Machado e o seu século



A aula começava como tantas outras: alunos dispersos, cadernos abertos sem urgência, celulares ainda ativos sobre as carteiras. Era início de semestre na UNEB, turma de letras, e havia no ar uma espécie de expectativa morna, como se todos ali soubessem que estavam diante da literatura, mas ainda não exatamente dentro dela.

O professor falava sobre escolas literárias.

Falava com a segurança de quem já percorreu esse território muitas vezes, mas também com a cautela de quem desconfia do próprio mapa. Explicava como o ensino médio organiza a literatura em compartimentos — romantismo, realismo, simbolismo — como se fossem gavetas limpas, cada autor devidamente dobrado dentro de sua época. Alguns alunos anotavam. Outros apenas observavam. Havia, porém, uma inquietação silenciosa, difícil de nomear, mas perceptível na forma como certos olhares se desviavam da explicação para algo mais difuso.

Porque, no fundo, aquela organização parecia prática demais para ser verdadeira.

Reduzir um escritor ao seu tempo é uma operação eficiente — e perigosamente sedutora. Permite que se compreenda rápido, que se classifique sem esforço, que se ensine com clareza. O autor deixa de ser um problema e passa a ser um exemplo. Um caso. Um item de prova.

Mas algo se perde nesse processo.

O professor, talvez percebendo isso, desacelera. Abandona por um momento a enumeração das características de época e introduz um nome que, naquele contexto, funciona quase como uma ruptura: Machado de Assis.

Embora frequentemente seja relacionado ao realismo, Machado é alguém que resiste a essa função.

Machado, ele diz, cabe mal nas etiquetas.

E então a aula muda de tom. Já não se trata de listar traços de movimento literário, mas de observar um homem — um escritor — operando dentro e além de seu tempo. Machado viveu no século XIX, absorveu suas formas, dialogou com suas preocupações, frequentou seus salões, leu seus autores. Tudo isso é verificável, quase burocrático.

Mas não explica Machado.

O que nele se destaca — e isso começa a ficar claro até para os alunos mais distraídos — é uma espécie de duplicidade elegante. Uma escrita que parece civilizada demais para ser cruel, e cruel demais para ser apenas civilizada. Uma ironia que nunca se anuncia como tal, mas que corrói, discretamente, as superfícies mais respeitáveis.

É aqui que entra Carpeaux, citado como alguém que enxergou esse mecanismo com precisão quase clínica. Ele fala de “arrière-pensées”, de segundas intenções — e a expressão, estrangeira, parece adequada, porque há algo em Machado que não se traduz completamente. Uma suspeita constante, uma inteligência que observa o comportamento humano não para descrevê-lo, mas para desmontá-lo.

E, no entanto, sem alarde.

Essa combinação — requinte formal, contenção, desconfiança — produz um efeito curioso: Machado não escandaliza, mas também não consola. Ele trabalha com os códigos do seu tempo, suas convenções, suas aparências. Mas é justamente esse domínio que lhe permite subvertê-los por dentro.

O professor, nesse ponto, já está tentando mostrar um fenômeno.

Porque o que se revela ali, naquela sala quente e ligeiramente dispersa, é uma ideia simples, mas difícil de ensinar: grandes escritores não pertencem inteiramente às categorias que usamos para explicá-los. Eles as atravessam.

E talvez seja essa a razão pela qual tantos alunos do ensino médio têm dificuldade com literatura. Porque lhes é apresentada como algo excessivamente organizado — quando, na verdade, é feita de desvios, tensões e ambiguidades.

Machado é alguém que, tendo passado por esse século, não ficou nele.

E essa constatação — que poderia soar como uma observação acadêmica — ganha, naquele contexto, uma dimensão quase pessoal. Porque sugere que a literatura, quando realmente importa, não se limita a explicar o passado. Ela expõe algo que continua operando, silenciosamente, no presente.

Talvez seja isso que, mesmo sem formular, alguns alunos começam a perceber.

Os cadernos permanecem abertos. Mas há uma mudança sutil na atenção da sala — como se, por um instante, a literatura tivesse deixado de ser um conteúdo e se tornado uma experiência menos classificável.

Menos segura.

E, por isso mesmo, mais próxima daquilo que Machado, com sua ironia discreta, sempre pareceu saber: que o ser humano raramente cabe nas definições que inventa para si mesmo.

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