Há ideias que entram na história como se fossem teses. Outras entram como acidentes. Não organizam o mundo: o desorganizam. A pregação de Paulo, tal como Lucas a escuta numa sinagoga de província, pertence a essa segunda categoria. Ela não oferece um sistema moral superior, nem uma metafísica mais elegante, nem uma resposta mais eficiente ao sofrimento humano. Oferece algo muito mais perturbador: a afirmação de que o real sofreu uma fratura irreversível.
Nada, no início, distingue o discurso de Paulo de tantos outros já ouvidos. Ele respeita o protocolo da memória: a narrativa do Êxodo, o deserto, os juízes, os reis, Davi. Uma história conhecida é uma história segura. As comunidades sobrevivem porque repetem os mesmos relatos, não porque os renovam. O passado, quando bem recitado, funciona como anestésico. Lucas, médico, sabe disso melhor do que ninguém.
O escândalo não está no Messias. A expectativa de um redentor é um mecanismo antigo, quase fisiológico. Povos submetidos, humilhados ou apenas cansados produzem figuras de compensação. O Messias é uma promessa de simetria: o mundo, torto agora, será endireitado depois. O que Paulo introduz não é a promessa, mas sua violação.
O Messias, diz ele, já veio. E veio mal. Veio com um nome vulgar, morreu de modo infame e não deixou nada que pudesse ser imediatamente reconhecido como vitória. A cruz não é apenas um instrumento de morte: é um signo de desclassificação. Ao associar a salvação a esse signo, Paulo não eleva o sofrimento; ele o torna irreparável. Não há sublimação possível para um Deus executado como um criminoso comum.
É por isso que o discurso não admite meio-termo. Ele não convida à adesão progressiva, nem ao exame sereno. Ele exige uma decisão ontológica: ou o mundo é governado por uma lógica que inclui a ressurreição de um crucificado, ou não é. Não há pedagogia nisso. Há ruptura.
Lucas percebe imediatamente que algo saiu do eixo. Não porque tenha acreditado, mas porque reconhece o tipo de acontecimento que não pode ser neutralizado pela indiferença. A maioria das ideias religiosas pode ser arquivada como folclore, ética local ou psicologia primitiva. Esta não. Ela não pede respeito; pede rendição. Ou recusa.
Mas Lucas não escolhe nenhuma das duas. Ele faz algo mais raro e mais moderno: permanece em suspenso. Não se ajoelha, não se indigna. Pergunta. O gesto é mínimo, quase imperceptível, mas decisivo. Perguntar, aqui, não é buscar esclarecimento; é admitir que a ordem habitual do mundo foi colocada em questão. É aceitar a perturbação sem ainda lhe dar forma.
Talvez seja por isso que a cena decisiva não ocorre na sinagoga, mas fora dela. Longe do espaço ritual, longe da solenidade da Lei, num lugar banal, entre vinho resinoso e restos de peixe. As grandes conversões, quando acontecem, raramente se dão nos templos. Dão-se nos interstícios, quando a vigilância simbólica relaxa e o pensamento se permite errar.
Paulo fala. Lucas escuta. Não há prova alguma, apenas insistência. Não há argumento conclusivo, apenas testemunho. É precisamente isso que torna a situação insuportável para um espírito formado na medicina e na razão grega: não se trata de demonstrar, mas de afirmar algo que, se for falso, é absurdo, e, se for verdadeiro, torna o mundo irreconhecível.
Ao amanhecer, nada mudou — e tudo mudou. O céu continua o mesmo, mas já não garante sentido. As pessoas seguem suas rotinas, mas agora parecem provisórias. Lucas não ganhou uma resposta; perdeu uma estabilidade. Ele não sabe ainda se acredita. Sabe apenas que não poderá mais viver como se não tivesse ouvido.
Talvez seja isso que chamamos, de maneira excessivamente nobre, de fé. Não um consolo. Não uma certeza. Mas a experiência irreversível de que uma ideia atravessou o mundo — e que, depois disso, nenhuma neutralidade é completamente honesta.

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