Há uma tendência persistente, quase irresistível, de ler a história de Paulo como um drama de redenção. O perseguidor torna-se apóstolo; o fanático encontra a verdade; o homem violento é transfigurado pelo amor. Essa leitura conforta porque reafirma uma crença central da civilização ocidental: a de que a vida humana possui um sentido último, e que o sofrimento, se for suficientemente intenso, pode ser convertido em salvação. Mas o que emerge com mais força do relato não é a promessa de redenção — é a presença obstinada do corpo, doente, humilhado, indomável.
Paulo não é apenas o convertido fulgurante do caminho de Damasco. Ele é, talvez antes de tudo, um corpo que falha. Um corpo que sangra, que supura, que envergonha. O chamado “aguilhão na carne” não é um detalhe marginal de sua biografia; é o seu centro silencioso. Enquanto a tradição cristã se esforça por espiritualizar esse sofrimento — transformando-o em prova, em eleição, em pedagogia divina — o texto deixa escapar algo mais incômodo: a conversão não libertou Paulo de sua condição corporal, nem o reconciliou com ela. A fé não curou sua doença. Apenas lhe forneceu uma narrativa para suportá-la.
A modernidade herdou essa estrutura mental. Continuamos a acreditar que existe uma explicação moral ou metafísica para a dor. Se não é punição, é prova; se não é prova, é ocasião de crescimento. Em todos os casos, o sofrimento precisa “servir” para alguma coisa. A ideia de que a dor possa ser simplesmente um fato bruto da existência — sem finalidade, sem lição, sem compensação — é insuportável para uma espécie que se imagina no centro do universo.
Paulo fala de sua doença como algo que o prende ao chão, mesmo quando sua imaginação voa para o absoluto. Ele suplica que Deus a afaste, e a resposta que recebe não é a cura, mas uma frase vazia de consolo: “Basta-te minha graça”. O que isso realmente significa? Não que a dor tenha um sentido, mas que ela é inevitável. A graça não remove o sofrimento; apenas o torna narrável. Dá-lhe uma moldura simbólica dentro da qual se pode continuar vivendo sem sucumbir ao desespero.
Lucas, médico, observa. Ele vê o corpo antes da teologia. Vê a febre, o pus, o delírio. Vê que não há revelação capaz de abolir a fragilidade orgânica. Essa é uma lição que a tradição cristã tentou apagar, mas que retorna sempre, como a própria doença de Paulo. Nenhuma iluminação espiritual altera o fato de que somos animais vulneráveis, sujeitos a falhas químicas, genéticas, neurológicas. A conversão muda a interpretação da experiência, não a experiência em si.
A famosa metamorfose — a lagarta que se torna borboleta — é uma metáfora enganosa. A lagarta não escolhe se transformar; ela não sofre por antecipação; não carrega consigo a memória do que foi perdido. O ser humano, ao contrário, vive a mudança como ruptura e perda. Paulo não deixa de ser Saulo; ele o carrega como uma sombra. Sua violência passada não é redimida, apenas recontextualizada. O zelo que antes se manifestava como perseguição agora se manifesta como missão. O impulso permanece; apenas muda de direção.
É por isso que Paulo é tão moderno. Ele encarna a ilusão de que uma mudança interior radical pode resolver o conflito humano fundamental — o descompasso entre nossas aspirações infinitas e nossas limitações biológicas. Mas sua própria vida desmente essa ilusão. O homem que proclama a libertação vive acorrentado à própria carne. O profeta da ressurreição convive diariamente com a decomposição.
Talvez a verdade mais dura que emerge desse relato seja esta: não há travessia definitiva. Não há ponto a partir do qual o medo, a dor e a vergonha sejam deixados para trás. A experiência de Paulo não revela um caminho universal de salvação, mas uma estratégia individual de sobrevivência psíquica. Ele encontrou uma forma de viver com o insuportável. Outros encontram outras, ou nenhuma.
A insistência em transformar essa experiência singular em modelo para toda a humanidade é um erro que continua a nos assombrar. Ela sustenta a crença de que o ser humano é uma obra inacabada em direção a um fim superior. Mas talvez não haja fim algum. Talvez sejamos apenas criaturas conscientes presas a corpos frágeis, inventando histórias para tornar essa condição suportável.
Paulo inventou a sua. Nós continuamos a viver dentro dela — não porque seja verdadeira, mas porque ainda não aprendemos a viver sem a esperança de que a dor signifique algo além de si mesma.
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