A literatura contra a inocência

Quando os números dissolvem a ilusão de um cânone neutro


Há momentos em que uma obra crítica deixa de ser apenas um livro e se converte em sintoma. Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa, de Regina Dalcastagnè, pertence a essa categoria desconfortável. Surge num tempo em que universidades públicas são tratadas como anacronismos dispendiosos e a pesquisa acadêmica é acusada de irrelevância. O livro responde a essa acusação com método.

Publicada pela Editora Todavia, a obra de 608 páginas não oferece consolo. Tampouco reafirma a crença, tão cara aos humanistas liberais, de que a literatura é um território naturalmente plural, onde as vozes se equilibram por mérito intrínseco. Ao contrário, a pesquisa de Dalcastagnè mostra que a narrativa brasileira desde 1970 reproduz, com notável fidelidade estatística, as hierarquias sociais do país que a produz.

O gesto é simples e devastador: contar.

Mais de 80% dos romances se passam em grandes cidades. Mais de 70% dos autores são homens. Mais de 90% são brancos. A maioria reside no eixo Rio–São Paulo. Esses dados são a ruína de uma fantasia persistente — a de que o campo literário opera numa esfera autônoma, imune às assimetrias de classe, raça e gênero. A literatura, sugere Dalcastagnè, não paira acima do mundo; ela o replica.

A organização do livro em “percursos” — espaciais, políticos, íntimos e cotidianos — evita a cronologia triunfalista que costuma estruturar histórias literárias. Não há aqui a narrativa confortável de escolas que sucedem escolas, como se a forma literária evoluísse por necessidade interna. Em vez disso, encontramos uma cartografia de tensões. Cada percurso revela como o espaço urbano concentra legitimidade simbólica; como o político atravessa o íntimo; como o cotidiano é um campo de disputa, não um cenário neutro.

O ponto nevrálgico é a representação. Quem narra? Quem é narrado? E sob que condições? A resposta é menos edificante do que gostaríamos. Mulheres, negros, indígenas, trabalhadores rurais, moradores de periferias, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência aparecem sub-representados tanto na autoria quanto na ficção. Não se trata de uma falha ocasional, mas de um padrão estrutural.

Há, evidentemente, quem prefira ler esses dados como contingência histórica ou simples reflexo demográfico. Mas essa explicação ignora o funcionamento do cânone. O cânone não é apenas um conjunto de obras consagradas; é um dispositivo de exclusão. Ele determina o que merece circular, ser ensinado, traduzido, financiado. Ao interrogar suas bases, Dalcastagnè não está “politizando” a literatura — está descrevendo sua política constitutiva.

O livro é combativo, mas não panfletário. Sua força reside na combinação rara de análise quantitativa em larga escala com leitura qualitativa rigorosa. Em estudos literários, números costumam ser vistos como intrusos, como se estatísticas fossem uma profanação do texto. Dalcastagnè demonstra o contrário: que a quantificação, longe de empobrecer a crítica, pode libertá-la de ilusões.

Essa abordagem tem implicações que ultrapassam o campo literário. Em sociedades marcadas por desigualdades persistentes, a crença na neutralidade das instituições culturais é uma forma de autoengano. A literatura não é um refúgio moral; é um espaço onde conflitos se inscrevem sob a aparência de escolha estética. Quando o mercado editorial privilegia determinadas trajetórias sociais, não está apenas refletindo gostos — está consolidando estruturas de poder.

Há também um aspecto formal que merece atenção. Dalcastagnè escreve com clareza, evitando o jargão desnecessário. Isso não significa simplificação. Significa reconhecer que a precisão conceitual não exige obscuridade. Se há falhas editoriais — excesso de notas de rodapé no corpo do texto, ausência de índice onomástico — elas apenas ressaltam a ambição do projeto. Trata-se de uma obra monumental, e monumentos raramente são leves.

O impacto do livro reside naquilo que ele torna impossível. Depois de sua publicação, não é mais plausível escrever uma história da literatura brasileira contemporânea ignorando as exclusões que a estruturam. Não é mais possível tratar a desigualdade como acidente periférico. E não é mais defensável a ideia de que a crítica deva preservar uma suposta pureza estética afastando-se das lutas sociais.

Em última instância, o que Dalcastagnè oferece não é uma condenação moral da literatura brasileira, mas uma recusa da inocência. Ao expor os mecanismos de privilégio que atravessam o campo literário, ela nos obriga a abandonar a crença confortável de que a cultura corrige espontaneamente as injustiças da sociedade.

A literatura pode ser um espaço de resistência. Mas apenas se reconhecermos que, antes disso, ela é um espaço de disputa.


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