Sobre a Escrita e as Sombras da Inteligência




O acontecimento em torno da colunista Natália Beauty — uma figura conhecida no universo de empreendedorismo e estética que publicou colunas em veículo tradicional de jornalismo — serve como um sintoma revelador do nosso tempo: não apenas da crise da escrita, mas da crise do pensamento que a acompanha.

Não é trivial que uma empresária de beleza tome lugar na arena do editorial opinativo. Já isso indica a dissolução de fronteiras que outrora conferiam alguma legitimidade epistemológica ao que se chama de “opinião publicada”: hoje, qualquer voz com seguidores pode ocupar a tribuna pública. Mas o que chama a atenção, e não de maneira laudatória, é a admissão de que tais textos foram organizados ou mesmo essencialmente gerados com auxílio de inteligência artificial.

Aqui reside o cerne da questão: a escrita é, na tradição humanista, mais do que um veículo de comunicação; é a condensação do pensamento. São Paulo, com seus picos e vales, suas pulsações de vida e suas armadilhas de senso comum, não é terreno fértil para automação completa de uma voz genuína. James Wood certa vez disse que um texto revela “o modo de ver” de seu autor. A inteligência artificial, por sua natureza técnica, não “vê” — ela replica padrões. Tradução: o que emerge é o conhecido disfarçado de original.

A defesa deste uso tecnológico, em que se argumenta que a IA é simplesmente uma forma de otimizar ou organizar ideias inicias ditadas em áudio, esbarra numa contradição profunda. Se pensar é estruturar e reestruturar conceitos, quando esse trabalho é delegado a um algoritmo, o resultado é um casulo de lugar-comum, produto de inferências estatísticas encobertas por uma retórica palatável. Repetir a retórica de que “tempo é o único ativo que não volta” soaria benigno se não fosse tão vazio. É a defesa pragmática de alguém que abraça a substituição do pensamento por operação técnica, num mundo em que qualquer “voz” pode ser mascarada digitalmente.

A cultura contemporânea, saturada de conteúdo gerado por algoritmos, favorece este eclipse da singularidade humana. A inteligência artificial promete servir como extensão da mente; na prática, para muitos, ela tornou-se espelho sem profundidade. As ferramentas consomem o ethos do autor — não apenas suas palavras, mas o risco inerente de uma reflexão que falha, tropeça, corrige-se, volta atrás e, às vezes, alcança uma nuance inédita.

O uso de tecnologia para organizar ideias não é, em si, escandaloso. O problema filosófico emerge quando a máquina passa a atuar como substituta da elaboração intelectual. Neste ponto, não estamos apenas terceirizando a escrita; estamos terceirizando a própria agência cognitiva. A consequência é dupla: o leitor perde uma referência humana e o escritor perde aquilo que lhe é fundamental — a responsabilidade de pensar até o ponto em que suas palavras se tornam, de fato, irrepetíveis.

Assim, o episódio que envolve Natália Beauty é indicativo de uma época em que o valor da escrita — e do pensamento — é medido não pela profundidade da reflexão, mas pela eficiência da produção. Isso é cultura em erosão. E como tal, deveria ser encarado com a mesma seriedade com que se discute a perda de tradições intelectuais que, por séculos, fizeram da escrita humana uma mediação insubstituível da consciência.

Se tiver interesse, leia o que escreveu a ombudsman do jornal.

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