O episódio do cachorro Orelha expõe um fenômeno recorrente na vida moral contemporânea: a rapidez com que uma comunidade se organiza em torno de uma narrativa de culpa e redenção. A morte de um animal indefeso desencadeia indignação, mas o que se revela vai além da compaixão. Surge uma energia coletiva orientada para a punição, dotada de uma tonalidade quase religiosa. A linguagem é jurídica; o impulso é sacrificial.
A teoria mimética de René Girard fornece uma chave interpretativa decisiva. Para Girard, o desejo humano estrutura-se por imitação. Os objetos importam menos do que os modelos que os tornam desejáveis. O mesmo vale para a hostilidade. A acusação circula, adquire intensidade por contágio e converge sobre um alvo comum. Nesse ponto, a violência difusa encontra um foco.
No relato, há um instante de autopercepção: a adesão à turba. A imagem das tochas não é retórica gratuita. A turba constitui um dispositivo social antigo, capaz de produzir coesão imediata. A responsabilidade individual dilui-se numa certeza partilhada. O “Ódio do Bem” funciona como legitimação moral. Quem participa sente-se investido de uma missão corretiva. A eliminação dos supostos culpados adquire a forma de um ato restaurador.
A força dessa experiência reside na comunhão que ela produz. Desconhecidos reconhecem-se como aliados numa causa comum. A fronteira entre justiça e vingança torna-se turva, pois ambas se apresentam sob a aparência de reparação. A internet amplia o alcance do rito. Divulgar nomes, pressionar instituições, exigir punição — cada gesto contribui para a consolidação de uma unanimidade provisória.
Nas sociedades arcaicas descritas por Girard, o mecanismo do bode expiatório encerrava ciclos de violência interna. A vítima concentrava tensões acumuladas. Sua morte produzia um intervalo de estabilidade que, retrospectivamente, parecia ter origem transcendente. A comunidade atribuía à vítima sacrificada um poder ambivalente. Ela se tornava fonte de desordem e de pacificação.
A modernidade não eliminou esse padrão; modificou suas condições de funcionamento. A consciência histórica introduziu suspeita em relação às unanimidades. A investigação factual interrompe a fluidez da acusação. Quando surgem versões alternativas — o porteiro pode ter razões pessoais, os depoimentos mostram inconsistências — a narrativa sacrificial perde consistência. A energia coletiva não se converte em paz duradoura; fragmenta-se em campos rivais.
Essa fragmentação não indica superação do impulso sacrificial. Indica sua precariedade. O mecanismo continua operante, porém sem a eficácia simbólica que possuía em comunidades menos reflexivas. Em vez de um consenso estabilizador, formam-se bolhas interpretativas. Cada uma preserva sua própria versão da culpa. A catarse prometida não se realiza.
O desconforto experimentado pelo narrador sinaliza um traço distintivo da condição moderna. Participa-se do fervor punitivo e, quase simultaneamente, reconhece-se sua estrutura arcaica. A consciência crítica não impede a adesão inicial; atua como força corretiva posterior. A tocha é acesa com convicção e guardada com embaraço.
Há ainda a dimensão social da escolha da vítima. Jovens ricos acusados de brutalidade condensam ansiedades relativas a privilégio, impunidade e desigualdade. O alvo não emerge ao acaso. Ele deve ser capaz de simbolizar tensões mais amplas. O caso particular converte-se em palco para conflitos estruturais. A figura do agressor incorpora uma tipologia moral pré-existente.
O direito positivo, com seus procedimentos e exigências probatórias, não oferece a intensidade emocional do rito sacrificial. Ele produz decisões, não redenção. Quando a investigação complexifica os fatos, a imaginação moral perde o enredo simples que sustentava a indignação coletiva. O mal deixa de ser absoluto; torna-se objeto de disputa interpretativa. A frustração decorre da ausência de uma resolução que satisfaça o desejo de purificação.
O “Ódio do Bem” constitui uma forma contemporânea de sacralidade difusa. Ele promete sentido, coesão e clareza moral num ambiente marcado por ambiguidade. A experiência é sedutora porque oferece pertencimento imediato. Contudo, sua eficácia é efêmera. A violência simbólica que mobiliza retorna sob a forma de polarização e ressentimento.
O cachorro Orelha, involuntariamente, torna-se catalisador dessa dinâmica. A reação à sua morte revela a persistência de estruturas sacrificialistas no interior de sociedades que se imaginam pós-religiosas. A diferença fundamental reside no fato de que agora conhecemos — ao menos em parte — os mecanismos que nos capturam. Essa consciência não extingue o impulso; apenas o torna mais visível.
A tocha permanece guardada. Novos episódios poderão reativar o mesmo padrão. A vigilância crítica não garante imunidade. Ela oferece, no máximo, a possibilidade de reconhecer a tentação antes que a chama volte a iluminar, com seu brilho moral, a simplificação da realidade.
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