O Fantasma na máquina literária: Identidade e o mito do criador



A crença moderna de que um autor possui sua obra, ou que uma obra revela a alma de seu autor, é uma das muitas ficções piedosas que herdamos do humanismo liberal. Alimentamos a ilusão de que a escrita é um exercício de soberania individual, um mapeamento consciente do "eu". No entanto, como observado nos casos contrastantes de Fernando Morais e Clarice Lispector, a autoria é menos um ato de controle e mais um processo de dispersão e mascaramento.

No segundo volume de sua biografia sobre Lula, Fernando Morais tenta um experimento curioso: a autodeleção. Embora tenha sido testemunha ocular e arquiteto de slogans que moldaram a história política brasileira, ele se retira para as margens. Morais busca a pureza do observador, tentando separar o biógrafo do personagem que ele próprio ajudou a construir. É uma tentativa nobre, mas fadada ao fracasso. Ao omitir seu nome enquanto narra eventos que levam sua digital — como o triunfo da "esperança sobre o medo" — ele não apaga sua presença; ele apenas a torna fantasmagórica.

Essa tentativa de separação reflete um equívoco central da nossa era: a ideia de que podemos editar nossa identidade até que reste apenas uma narrativa coerente. Morais quer ser o espelho, esquecendo-se de que todo espelho está impregnado com o mercúrio de quem o fabricou. Sua "presença lateral" é, na verdade, a prova de que o autor é um prisioneiro da história que tenta contar. Não existe um ponto de vista externo; estamos todos imersos no fluxo de eventos que fingimos observar com distanciamento.

Em contrapartida, temos o fascínio quase religioso em torno de um livro de receitas da Nestlé atribuído a Clarice Lispector. Aqui, o movimento é inverso. O público e os biógrafos buscam desesperadamente o "eu" de Clarice em fórmulas de mousse de chocolate e mingau. Benjamin Moser, imerso na hagiografia da autora, resiste à ideia de que a culinária possa pertencer à "sua" Clarice. Para o biógrafo, o gênio deve ser consistente; ele não pode se perder na trivialidade do cotidiano corporativo ou doméstico.

No entanto, é precisamente nessa banalidade que a verdade da condição humana se revela. Se Clarice escreveu aquelas receitas, ela o fez como uma função do acaso, da necessidade econômica ou do simples capricho — forças que o humanismo prefere ignorar em favor da "visão artística". O fato de o manual ganhar status de relíquia apenas por ostentar uma assinatura demonstra que a literatura, para o homem moderno, tornou-se um substituto para a religião. Buscamos o maná do autor em seus traços mais mundanos, esperando que o sagrado nos toque através de uma instrução de cozinha.

O que esses dois episódios revelam é que a separação entre autor e obra é uma impossibilidade biológica e existencial. O autor não é uma unidade estável; é uma sucessão de estados mentais, muitos deles contraditórios. Morais tenta se esconder da glória da qual participou; o público tenta arrastar Clarice para um palco que ela talvez quisesse evitar.

No fim, a obra nunca pertence ao autor, nem o autor à obra. Ambos são fragmentos de um processo histórico e linguístico que não possui mestre. A busca pela "presença" ou pela "ausência" do criador é apenas mais uma maneira de negarmos o fato de que somos, em grande medida, desconhecidos para nós mesmos. Seja escrevendo a história de um líder de massas ou o modo de preparo de um pudim, o autor é apenas o lugar onde a linguagem acontece — um acidente que insistimos em chamar de destino.

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