Contra a Ilusão da Redenção Política

Por que transformar toda experiência humana em disputa moral empobrece a cultura, estreita o pensamento e produz mais ansiedade do que compreensão.


A política moderna é movida por uma promessa implícita: a de que o mundo pode ser corrigido se adotarmos as ideias certas, no momento certo, com intensidade suficiente. Essa promessa é antiga, mas raramente foi tão difundida. Ela atravessa ideologias opostas com a mesma convicção religiosa. O desacordo não está no método — transformar a sociedade por meio da política —, mas apenas no destino final imaginado.

O problema é que essa promessa não descreve a realidade humana. Ela descreve um desejo humano recorrente: o de escapar da contingência.

A política tornou-se, para muitos, a linguagem principal com que se interpreta a experiência. Emoções privadas são traduzidas em categorias públicas; conflitos íntimos são recodificados como disputas morais coletivas. A vida deixa de ser algo a ser vivido e passa a ser algo a ser justificado. Nada pode simplesmente existir. Tudo deve provar seu valor.

Esse processo costuma ser celebrado como conscientização. Mas ele tem menos a ver com lucidez do que com ansiedade. Uma sociedade que submete todas as dimensões da vida ao julgamento político não está mais desperta; está inquieta. Ela confunde vigilância constante com pensamento.

Há uma suposição silenciosa por trás disso: a de que a política é o campo decisivo da existência humana. Que, se ela for corretamente orientada, os dilemas fundamentais — sofrimento, conflito, frustração, finitude — poderão ser atenuados ou mesmo resolvidos. Essa suposição não resiste a um exame histórico mínimo.

As grandes experiências políticas do século XX não fracassaram por falta de empenho, mas por excesso de confiança na maleabilidade humana. Partiam da crença de que indivíduos poderiam ser reformulados segundo projetos abstratos. O resultado foi previsível: sistemas que prometiam libertação produziram novas formas de servidão, frequentemente mais invasivas do que aquelas que pretendiam substituir.

Nada disso impediu o reaparecimento da mesma esperança sob novas roupagens. Hoje, ela se manifesta menos como engenharia social explícita e mais como vigilância moral difusa. O controle não vem apenas do Estado, mas da expectativa de alinhamento permanente. Opiniões são monitoradas, silêncios são interpretados, ambiguidades são tratadas como falhas de caráter.

Nesse ambiente, a cultura deixa de ser um espaço de exploração e torna-se um campo de provas. Livros não são lidos, são avaliados. Obras não são experimentadas, são posicionadas. O passado é revisitado não para ser compreendido, mas para ser corrigido retroativamente. A imaginação passa a operar sob condições de inspeção.

O efeito disso não é a produção de uma sociedade mais justa, mas de uma vida interior empobrecida. A mente humana não foi feita para sustentar indignação contínua. Quando exposta a ela, não se torna mais sensível, mas mais previsível. Reage com fórmulas prontas, repete slogans, adota identidades simplificadas. A complexidade — aquilo que a literatura sempre tentou preservar — torna-se um incômodo.

É por isso que a defesa da autonomia cultural não é um luxo, mas uma necessidade. Não porque a cultura seja superior à política, mas porque responde a questões que a política não pode resolver. Nenhum programa político ensina alguém a lidar com o luto. Nenhuma reforma institucional elimina o ciúme, o medo ou o ressentimento. Essas experiências persistem sob qualquer regime.

A literatura, quando ainda é livre para sê-lo, não oferece soluções. Ela descreve recorrências. Mostra que os dilemas que acreditamos exclusivos do presente já apareceram inúmeras vezes, sob formas diferentes. Ao fazer isso, não consola, mas desinfla expectativas irreais. E isso é um serviço raro.

O escritor que se submete inteiramente à agenda política do seu tempo abdica dessa função. Não por falta de coragem, mas por excesso de urgência. Escrever passa a ser reagir. Pensar passa a ser tomar posição. O horizonte temporal se estreita. O texto nasce com data de validade.

As obras que atravessam o tempo não o fazem por estarem corretas segundo os padrões morais de sua época, mas por terem captado algo que não depende desses padrões. Elas sobrevivem porque falam a leitores que vivem sob circunstâncias diferentes, com conflitos diferentes, mas reconhecem nelas algo familiar.

Isso exige distância. Não neutralidade — que é um mito —, mas recusa da absorção total. A política quer atenção contínua; a criação exige silêncio intermitente. A primeira prospera no ruído; a segunda depende de pausas. Quando essas pausas desaparecem, não resta espaço para nada que não seja reação.

Reduzir a exposição ao discurso político dominante não é um gesto heroico. É um reconhecimento de limites. A maior parte do que se apresenta como urgência não terá importância duradoura. Isso não significa que decisões políticas não afetem vidas concretas. Significa apenas que o fluxo incessante de comentários sobre elas raramente produz entendimento proporcional ao tempo que consome.

Talvez o erro mais persistente da modernidade seja acreditar que agir sobre o mundo exige estar permanentemente mobilizado. Em muitos casos, o efeito é o oposto: quanto mais mobilização, menos clareza. Defender um espaço onde a mente não esteja continuamente convocada a julgar é uma forma modesta, mas real, de resistência.

No fim, a pergunta não é se devemos nos importar com a política, mas quanto dela somos capazes de suportar sem deformar nossa percepção. Uma cultura saudável não é aquela em que todos pensam da mesma forma, mas aquela em que ainda é possível pensar devagar.

Se algo merece ser preservado, não é a ilusão de que a política nos salvará, mas a capacidade de reconhecer que ela nunca foi feita para isso. O mundo humano não é um problema a ser resolvido. É uma condição a ser atravessada. E poucas atividades ajudam mais nessa travessia do que aquelas que se recusam a transformar toda experiência em um argumento.


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