao caos? O texto preserva o silêncio. Noé trabalha, recolhe madeira, mede compartimentos, aplica betume por dentro e por fora. Cada golpe de seu martelo anuncia a catástrofe e parece também levantar uma parede entre sua família e o restante da humanidade. Quando a chuva começa, a arca está pronta. A comunidade, não.
Talvez ninguém o escutasse. Os homens raramente acolhem uma advertência que exige a transformação de seus desejos, sobretudo quando a vida ainda parece transcorrer em sua normalidade habitual. Comiam, negociavam, disputavam, celebravam casamentos, acumulavam bens e tratavam a crueldade como parte natural da existência. Noé poderia ter falado durante décadas sem convencer uma única pessoa. Como alguém pode ter certeza do fracasso antes de tentar? A responsabilidade da palavra independe da garantia de ser ouvida. Há épocas em que o protesto preserva apenas a dignidade daquele que se recusou a colaborar com o silêncio. A possibilidade de fracasso jamais absolve previamente quem assistiu à violência e preferiu cultivar sua virtude em segurança.
Por isso a inocência também pode possuir uma zona sombria. Uma pessoa cumpre seus deveres, trata bem a família, paga as contas, conserva as mãos limpas e atravessa uma sociedade sustentada pela miséria de gente cujo rosto nunca precisou conhecer. A honestidade individual oferece conforto porque permite olhar para o espelho e encontrar ali uma pessoa decente. O mundo pergunta por aquilo que nossa decência produziu ao redor, por quem foi aquecido por ela, por quais sofrimentos recebeu nossa palavra, por quais injustiças encontrou em nós alguma resistência. Há homens corretos que passam pela história como passageiros bem-comportados de uma embarcação conduzida para o desastre. Obedecem às regras do convés, arrumam a própria cabine, tratam os tripulantes com cortesia e consideram cumprida sua obrigação. Quando o navio afunda, apresentam a limpeza das mãos como prova de inocência.
A embriaguez de Noé, depois que as águas recuam, ganha assim uma dimensão trágica. O vinho pode ser interpretado como a tentativa de suportar a memória de um mundo inteiro desaparecido. Dentro da arca, em meio ao rumor da chuva e ao movimento dos animais, ele deve ter escutado os sons do lado de fora. A madeira o protegia da água e pouco podia fazer contra aquilo que permanecia na consciência. Sobreviver possui culpas próprias. O vinho pode ter sido sua maneira de esquecer os rostos que ficaram fora da embarcação, inclusive aqueles a quem jamais ofereceu um lugar. A narrativa bíblica nada afirma sobre esse sentimento. Sua secura abre espaço para uma conjectura terrível: o homem que não chorou publicamente pela geração perdida terminou afogado dentro de si. As águas haviam abandonado a terra, continuavam subindo em Noé.
Se o Dilúvio dramatiza o fracasso da responsabilidade comunitária, Babel apresenta outro risco: a dissolução do indivíduo no interior do coletivo. Depois de enumerar os descendentes de Noé e distribuir entre eles povos, territórios, línguas e costumes, o Gênesis nos conduz a uma planície onde todos falam as mesmas palavras. A humanidade decide construir uma cidade e uma torre cujo topo alcance os céus. Costuma-se interpretar o episódio como punição da arrogância humana, o desejo de invadir o território divino. Há, porém, algo ainda mais inquietante naquela cidade: nela ninguém possui nome. Adão, Eva, Caim, Abel e Noé aparecem como pessoas singulares, atravessadas por escolhas e responsabilidades. Em Babel, fala uma multidão anônima: “Vamos fazer tijolos”, “vamos construir uma cidade”, “vamos tornar célebre o nosso nome”. Todos pronunciam as mesmas frases, desejam a mesma coisa, participam do mesmo projeto. A unidade tornou-se uma máquina.
