Escrever para não desaparecer

O diário como prática de lucidez em um tempo que dissolve decisões, afetos e convicções sem deixar vestígios



Kafka escrevia quando a vida se tornava estreita demais para ser atravessada apenas com o corpo. Havia momentos em que viver, sem registrar o que se vivia, equivalia a desaparecer em silêncio. O diário não era um ornamento literário nem um exercício de disciplina moral. Era um instrumento de sobrevivência psíquica. Escrevendo, Kafka delimitava contornos onde antes havia apenas pressão difusa. O que não ganhava forma na linguagem ameaçava dissolvê-lo por dentro.

A modernidade ensinou os indivíduos a confundir movimento com direção. Acumulamos acontecimentos, opiniões, reações, sem perceber que essa sucessão constante não produz orientação alguma. A vida contemporânea não carece de experiências; carece de memória inteligível. Decisões se sobrepõem a decisões sem que se saiba ao certo por que foram tomadas. Afetos se esgotam não por conflito, mas por erosão invisível. Convicções se enfraquecem sem confronto direto. Quando se tenta recuperar a origem dessas mudanças, encontra-se apenas um vazio narrativo. Nada foi anotado. Nada foi pensado até o fim.

O diário surge, nesse cenário, como um gesto de resistência contra a amnésia cotidiana. Não se trata de registrar fatos, mas de acompanhar deslocamentos internos. Quem escreve um diário aprende algo desconfortável: a identidade não é um bloco sólido, mas uma sequência de ajustes, concessões discretas, endurecimentos quase imperceptíveis. A pessoa que acorda hoje não coincide plenamente com a que se deitou ontem. Há pequenas traições que passam despercebidas porque não foram nomeadas. Há medos que se sofisticam, abandonam a forma bruta e se instalam com modos civilizados. São esses os mais difíceis de reconhecer, porque não provocam alarme.

A escrita diária não promete redenção nem progresso moral. Ela oferece algo mais modesto e mais raro: lucidez local. Um ponto fixo a partir do qual se pode observar o próprio deslocamento. Uma frase escrita hoje não resolve nada, mas estabelece um marco. Ao relê-la amanhã, percebe-se se houve avanço, recuo ou repetição. Essa constatação não traz conforto automático. Muitas vezes revela estagnação. Outras vezes expõe uma circularidade que se preferia ignorar. Ainda assim, há nisso um ganho decisivo: a confusão deixa de ser total. O caos íntimo passa a ter coordenadas.

A cultura do desempenho tende a desprezar práticas que não produzem resultados mensuráveis. O diário, por não gerar capital simbólico imediato, é tratado como excentricidade ou luxo intelectual. Trata-se de um equívoco típico de sociedades que perderam contato com a vida interior sem perceber a perda. A escrita íntima não exige talento literário nem vocação artística. Exige apenas disposição para suportar a própria voz sem filtros retóricos. Essa exigência é mais árdua do que parece. A maioria das pessoas prefere o ruído externo porque ele oferece distração permanente. O silêncio necessário para escrever revela contradições que não se resolvem com slogans.

Escrever um diário é um ato de enfrentamento, não de expressão. Não se escreve para desabafar, mas para ver. A sinceridade absoluta, mencionada como condição dessa prática, não é uma virtude edificante. É uma técnica. Sem ela, o texto se torna propaganda de si mesmo. Com ela, o diário se transforma em espelho incômodo, capaz de mostrar aquilo que se tentou racionalizar, justificar ou esquecer. Não há garantia de que essa visão conduza a escolhas melhores. Há apenas a possibilidade de escolhas mais conscientes, o que já representa uma ruptura significativa com o automatismo dominante.

Kafka compreendia que a pressa é uma forma de cegueira. O diário, ao impor lentidão, interrompe o fluxo contínuo de estímulos e obriga o sujeito a permanecer diante do que sente e pensa. Essa permanência não cura nada. Ela apenas impede que tudo se perca na sucessão indiferenciada dos dias. Em um mundo que estimula a dispersão permanente, agarrar a própria vida com as mãos, ainda que por alguns minutos, é um gesto subversivo.



Não há promessa de felicidade nesse exercício. Há algo mais compatível com a condição humana: a possibilidade de não se tornar inteiramente estranho a si mesmo. O diário não salva. Ele registra. E, ao registrar, impede que certas transformações ocorram sem testemunha. Isso, por si só, já é uma forma de dignidade.


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