A maioria como ficção dominante

Mais do que uma disputa de números, a política contemporânea é uma luta pelo sentido: quem define o que é humano, desejável e comum — e como redefinir esses signos sem apagar as diferenças que os constituem.


Pensar a maioria como um simples agregado numérico é um erro típico das sociedades que acreditam excessivamente em estatísticas e pouco em símbolos. A maioria não é, antes de tudo, uma soma; é uma posição de autoridade semântica. Ela existe quando um modo particular de vida, uma experiência específica, passa a ser confundida com a própria condição humana. Não porque seja mais verdadeira, mas porque venceu a disputa histórica pelo direito de definir o que conta como normal. A maioria é o nome que damos ao triunfo de uma interpretação.

É assim que certos termos se universalizam enquanto outros permanecem marcados. “Homem” pode significar humanidade; “mulher” raramente. Essa assimetria não é linguística por acaso, nem moral por natureza. É o vestígio de relações de poder sedimentadas ao longo do tempo, naturalizadas a ponto de parecerem inevitáveis. A maioria é sempre apresentada como destino, nunca como construção.

É nesse terreno instável que se inscreve O que te faz lutar?, o diálogo entre Erika Hilton e Henrique Vieira. À primeira vista, trata-se do encontro improvável entre uma mulher trans e um pastor evangélico, ambos negros, oriundos da periferia e hoje parlamentares de um partido que se propõe a desafiar o consenso dominante. Mas o livro não se sustenta no exotismo do contraste. Seu interesse maior está em outra coisa: na tentativa de deslocar o eixo do que se entende por universal.

Hilton e Vieira não falam a partir de identidades que reivindicam reconhecimento isolado. O gesto político que ensaiam é mais ambicioso e, por isso mesmo, mais arriscado. Eles procuram mostrar que as lutas associadas a grupos historicamente marginalizados não são exceções à regra comum, mas sintomas de uma regra mal definida. Ao fazê-lo, não negam as diferenças; recusam apenas a ideia de que elas devam permanecer confinadas à condição de particularidades irrelevantes.

Quando Erika Hilton afirma trabalhar por uma sociedade para todos, não está formulando um slogan conciliador. Está enunciando uma tese incômoda: a de que justiça, igualdade e dignidade não pertencem a ninguém em especial e, justamente por isso, não podem continuar sendo privilégio de alguns. A universalidade que ela reivindica não é abstrata, mas construída a partir de vidas concretas que, até agora, foram excluídas da definição do que é uma vida plenamente humana.

Aqui surge a dificuldade clássica das esquerdas contemporâneas: como articular demandas específicas sem dissolvê-las num humanismo genérico que tudo nivela? O livro sugere uma resposta pragmática. Em vez de insistir naquilo que separa, é preciso redefinir os termos que organizam o senso comum. Não se trata de converter todos a uma visão moral superior, mas de disputar o significado de palavras que já circulam amplamente: amor, liberdade, trabalho, prosperidade.

A campanha pela união civil igualitária é exemplar nesse sentido. Ao falar de amor, e não apenas de direitos formais, desloca-se a questão para um terreno em que quase todos se reconhecem. O particular não desaparece, mas passa a ser compreendido como parte de algo maior. O mesmo ocorre na crítica à escala de trabalho 6×1. “Vida além do trabalho” não nega o valor do trabalho; questiona a ideia de que a exaustão seja o preço natural da existência. O conflito real não é entre trabalhar ou não trabalhar, mas entre formas de vida que permitem alguma dignidade e aquelas que a corroem sistematicamente.

Esses deslocamentos semânticos revelam uma intuição mais profunda: a extrema direita venceu menos pelo rigor de seus argumentos do que por sua capacidade de reencantar palavras gastas. Liberdade passou a significar licença irrestrita; prosperidade, acumulação individual; sonho, delírio irresponsável. Contra isso, Hilton e Vieira não oferecem apenas dados ou refutações racionais. Apostam numa recuperação do imaginário político, algo que as esquerdas, em nome de um realismo estreito, aprenderam a desprezar.

O sonho, longe de ser uma promessa vazia, aparece no livro como uma necessidade antropológica. As pessoas não vivem apenas de fatos; vivem de expectativas, imagens do futuro, narrativas que deem sentido ao esforço cotidiano. Ao tratar o sonho com condescendência, a política abdica de uma de suas funções centrais. A trajetória de Erika Hilton, marcada por violências e exclusões, não é apresentada como espetáculo de sofrimento, mas como prova de que a utopia nasce justamente onde ela foi negada.

Henrique Vieira acrescenta a esse horizonte a dimensão da espiritualidade. Não como instrumento de dominação moral, mas como espaço de ligação entre o que é vivido e o que é desejado. Ao defender a convivência de múltiplas espiritualidades num Estado laico, ele desafia tanto o fundamentalismo religioso quanto o secularismo dogmático que vê na fé apenas um resíduo arcaico. A política, sugere o pastor, empobrece quando ignora as perguntas últimas que continuam a orientar a vida comum.

No fim, O que te faz lutar? propõe uma sensibilidade. É um livro desconfiado de certezas absolutas, hostil a qualquer forma de pureza ideológica. Sua aposta é que a luta pelo senso comum — isto é, pela maioria — não é apenas uma disputa por poder, mas por significado. E que essa disputa, se quiser ser duradoura, precisa ser também estética: uma luta para que outras ideias de liberdade, prosperidade e beleza deixem de parecer exceções e passem a ser, simplesmente, o que todos entendem como vida boa.

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