Sobre a necessidade de escrever


Vicente Andrade não é exatamente o tipo de jornalista que você encontra com frequência — o que, no caso dele, significa que você quase nunca encontra. Durante anos, seu nome sobreviveu mais em conversas sobre jornalismo do que em assinaturas recentes. Não era um desertor oficial, desses que anunciam a aposentadoria em tom solene; apenas foi deixando de produzir, como quem perde o hábito de frequentar um lugar sem perceber o momento exato em que parou de ir.

Foi por isso que estranhei quando, ao chegar em sua casa, sem muito preâmbulo, pegou o celular e começou a ler. Disse que tinha voltado a escrever. Acrescentou, com um meio sorriso que misturava ironia e cautela, que o texto havia nascido de um incômodo provocado por um ensaio meu. Não desenvolveu muito a explicação. Limitou-se a dizer que certas ideias o tinham “cutucado” o suficiente para fazê-lo sentar diante do computador depois de um longo silêncio.

Leu o texto ali mesmo, enquanto eu fingia não prestar atenção — olhando o movimento da rua, mexendo no celular. Quando terminou, começamos a falar do processo. Ele descreveu a escrita como uma espécie de limpeza: a sensação de estar retirando camadas de discurso que, segundo ele, não eram propriamente suas, mas que tinham se acumulado com o tempo. Foi nesse ponto que a conversa ganhou outra dimensão. Sem dizer isso de forma direta, ele estava falando de algo mais amplo: a maneira como aprendemos a ler literatura — e, por extensão, a falar sobre ela — acaba interferindo naquilo que conseguimos escrever.


Há uma ironia persistente na história das ideias: quanto mais uma cultura se convence de sua própria lucidez, mais ela se mostra incapaz de reconhecer os limites do que pode compreender. No caso da literatura, essa ironia assume a forma de um zelo quase missionário. Nunca se falou tanto em responsabilidade, em consciência, em compromisso — e, no entanto, raramente a imaginação foi tratada com tamanha desconfiança. O que se apresenta como cuidado é, muitas vezes, apenas uma versão refinada de um velho impulso: domesticar aquilo que resiste à domesticação.
A tentativa de submeter a literatura a critérios exteriores não é uma inovação do presente. Ela reaparece com regularidade, como certas doutrinas políticas que, embora desacreditadas pela experiência, retornam sob novos nomes. Em cada época, há quem acredite ter descoberto o princípio capaz de ordenar o caos da criação artística. Já se exigiu da arte que servisse à religião, ao Estado, à moral pública; hoje, exige-se que ela responda a uma constelação mutável de sensibilidades e causas. A linguagem muda, mas a estrutura permanece. Trata-se sempre da mesma esperança: que a arte possa ser integrada a um sistema de fins humanos claramente definidos.

Essa esperança, contudo, repousa sobre um equívoco. A literatura não é um instrumento, ainda que possa ser usada como tal. Quando transformada em veículo de edificação moral ou de correção social, ela não se eleva — ela se dissolve. O que resta é uma forma empobrecida, previsível, cuja função principal é confirmar aquilo que já se sabia de antemão. Nesse sentido, a literatura instrumentalizada se aproxima da propaganda: ambas operam dentro de limites estritos, ambas evitam a ambiguidade, ambas oferecem respostas onde antes havia perguntas.

O aspecto mais notável desse processo é que ele raramente se apresenta como coerção. Ao contrário das censuras explícitas do passado, a forma contemporânea de controle é difusa, internalizada, frequentemente voluntária. O escritor não precisa ser silenciado; basta que aprenda a antecipar as expectativas do seu meio. Ele ajusta o tom, seleciona os temas, elimina as dissonâncias antes mesmo que elas se tornem palavras. O resultado é uma literatura que parece livre, mas que, na verdade, opera dentro de um campo estreitamente delimitado — um espaço onde quase tudo pode ser dito, desde que nada essencial seja questionado.

Não se trata, como alguns imaginam, de um conflito entre liberdade e responsabilidade. Essa oposição é enganosa. A verdadeira questão é se a literatura pode existir sem ser subordinada a finalidades que lhe são estranhas. A resposta, se olharmos para a história, é ambígua. Em certos momentos, a arte conseguiu preservar uma autonomia relativa; em outros, foi absorvida por projetos maiores, perdendo grande parte de sua força. Não há garantia de que a autonomia prevalecerá, nem razão para supor que ela seja o estado “natural” da cultura.

O que distingue o presente talvez seja a sofisticação das justificativas oferecidas para essa subordinação. Fala-se em inclusão, em justiça, em reparação — termos que, em si mesmos, não são problemáticos. O problema surge quando eles se tornam critérios normativos para a criação artística. Nesse ponto, a literatura deixa de ser um campo de exploração da experiência humana e passa a funcionar como um mecanismo de validação. Obras são avaliadas não pelo que realizam, mas pelo que representam; personagens não são julgados por sua complexidade, mas por sua conformidade com expectativas morais pré-estabelecidas.

Há, nisso, um traço familiar para quem observa a história das utopias. Assim como os projetos políticos que prometem emancipação total acabam frequentemente por impor novas formas de restrição, também o esforço de moralizar a literatura tende a reduzir seu alcance. A imaginação, quando colocada a serviço de uma finalidade fixa, perde precisamente aquilo que a torna valiosa: sua capacidade de revelar aspectos da realidade que escapam aos esquemas conceituais dominantes.

Ainda assim, seria ingênuo esperar uma reversão desse quadro. As forças que impulsionam a mistificação da literatura são profundas e persistentes. Elas derivam de uma necessidade humana de ordem, de significado, de controle — necessidades que não desaparecem com a consciência crítica. A cada geração, novas formas de regulação surgem, frequentemente mais sutis do que as anteriores, mas não menos eficazes.

Diante disso, a defesa da autonomia da literatura não deve ser confundida com um programa de reforma cultural. Não há método seguro para restaurar uma liberdade que nunca foi plenamente garantida. O que resta é uma atitude, talvez minoritária, talvez condenada à irrelevância: a recusa em reduzir a arte a um instrumento de finalidades exteriores. Não se trata de negar que a literatura possa dialogar com questões morais ou políticas, mas de reconhecer que ela não se esgota nelas.

Em última instância, a literatura que importa é aquela que não pode ser completamente assimilada pelos discursos de sua época. Ela persiste porque escapa a obrigação de ter uma função. Essa resistência — discreta, muitas vezes imperceptível — é o que a mantém viva. E é precisamente isso que os sistemas de pensamento, antigos e novos, têm maior dificuldade em tolerar.

Quando nos levantamos para ir embora, Vicente não perguntou o que eu tinha achado — o que, vindo de um jornalista, já é um comentário em si. Guardou o celular com o mesmo cuidado que havia sacado do bolso na nossa chegada e mudou de assunto, como se o texto tivesse cumprido sua função apenas por ter sido escrito.

Fiquei pensando depois que talvez o mais interessante ali não fosse o ensaio em si, mas o gesto que o originou. Em um ambiente em que quase tudo parece exigir alinhamento prévio, escrever pode se tornar uma forma discreta de desobediência. No sentido de tentar dizer algo sem antes verificar se aquilo será aceito.

Não sei se Vicente voltará a escrever com regularidade. Tampouco sei se isso importa. Há textos que existem menos para inaugurar uma fase do que para interromper um silêncio — e, às vezes, isso já é o suficiente.

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