Se há algo que a experiência histórica torna insustentável, é a crença de que a lucidez — individual ou coletiva — possui qualquer poder duradouro contra as formas de autoengano que sustentam a vida social. O que se costuma chamar de “tomar consciência” raramente passa de uma breve interrupção no fluxo das ilusões necessárias. Logo se recompõe o enredo, às vezes ainda mais sofisticado.

No caso brasileiro, essa dinâmica não constitui uma anomalia, mas uma intensificação visível de um padrão mais amplo. A preferência pela encenação sobre a experiência direta, pela máscara sobre a interioridade, não é um defeito corrigível. A sinceridade, quando ocorre, aparece como falha de cálculo — um momento de desajuste em um sistema que exige consistência performática, não verdade.

A literatura, como frequentemente ocorre, já havia registrado isso sem a pretensão de oferecer saída. Os personagens do universo literário brasileiro são estruturalmente incapazes de coincidir consigo mesmos. Trata-se da ausência de um ideal desde o início.

O que nas últimas décadas se intensificou foi a crença na própria virtude. Uma sociedade que aprende a se perceber como vítima permanente adquire, com isso, uma imunidade quase perfeita à autocrítica. A linguagem moral torna-se um mecanismo de blindagem. Julga-se com severidade onde isso reafirma identidades convenientes; absolve-se onde a coerência exigiria o contrário. Há padrões que se ajustam conforme a necessidade.

A ideia de um “despertar” se revela ilusória. O indivíduo que imagina ter escapado da rede de autoenganos apenas substituiu um conjunto de ficções por outro mais sofisticado. A própria noção de autenticidade, tão cara às culturas modernas, funciona como um mito regulador: não descreve uma possibilidade real, mas oferece uma narrativa que torna tolerável a distância entre o que se é e o que se afirma ser.

Nada disso é exclusivo de um país ou de um tempo. O que varia são os estilos de ilusão, não sua função. Em alguns contextos, ela assume a forma de fé religiosa; em outros, de ideologia política ou de moralidade terapêutica. No Brasil contemporâneo, manifesta-se como um sistema difuso de encenação moral, no qual a aparência de retidão substitui qualquer compromisso com a verdade — porque alternativas são, na prática, inviáveis.

Diante disso, a expectativa de correção — seja por educação, reforma institucional ou crise moral — revela-se um resquício de pensamento progressista. Sociedades não aprendem com seus erros no sentido que essa crença supõe; elas apenas os reconfiguram em novas narrativas. O que hoje se apresenta como degeneração pode, em outro contexto, ser reinterpretado como avanço. Não há um ponto externo a partir do qual julgar essas transformações de forma definitiva.

Resta, então, a questão incômoda: o que acontece quando até mesmo a crítica perde seu poder? A resposta, se é que há uma, é menos dramática do que se imagina. A vida prossegue. As pessoas continuam a agir, justificar, acusar e absolver, movidas por impulsos que raramente compreendem e que não precisam compreender para funcionar. A ordem social, longe de depender da verdade, apoia-se justamente na sua ausência parcial.

Se há uma catarse possível, ela não está na esperança de ruptura, mas no abandono dela. Não há redenção à espera, nem autenticidade a ser recuperada, nem consciência capaz de se sustentar fora das ficções que a produzem. O alívio — se essa palavra ainda se aplica — vem apenas quando se deixa de exigir do mundo uma coerência que ele nunca prometeu oferecer.

Nesse ponto, o descompasso entre o que se diz e o que se é deixa de ser um escândalo. Torna-se mais um dado entre outros, tão inevitável quanto a necessidade de respirar ou a certeza da morte. E, livre da expectativa de correção, o olhar já não procura salvação — apenas descreve, com a precisão possível, o que sempre esteve ali.

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