A tentação de começar pelo escândalo é um traço persistente do espírito moderno. Herdamos a convicção — vinda tanto da publicidade quanto de certas vanguardas artísticas — de que a verdade precisa entrar em cena como uma explosão, derrubando resistências pela força do choque. No entanto, essa convicção repousa sobre um equívoco mais profundo: a crença de que os seres humanos são persuadidos sobretudo por argumentos, quando, na realidade, são moldados por hábitos, imitações e rituais que raramente passam pelo crivo da consciência. É aqui que o ceticismo se impõe, não como gesto de arrogância intelectual, mas como recusa em tomar por emancipação aquilo que muitas vezes é apenas uma troca de dependências.
A ideia de que o “eu” não existe — ou de que é, no máximo, uma ficção funcional — costuma provocar indignação moral antes mesmo de suscitar reflexão filosófica. Isso é compreensível. As sociedades liberais se organizam em torno da noção de um sujeito autônomo, capaz de escolher seus fins e responder por eles. Questionar essa imagem equivale, para muitos, a minar as bases da responsabilidade, da ética e até da sanidade. No entanto, o que realmente ameaça a sanidade não é a constatação de que o eu é instável, mas a exigência moderna de que ele seja sólido, coerente e permanentemente autêntico.
Grande parte do sofrimento psíquico contemporâneo nasce dessa exigência impossível. Espera-se que o indivíduo seja, ao mesmo tempo, original e transparente a si mesmo, senhor de seus desejos e capaz de justificá-los racionalmente. Quando falha — e ele sempre falha —, interpreta o fracasso como defeito pessoal, e não como efeito de uma concepção ilusória da vida mental. O resultado não é libertação, mas ansiedade crônica, ressentimento e uma busca incessante por narrativas que devolvam ao sujeito a sensação de controle perdido.
É nesse ponto que teorias do desejo mimético exercem um fascínio ambíguo. Por um lado, elas desferem um golpe certeiro contra a mitologia do eu soberano, mostrando que desejamos porque outros desejam, e que nossas aspirações mais íntimas são herdadas de modelos que raramente escolhemos. Por outro, quando apresentadas como revelações decisivas — quase como iniciações —, correm o risco de se converter em mais uma promessa de salvação intelectual. O sujeito abandona a ilusão do eu autônomo apenas para aderir à ilusão de que, agora, vê tudo com clareza.
O ceticismo saudável começa quando reconhecemos que nenhuma teoria, por mais esclarecedora, nos coloca fora da condição humana. Não existe um ponto arquimediano a partir do qual possamos observar nossos desejos sem sermos afetados por eles. Mesmo o gesto de denunciar a mimese é, em si, um gesto mimético: aprendemos a desconfiar porque imitamos outros que aprenderam a desconfiar antes de nós. Isso não invalida a crítica; apenas a devolve à sua escala correta.
Se o eu é uma construção precária, isso não significa que possamos simplesmente descartá-lo. As ficções humanas sobrevivem não porque sejam verdadeiras, mas porque são úteis. O problema surge quando esquecemos sua natureza ficcional e passamos a exigir delas aquilo que nunca puderam oferecer: estabilidade ontológica, sentido último, redenção. A modernidade tardia é marcada precisamente por essa confusão. Abolimos muitos rituais tradicionais por considerá-los ilusórios, mas mantivemos — e até intensificamos — a necessidade psicológica que eles atendiam.
Rituais, ao contrário do que supõe a mentalidade esclarecida, não são meros resquícios de ignorância pré-científica. Eles funcionam como dispositivos de contenção do desejo, da angústia e da rivalidade. Ao repetir gestos, palavras e formas, o ser humano encontra uma pausa na tirania da escolha permanente. Não é por acaso que, em contextos de crise, proliferam práticas aparentemente arcaicas: retiros, rotinas rígidas, exercícios repetitivos, fórmulas de autoajuda que prometem “ancoragem”. Mesmo quando despojados de transcendência, esses rituais continuam operando no nível mais elementar da vida psíquica.
