Quando o ideal de emancipação abdica da verdade e o ensino superior passa a temer o esforço intelectual.
Uma das marcas mais distintivas das sociedades contemporâneas é a dificuldade crescente em lidar com frustrações que não podem ser imediatamente traduzidas em injustiças morais. Aquilo que outrora era entendido como parte inevitável do aprendizado — o esforço prolongado, a exposição ao erro, o confronto com ideias hostis — passou a ser reinterpretado como uma falha institucional ou, em casos mais extremos, como uma forma de violência simbólica. Esse deslocamento não é acidental. Ele decorre de uma transformação mais ampla na maneira como concebemos a educação, a autoridade e o próprio sentido de liberdade.
A universidade moderna nasceu de uma suposição simples, hoje cada vez mais incômoda: a de que o conhecimento não é distribuído igualmente, e que aprender implica submeter-se, temporariamente, a critérios, ritmos e exigências definidos por aqueles que já percorreram esse caminho. Essa assimetria nunca foi moralmente neutra, mas sempre foi funcional. Sem ela, a educação deixa de ser transmissão e se converte em mera circulação de opiniões.
Nas últimas décadas, contudo, essa estrutura passou a ser corroída não tanto por ataques externos, mas por uma mudança interna de sensibilidade. A figura do estudante deixou de ser a de um aprendiz em formação e passou a ser a de um sujeito vulnerável cuja experiência educacional deve ser cuidadosamente administrada para evitar desconfortos excessivos. O ensino superior começou, assim, a adotar traços de uma instituição terapêutica: seu objetivo já não é introduzir o indivíduo em um mundo de ideias exigentes, mas protegê-lo de experiências intelectuais percebidas como desestabilizadoras.
Esse processo costuma ser descrito como avanço democrático. No entanto, trata-se de uma democracia peculiar, fundada não na ampliação do acesso ao saber, mas na redução das exigências que o saber impõe. A igualdade, nesse contexto, não significa oferecer a todos a oportunidade de enfrentar o difícil, mas garantir que ninguém seja exposto ao que não escolheu. A liberdade, por sua vez, é redefinida como a capacidade de evitar aquilo que provoca esforço prolongado ou contraria convicções prévias.
É nesse ponto que a lógica do mercado, mesmo quando não nomeada, revela sua influência decisiva. A educação passa a ser avaliada segundo critérios de satisfação subjetiva, e não de transformação intelectual. O valor de um curso mede-se pela fluidez da experiência, pela ausência de atritos e pela previsibilidade dos resultados. O diploma assume centralidade não como reconhecimento de um percurso formativo, mas como produto final cuja entrega deve ser assegurada.
Essa reconfiguração tem consequências profundas para a relação entre professores e estudantes. O docente já não é visto primariamente como alguém responsável por preservar padrões de rigor intelectual, mas como um facilitador encarregado de ajustar conteúdos às expectativas de seu público. A autoridade acadêmica, desprovida de legitimidade intrínseca, precisa ser constantemente justificada em termos afetivos ou políticos. Quando falha nessa justificativa, passa a ser tratada como abuso.
O problema não está na crítica à autoridade em si — crítica que sempre foi parte constitutiva da vida universitária —, mas na recusa em reconhecer que certas formas de autoridade são condições de possibilidade do aprendizado. Ao confundir autoridade com dominação, elimina-se a distinção entre coerção e exigência. Toda cobrança se torna suspeita; toda avaliação, um julgamento moral; toda reprovação, um indício de injustiça estrutural.
Nesse ambiente, causas políticas legítimas são frequentemente absorvidas por uma dinâmica de autoafirmação individual. Categorias como opressão, exclusão e violência simbólica, fundamentais para compreender desigualdades reais, passam a ser empregadas como instrumentos de negociação subjetiva. O vocabulário da justiça coletiva é mobilizado para resolver frustrações privadas. Com isso, a política se reduz a uma economia moral de ressentimentos, na qual o reconhecimento substitui o argumento e a experiência pessoal suplanta qualquer critério externo de verdade.
O efeito paradoxal desse arranjo é o enfraquecimento das próprias causas que se pretende defender. Ao diluir conceitos fortes em usos oportunistas, esvazia-se sua capacidade crítica. Ao transformar toda dificuldade em trauma, torna-se impossível distinguir entre violência real e desconforto inerente ao pensamento. A universidade, que deveria ser um espaço de confronto com o que não é familiar, passa a operar como zona de segurança emocional.
Nada disso resulta de conspiração ou má-fé generalizada. Trata-se de um ajuste cultural coerente com sociedades que perderam a confiança na ideia de progresso intelectual e passaram a medir o valor das instituições por sua capacidade de minimizar riscos subjetivos. Quando já não se acredita que o conhecimento possa nos tornar melhores ou mais sábios, resta apenas exigir que ele seja menos incômodo.
O custo dessa transformação é alto. Uma universidade que abdica do rigor em nome do bem-estar imediato pode até parecer mais inclusiva, mas forma indivíduos menos preparados para lidar com complexidade, ambiguidade e conflito. Produz diplomados, não necessariamente pessoas instruídas. Oferece proteção, mas não autonomia. Confunde cuidado com condescendência.
No fim, a promessa de emancipação se revela ilusória. Ao proteger o estudante do desconforto intelectual, priva-o da experiência fundamental de ser transformado por algo que não controla. E uma educação que não transforma não liberta — apenas confirma o indivíduo no ponto exato onde ele já se encontrava.

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