Milenarismo, Gnosticismo e a Construção das Religiões Políticas Modernas



A história política do Ocidente moderno é atravessada por uma tensão persistente entre expectativas de redenção coletiva e o impulso humano de transformar radicalmente a realidade social. Essa tensão, longe de ser um fenômeno exclusivamente contemporâneo, possui raízes profundas em tradições milenaristas e gnósticas que remontam à Antiguidade tardia e ao cristianismo primitivo. O que impressiona, ao examinar a modernidade política, é a surpreendente sobrevivência — e metamorfose — dessas imaginações religiosas em projetos seculares que, embora proclamem racionalidade e progresso, preservam intactas estruturas míticas de salvação.

1. Heranças Milenaristas na Política Moderna

O milenarismo medieval nutria a crença de que uma intervenção sobrenatural instauraria uma nova era de perfeição terrena. Deus, e não os homens, seria o agente da transformação final da história. Nos movimentos revolucionários modernos, porém, essa agência foi transferida para a humanidade. A crença no advento de um “novo mundo”, antes dependente de intervenção divina, tornou-se um programa político deliberado.

A substituição da transcendência por uma razão humanizada não dissolveu a lógica milenarista: a transformação seria coletiva, total, terrena e iminente. Revoluções modernas — da França jacobina ao comunismo soviético — preservaram esse imaginário de renovação absoluta, embora o revestissem de filosofia política, economia ou ciência. A modernidade, ao prometer emancipação histórica, converteu-se no palco de uma teologia secularizada.

2. O Gnosticismo como Matriz de Revoluções Seculares

O gnosticismo clássico concebia o mundo como uma prisão governada por poderes malévolos. A salvação correspondia à fuga: um retorno da alma ao reino luminoso além do cosmos. Não havia, entre os gnósticos antigos, qualquer esperança de reconfiguração positiva da ordem terrena; o mundo era irremediavelmente corrupto. Essa visão de ruptura radical com a realidade sensível criou um modelo psicológico que reapareceria em ideologias políticas posteriores.

Quando certos pensadores modernos reinterpretaram o gnosticismo, enxergaram nele não apenas desprezo pela ordem existente, mas a convicção de que o conhecimento (gnose) poderia tornar possível a reconstrução do mundo. Essa releitura, própria dos séculos recentes, deslocou a expectativa de salvação do pós-morte para a história. Assim, o gnosticismo moderno trocou a fuga do mundo pela tentativa prometeica de recriá-lo.

É nesse ponto que o mito moderno do progresso assume traços religiosos: a transformação total depende da posse de um conhecimento salvador, supostamente detido por uma vanguarda — partido revolucionário, profeta iluminado, cientistas redentores. A verdade oculta do mundo, revelada à minoria esclarecida, justificaria a destruição da velha ordem.

3. Münster: O Laboratório de uma Utopia Apocalíptica

A experiência anabatista em Münster, no século XVI, tornou concreta a fusão entre sonho milenarista e zelo profético. Sob Jan Bockelson, a cidade transformou-se em um protótipo de Estado teocrático radical. A propriedade comum, a poligamia compulsória, o apagamento da vida privada e o terror disciplinador revelam que o impulso de “refazer o mundo” pode rapidamente se converter em violência institucionalizada. A sociedade antiga é varrida como se fosse um obstáculo moral.

Münster mostra que movimentos revolucionários não nascem do cálculo frio, mas de experiências de fé aplicadas à política — experiências que demandam sacrifícios humanos em nome de uma revelação coletiva. O século XX apenas aperfeiçoou essa lógica com recursos tecnológicos mais amplos.

4. Jacobinismo: O Modelo da Religião Política Moderna

A Revolução Francesa intensificou exatamente essa dinâmica. O jacobinismo foi o primeiro grande movimento político claramente consciente de sua própria dimensão religiosa. Criou cerimônias, dogmas, um calendário regenerado e um culto à Razão e ao Ser Supremo. À semelhança das seitas milenaristas, pretendia purificar o corpo social para instaurar uma nova humanidade.

A violência jacobina, frequentemente explicada como defesa da revolução, tinha uma dimensão ritual: ela materializava a ruptura com o passado e selava a fundação de uma ordem “redimida”. O terror não era um instrumento provisório, mas parte constitutiva de uma visão religiosa secularizada. Assim como no milenarismo medieval, a utopia política exigia a eliminação dos impuros.

5. Bolchevismo: Gnose, Ciência e Ressurreição Política

O bolchevismo, embora moldado por condições russas específicas, integrou-se plenamente à genealogia das religiões políticas. Na Revolução Russa, a promessa de uma nova era alcançou um patamar científico-tecnológico: não apenas o mundo deveria ser transformado, mas a própria morte deveria ser superada.

A devoção ao corpo de Lenin é símbolo dessa fusão de ciência e mitologia. Os “Construtores de Deus”, influenciados por Fedorov, vislumbravam a ressurreição como projeto técnico — uma gnose futurista que substituiria definitivamente a transcendência religiosa. O mausoléu tornou-se um templo; Lenin, uma figura messiânica congelada no limiar entre vida e eternidade. A política tornou-se uma liturgia.

Ao mesmo tempo, a prática sistemática do terror — que precedeu Stalin e foi arquitetada por Lenin — ecoou o velho padrão milenarista: destruir o antigo povo para forjar um novo. Os “inimigos da humanidade futura” eram sacrificados em nome da regeneração universal.

6. A Persistência do Imaginário Redentor

A partir desses episódios, percebe-se que a modernidade política não aboliu a religião; apenas a reformulou. O impulso gnóstico de repudiar o mundo e o impulso milenarista de transformá-lo convergiram na criação de ideologias que, embora seculares, operam com categorias sagradas: redenção, pureza, destino, conhecimento salvador, sacrifício.

A crença moderna de que a humanidade pode libertar-se de todos os males por meio da técnica, da política ou da história repete, em nova linguagem, a convicção arcaica de que o mundo pode — e deve — ser recriado. Nesse sentido, as religiões políticas modernas são menos desvios da modernidade do que expressões de um núcleo imaginário antigo e duradouro.

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