A diferença crucial está entre rituais que reconhecem sua própria limitação e rituais que se apresentam como caminhos de iluminação definitiva. Os primeiros oferecem abrigo temporário; os segundos exigem adesão total. As sociedades modernas, desconfiadas da religião tradicional, tornaram-se terreno fértil para rituais seculares disfarçados de técnicas: métodos terapêuticos, programas de desempenho, rotinas de otimização do eu. Todos prometem, de uma forma ou de outra, restaurar uma unidade interior que nunca existiu.
A sanidade mental não depende de desmontar todas as ficções, mas de conviver com elas sem servidão. Um ritual simples — escrever à mão, caminhar sem propósito, repetir uma prática sem esperar revelação — pode ser mais eficaz do que qualquer doutrina psicológica abrangente. Ele não resolve o enigma do eu; apenas suspende, por um momento, a necessidade de resolvê-lo. Essa suspensão é preciosa. Ela cria um intervalo entre o impulso e a ação, entre o desejo imitado e a resposta automática.
O erro do pensamento progressista foi supor que, ao substituir ritos por explicações, tornaríamos os seres humanos mais livres. O que ocorreu foi o oposto: privados de formas simbólicas estáveis, muitos passaram a buscar sentido em conflitos intermináveis, em identidades rigidamente defendidas ou em teorias que prometem revelar o segredo oculto de todas as coisas. O resultado é uma cultura saturada de interpretações e pobre em silêncio.
Reconhecer que alguns rituais preservam a sanidade não implica nostalgia por ordens perdidas nem adesão a crenças que já não podemos sustentar honestamente. Implica apenas aceitar um fato elementar: os seres humanos não vivem apenas de verdade, mas de repetição, ritmo e esquecimento. O esquecimento, longe de ser uma falha, é uma condição de possibilidade da vida psíquica. Sem ele, ficaríamos paralisados diante da multiplicidade de vozes que disputam nossos desejos.
Talvez a postura mais lúcida seja, portanto, uma combinação de ceticismo intelectual e pragmatismo existencial. Duvidar das grandes promessas, desconfiar das teorias totais, mas preservar práticas modestas que nos permitem atravessar o dia com um mínimo de equilíbrio. Não porque revelem quem realmente somos, mas porque nos ajudam a suportar o fato de que nunca saberemos inteiramente quem somos — e de que isso, longe de ser uma tragédia, pode ser uma forma discreta de liberdade.
A ideia de que o “eu” não existe — ou de que é, no máximo, uma ficção funcional — costuma provocar indignação moral antes mesmo de suscitar reflexão filosófica. Isso é compreensível. As sociedades liberais se organizam em torno da noção de um sujeito autônomo, capaz de escolher seus fins e responder por eles. Questionar essa imagem equivale, para muitos, a minar as bases da responsabilidade, da ética e até da sanidade. No entanto, o que realmente ameaça a sanidade não é a constatação de que o eu é instável, mas a exigência moderna de que ele seja sólido, coerente e permanentemente autêntico.
Grande parte do sofrimento psíquico contemporâneo nasce dessa exigência impossível. Espera-se que o indivíduo seja, ao mesmo tempo, original e transparente a si mesmo, senhor de seus desejos e capaz de justificá-los racionalmente. Quando falha — e ele sempre falha —, interpreta o fracasso como defeito pessoal, e não como efeito de uma concepção ilusória da vida mental. O resultado não é libertação, mas ansiedade crônica, ressentimento e uma busca incessante por narrativas que devolvam ao sujeito a sensação de controle perdido.
É nesse ponto que teorias do desejo mimético exercem um fascínio ambíguo. Por um lado, elas desferem um golpe certeiro contra a mitologia do eu soberano, mostrando que desejamos porque outros desejam, e que nossas aspirações mais íntimas são herdadas de modelos que raramente escolhemos. Por outro, quando apresentadas como revelações decisivas — quase como iniciações —, correm o risco de se converter em mais uma promessa de salvação intelectual. O sujeito abandona a ilusão do eu autônomo apenas para aderir à ilusão de que, agora, vê tudo com clareza.
