Horace Walpole forjou um manuscrito medieval, enganou seus leitores e, de quebra, fundou o romance gótico — além de deixar no inglês uma palavra quase intraduzível: “serendipity”
Na década de 1760, quando supostamente ainda não existiam fake news — mas já havia leitores dispostos a acreditar nelas —, um aristocrata inglês decidiu brincar de editor de fantasmas. Horace Walpole, filho do primeiro-ministro de fato da Grã-Bretanha, publicou em 1764 um livro com um título promissor: O Castelo de Otranto. A história vinha acompanhada de uma garantia de autenticidade: tratava-se, segundo o autor, da tradução recente de um manuscrito medieval recém-descoberto.
A estratégia funcionou. O mundo literário, sempre ávido por novidades com cheiro de antiguidade, correu às livrarias. Havia ali todos os ingredientes que fariam escola: castelos sombrios, passagens subterrâneas, aparições inexplicáveis. Um ano depois, já com o sucesso assegurado, Walpole resolveu estragar a própria farsa. Na reedição da obra, acrescentou um prefácio em que confessava: tinha inventado tudo.
O estrago, no entanto, já estava feito — e no melhor sentido possível. Ao assumir a fraude, Walpole inaugurou o romance gótico. Também consolidou um de seus dispositivos narrativos mais duradouros: o manuscrito “encontrado”, esse truque literário que dá verniz de verdade ao que é pura invenção. Sem ele, é difícil imaginar a linhagem que viria depois — de Edgar Allan Poe a Mary Shelley, de Drácula a Stephen King.
Curiosamente, O Castelo de Otranto não é, hoje, uma leitura exatamente ágil. Há quem o considere pesado, até tedioso. Mas sua importância independe do prazer imediato: trata-se de um livro que fundou um gênero e um clima — um modo de narrar em que o mistério se infiltra pelas paredes e o medo mora nos detalhes.
Walpole não se contentou em reinventar a ficção. Também mexeu na própria língua. O Oxford English Dictionary lhe atribui a introdução de mais de duzentas palavras no inglês — entre elas beefy (robusto), malaria, nuance, sombre e souvenir. É uma lista heterogênea, como se o autor tivesse decidido ampliar o vocabulário com a mesma desenvoltura com que inventava histórias.
Mas sua criação mais célebre talvez seja outra: “serendipity”. Ele cunhou o termo em 1754, numa carta em que descrevia um “conto de fadas bobo” — expressão que também lhe é creditada — chamado Os Três Príncipes de Serendip. Serendip era um antigo nome do Sri Lanka, e a narrativa conta como três príncipes conseguem localizar um camelo desaparecido não por método, mas por sorte. A palavra que nasceu daí designa justamente isso: a capacidade de fazer descobertas felizes por acaso. Não por coincidência, é considerada uma das mais difíceis de traduzir.
A influência de Walpole escapou das páginas. Em Londres, sua residência, Strawberry Hill, parecia a materialização de suas fantasias literárias: uma mansão de proporções quase palacianas, com ares de castelo neogótico. O lugar virou atração, deu nome a uma região da cidade — próxima a Twickenham, no distrito de Richmond — e acabou batizando um estilo arquitetônico: o Gótico de Strawberry Hill.
Walpole, no fim das contas, inventou uma história, inventou um cenário, um vocabulário e uma tradição. E tudo começou com uma mentira bem contada.

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