Os tijolos de Babel carregam uma filosofia política. Pedras apresentam formas irregulares, resistem ao encaixe perfeito e preservam as marcas do lugar de onde vieram. Tijolos saem de moldes. Podem ser empilhados, substituídos e contados. Um império prefere tijolos porque todo poder voltado para a expansão sonha com seres humanos fabricados segundo a mesma medida. A língua única, as palavras únicas e o projeto único prometem eliminar conflitos, enquanto eliminam também a diferença, a imaginação e a responsabilidade pessoal. Ninguém em Babel precisa responder “onde estás?”, pois todos estão onde a multidão ordenou. Ninguém pergunta “onde está teu irmão?”, porque o irmão deixou de ser uma pessoa e se tornou mais uma peça empregada na construção. A torre cresce à medida que seus construtores diminuem.
A dispersão das línguas pode ser lida como a defesa divina da multiplicidade humana. Deus interrompe a construção para devolver às pessoas aquilo que o projeto imperial havia retirado delas: a diferença. A confusão linguística, tantas vezes compreendida como castigo, contém uma forma de libertação. As pessoas voltam a falar com vozes próprias, espalham-se pela terra, inventam costumes, histórias e maneiras distintas de nomear o mundo. A diversidade impõe o trabalho da tradução, e traduzir significa reconhecer que o outro contempla a realidade a partir de um lugar que também possui sentido. Babel pretendia livrar os homens do esforço de se compreenderem. Deus os condena — ou talvez os presenteie — com a necessidade do encontro.
Entre Noé e Babel, o Gênesis desenha os dois extremos de um mesmo fracasso. No primeiro, o homem se fecha em sua justiça e abandona a comunidade ao próprio destino. No segundo, entrega sua consciência à comunidade e desaparece dentro dela. Noé é o indivíduo sem o outro; Babel, o coletivo sem indivíduos. Um veste o casaco enquanto todos tremem. O outro lança todos à fornalha para fabricar tijolos idênticos. A vida moral se estabelece no espaço difícil entre esses dois abismos: conservar uma consciência própria e permitir que ela nos comprometa com o destino alheio. “Se eu não for por mim, quem será por mim? E, se sou apenas por mim, o que sou eu?”, pergunta Hillel. A primeira frase nos retira da massa. A segunda nos retira da arca.
Continuamos vivendo entre essas duas tentações. Em períodos de crise, alguns procuram uma arca particular: o condomínio protegido, a reserva financeira, a família preservada, o círculo de pessoas que pensam da mesma maneira. Imaginam que a salvação consiste em atravessar o desastre sem serem tocados por ele. Outros buscam a segurança de Babel: entregam a própria voz ao partido, à igreja, à empresa, à multidão digital, ao grupo que oferece respostas prontas e um inimigo comum. Na arca, a pessoa fecha a porta para o mundo. Na torre, esquece que um dia possuiu uma porta própria. Em ambos os casos, a responsabilidade se dissolve. O homem protegido afirma que a tragédia dos outros não lhe pertence; o homem absorvido pela massa afirma que apenas cumpria aquilo que todos faziam.
Quando perguntamos onde está Deus diante da fome, da doença, da guerra e dos corpos abandonados, talvez ainda estejamos repetindo o gesto de Adão, apontando para fora de nós em busca da origem de uma culpa que nos alcance o mínimo possível. A Bíblia acolhe a pergunta e a devolve ampliada. Onde está você quando alguém tem fome? Onde está você quando o sofrimento do outro se converte em paisagem? Onde está você quando uma multidão escolhe uma vítima e pede sua concordância? Onde está você quando o mundo exige uma palavra que provavelmente será inútil? E onde está seu irmão enquanto você trabalha, cuidadosamente, na construção da própria arca?
Deus já sabe onde estamos. Somos nós que ainda precisamos responder. Talvez o juízo comece pelo inventário de nossas ausências: as vezes em que permanecemos corretos e estéreis, as ocasiões em que confundimos prudência com silêncio, os dias em que chamamos de impotência aquilo que já era acomodação. No fim, a porta da arca conserva marcas dos dois lados. Do lado de fora, ficaram as mãos dos que pediram entrada. Do lado de dentro, permanecem as mãos daquele que a fechou. Quando as águas baixam, é com essas mãos que o sobrevivente precisa reconstruir o mundo.

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