O ceticismo saudável começa quando reconhecemos que nenhuma teoria, por mais esclarecedora, nos coloca fora da condição humana. Não existe um ponto arquimediano a partir do qual possamos observar nossos desejos sem sermos afetados por eles. Mesmo o gesto de denunciar a mimese é, em si, um gesto mimético: aprendemos a desconfiar porque imitamos outros que aprenderam a desconfiar antes de nós. Isso não invalida a crítica; apenas a devolve à sua escala correta.
Se o eu é uma construção precária, isso não significa que possamos simplesmente descartá-lo. As ficções humanas sobrevivem não porque sejam verdadeiras, mas porque são úteis. O problema surge quando esquecemos sua natureza ficcional e passamos a exigir delas aquilo que nunca puderam oferecer: estabilidade ontológica, sentido último, redenção. A modernidade tardia é marcada precisamente por essa confusão. Abolimos muitos rituais tradicionais por considerá-los ilusórios, mas mantivemos — e até intensificamos — a necessidade psicológica que eles atendiam.
Rituais, ao contrário do que supõe a mentalidade esclarecida, não são meros resquícios de ignorância pré-científica. Eles funcionam como dispositivos de contenção do desejo, da angústia e da rivalidade. Ao repetir gestos, palavras e formas, o ser humano encontra uma pausa na tirania da escolha permanente. Não é por acaso que, em contextos de crise, proliferam práticas aparentemente arcaicas: retiros, rotinas rígidas, exercícios repetitivos, fórmulas de autoajuda que prometem “ancoragem”. Mesmo quando despojados de transcendência, esses rituais continuam operando no nível mais elementar da vida psíquica.
A diferença crucial está entre rituais que reconhecem sua própria limitação e rituais que se apresentam como caminhos de iluminação definitiva. Os primeiros oferecem abrigo temporário; os segundos exigem adesão total. As sociedades modernas, desconfiadas da religião tradicional, tornaram-se terreno fértil para rituais seculares disfarçados de técnicas: métodos terapêuticos, programas de desempenho, rotinas de otimização do eu. Todos prometem, de uma forma ou de outra, restaurar uma unidade interior que nunca existiu.
A sanidade mental não depende de desmontar todas as ficções, mas de conviver com elas sem servidão. Um ritual simples — escrever à mão, caminhar sem propósito, repetir uma prática sem esperar revelação — pode ser mais eficaz do que qualquer doutrina psicológica abrangente. Ele não resolve o enigma do eu; apenas suspende, por um momento, a necessidade de resolvê-lo. Essa suspensão é preciosa. Ela cria um intervalo entre o impulso e a ação, entre o desejo imitado e a resposta automática.
O erro do pensamento progressista foi supor que, ao substituir ritos por explicações, tornaríamos os seres humanos mais livres. O que ocorreu foi o oposto: privados de formas simbólicas estáveis, muitos passaram a buscar sentido em conflitos intermináveis, em identidades rigidamente defendidas ou em teorias que prometem revelar o segredo oculto de todas as coisas. O resultado é uma cultura saturada de interpretações e pobre em silêncio.
Reconhecer que alguns rituais preservam a sanidade não implica nostalgia por ordens perdidas nem adesão a crenças que já não podemos sustentar honestamente. Implica apenas aceitar um fato elementar: os seres humanos não vivem apenas de verdade, mas de repetição, ritmo e esquecimento. O esquecimento, longe de ser uma falha, é uma condição de possibilidade da vida psíquica. Sem ele, ficaríamos paralisados diante da multiplicidade de vozes que disputam nossos desejos.
Talvez a postura mais lúcida seja, portanto, uma combinação de ceticismo intelectual e pragmatismo existencial. Duvidar das grandes promessas, desconfiar das teorias totais, mas preservar práticas modestas que nos permitem atravessar o dia com um mínimo de equilíbrio. Não porque revelem quem realmente somos, mas porque nos ajudam a suportar o fato de que nunca saberemos inteiramente quem somos — e de que isso, longe de ser uma tragédia, pode ser uma forma discreta de liberdade.

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