
A definição de Gustave Flaubert — a burrice como o desejo de concluir — pertence a um mundo em que pensar ainda era concebido como um exercício interior. Concluir cedo demais era um pecado porque interrompia uma prática: a leitura lenta, a atenção prolongada, a disposição para habitar a incerteza. Era possível errar por impaciência porque havia, ao menos como ideal, o hábito da demora. A burrice era um vício que parasitava uma virtude amplamente valorizada.
Esse mundo, contudo, não está apenas em declínio; ele praticamente desapareceu. A cultura da palavra impressa, com suas exigências de concentração e sua temporalidade própria, foi substituída por um ambiente em que o pensamento é fragmentado, acelerado e, sobretudo, externalizado. Já não se espera que o indivíduo adquira a virtude de pensar; espera-se que saiba localizar rapidamente uma resposta aceitável. A educação, nesse contexto, deixa de ser a formação de uma capacidade e passa a ser o treinamento para a navegação eficiente entre conclusões prontas.
Aqui emerge uma nova forma de burrice, distinta daquela diagnosticada por Flaubert. Não se trata mais da pressa em concluir por conta própria, mas da recusa em iniciar o processo. A burrice contemporânea não quer a última palavra; quer um atalho. Ela se manifesta como abdicação — uma verdadeira démission do juízo. Pensar torna-se uma tarefa incômoda, delegável, algo a ser terceirizado a especialistas, algoritmos ou consensos momentâneos.
O ser humano sempre procurou reduzir o desconforto da incerteza. A diferença é que, hoje, dispõe de meios técnicos para fazê-lo quase instantaneamente. O resultado não é uma humanidade mais sábia, mas uma mais dependente. A razão, antes celebrada como atributo definidor da espécie, é confinada a nichos cada vez mais estreitos. Fora deles, reina a repetição automática de opiniões absorvidas por osmose digital.
Nesse cenário, a ideia de que a “viagem” intelectual pode valer tanto quanto a “chegada” soa quase incompreensível. A experiência de se perder numa biblioteca, de descobrir livros não procurados, de perceber que a paisagem do saber é maior do que o mapa inicial — tudo isso pertence a uma ecologia cognitiva em extinção. A nova burrice não é afobada; é indiferente. Ela não interrompe o raciocínio porque nunca o iniciou.
É verdade que a inconclusão também pode ser paralisante. Toda conversa humana precisa, em algum momento, de enunciados provisórios, de obras que se deem por acabadas, ainda que saibam não sê-lo de fato. Mas há uma diferença decisiva entre aceitar a provisoriedade de toda conclusão e renunciar à própria tarefa de julgar. No primeiro caso, a conclusão é uma contribuição modesta para um diálogo contínuo; no segundo, é apenas um produto consumido e descartado.
O paradoxo do nosso tempo é que nunca houve tanta informação disponível e tão pouca disposição para transformá-la em compreensão. A burrice antiga queria encerrar a conversa. A nova prefere nem comparecer a ela. E, como tantas vezes na história, chamamos essa renúncia de eficiência, progresso ou inovação — nomes respeitáveis para uma velha tendência humana: o alívio de não ter de pensar por conta própria.
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