A Persistência do Fim

Da urgência escatológica de Paulo ao catastrofismo contemporâneo, o apocalipse sobrevive como uma herança teológica disfarçada de lucidez histórica.



O apocalipse raramente chega como prometido, mas a promessa de que ele virá nunca falha. Essa é talvez a herança mais persistente de Paulo: não a teologia da salvação, mas a estrutura mental da urgência escatológica. A ideia de que a história tem um sentido, um clímax e um julgamento final atravessou os séculos, mudou de vocabulário, secularizou-se, mas nunca foi abandonada. O cristianismo primitivo não inventou o fim do mundo; inventou algo mais duradouro: a convicção de que o tempo corre em direção a um desfecho necessário.

Paulo não anunciava uma possibilidade. Anunciava um fato iminente. O mundo acabaria em breve porque a ressurreição já havia acontecido; o efeito seguia a causa com a rigidez de uma dedução lógica. O erro não estava no cálculo da data, mas na suposição de que a história obedece a cálculos. O que impressiona não é que Paulo estivesse errado — quase todos os profetas do fim estiveram —, mas que seu erro tenha sido tão fértil. Dois mil anos depois, a expectativa de uma ruptura final continua a organizar o pensamento político, moral e científico do Ocidente.

A modernidade gosta de se apresentar como a superação dessas ilusões religiosas. No entanto, ela apenas trocou os nomes. Onde Paulo via o retorno do Senhor, vemos hoje o colapso climático, a extinção em massa, a guerra total, a falência da civilização. A narrativa é a mesma: um presente corrompido, um futuro fechado e uma linha invisível que conduz de um ao outro. O progresso, que se pretendia antídoto contra o apocalipse, acabou por se tornar sua versão laica. Prometeu redenção pela técnica e, ao falhar, deixou como legado o medo da catástrofe.

A divergência entre as duas mentalidades descritas — a que espera o desastre e a que relativiza esse temor — não é um conflito entre razão e superstição. É um desacordo interno à própria tradição apocalíptica. Uns acreditam no fim como evento singular e devastador; outros o diluem numa sucessão interminável de crises. Ambos partilham a mesma premissa: a de que a história tem algo a dizer sobre o nosso destino coletivo. Essa premissa nunca foi demonstrada. É um resíduo teológico que sobreviveu à morte de Deus.

A viagem de Paulo, com seus desvios interpretados como ordens do Espírito, ilustra um traço humano mais geral: a necessidade de ler intenção onde há apenas contingência. Renan tinha razão ao sugerir que sonhos, contratempos e encontros fortuitos eram elevados à categoria de sinais. Mas isso não é uma peculiaridade dos apóstolos. É um hábito mental que persiste nas sociedades seculares, agora disfarçado de análises estruturais e modelos preditivos. Continuamos a transformar acidentes em destinos.

O mundo romano do século I talvez não estivesse saturado de expectativas apocalípticas. O nosso certamente está. A diferença é que, hoje, acreditamos ter boas razões para isso. Estatísticas substituíram profecias; gráficos tomaram o lugar das visões. Ainda assim, a crença subjacente permanece intacta: a de que a humanidade caminha para um ponto final que dará sentido retroativo a tudo o que veio antes. Essa crença não nos torna mais lúcidos. Apenas nos oferece uma narrativa reconfortante para lidar com a incerteza.

O fim do mundo é uma ideia resistente porque responde a uma ansiedade permanente: a dificuldade de aceitar que a história não vai a lugar algum. Civilizações surgem e desaparecem sem cumprir promessa alguma. Catástrofes acontecem, não como punição ou redenção, mas como parte do funcionamento indiferente do mundo. Paulo errou ao esperar o juízo final em sua própria geração. Nós erramos ao supor que, desta vez, o erro foi finalmente superado.

Talvez a lição mais sóbria seja esta: o mundo não precisa acabar para que a vida humana seja precária, violenta e transitória. Ele sempre foi assim. O apocalipse não é um evento futuro; é um modo de pensar que se recusa a aceitar a ausência de sentido último. Enquanto essa recusa persistir, continuaremos a anunciar fins — religiosos ou seculares — que jamais chegam, mas que moldam profundamente a forma como vivemos.

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