Há algo de profundamente revelador — quase simbólico — no fato de que um artista como Emicida, ao tentar reencontrar-se com a tradição do rap nacional, precise fazê-lo por meio de uma espécie de arqueologia invertida: numerando seus álbuns de trás para frente, remixando a própria obra com os ecos de um passado que não lhe pertence inteiramente, mas que o constitui.
A cultura contemporânea brasileira, sobretudo aquela que se pretende “periférica” ou “autêntica”, vive de um paradoxo insolúvel: ao mesmo tempo em que reivindica originalidade, só consegue afirmar-se mediante a reinterpretação de cânones já estabelecidos. No caso, os Racionais MC’s — cuja importância histórica é inegável — transformaram-se em referência, em medida ontológica do que significa “ser rap” no Brasil. Emicida, ao retornar a essa matriz, está buscando legitimação. E isso diz mais sobre o presente do que sobre o passado.
A trilogia “Racional VL” expõe, assim, uma crise de identidade artística. O recurso ao mashup — essa técnica pós-moderna por excelência, que mistura elementos preexistentes — revela a dificuldade de criar algo verdadeiramente novo sem recorrer à autoridade simbólica de outrem. É como se o artista dissesse: “eu existo na medida em que consigo dialogar com aquilo que já foi consagrado”. Ora, isso não é criação; é, no máximo, variação.
Mas o drama não se limita ao plano estético. Ele se prolonga — e talvez encontre sua expressão mais crua — na ruptura com o irmão, parceiro de longa data e cofundador do Laboratório Fantasma. Aqui, o que vemos é a colisão entre duas dimensões que raramente coexistem pacificamente: a fraternidade e o negócio. Quando a arte se institucionaliza, quando se transforma em empresa, ela passa a obedecer a uma lógica que não reconhece afetos, apenas contratos. E, como toda lógica impessoal, cobra seu preço.
A disputa judicial entre Emicida e Fióti é a manifestação concreta de uma tensão estrutural: quem é, afinal, o verdadeiro sujeito da obra? O artista que cria ou o gestor que viabiliza? O gênio ou o administrador? A resposta moderna — e profundamente equivocada — tende a dissolver essa distinção, como se ambos fossem intercambiáveis. Mas não são. E quando essa diferença não é reconhecida, o resultado é o conflito inevitável.
O relato dos funcionários, abandonados em um “limbo” organizacional, revela ainda outra camada do problema: a fragilidade das estruturas que se constroem em torno de personalidades carismáticas. Quando o vínculo central se rompe, tudo ao redor se desagrega. Não há instituição sólida, apenas uma rede de dependências.
E, no entanto, há algo de genuinamente humano — e até comovente — na maneira como Emicida fala do irmão. O amor permanece, mesmo quando a convivência se torna impossível. Isso contraria a lógica binária que domina o imaginário contemporâneo, segundo a qual toda ruptura implica necessariamente inimizade. Não. Às vezes, romper é a única forma de preservar aquilo que ainda resta de vínculo.
No fundo, o que essa história revela é a dificuldade — talvez insolúvel — de conciliar três esferas distintas: a arte, o mercado e a vida pessoal. Emicida, ao tentar reatar com o rap, reorganizar sua carreira e redefinir sua relação com o irmão, encontra-se no centro desse triângulo de tensões. Sua trilogia é um documento existencial: o registro de um homem que busca, simultaneamente, suas raízes e sua autonomia.
Se conseguirá ou não, é uma questão em aberto. Mas o fato de que essa busca se dê sob o signo da repetição — remixando o passado, revisitando os Racionais — sugere que o caminho adiante talvez dependa menos de olhar para trás e mais de enfrentar, sem mediações, o risco da verdadeira criação.

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