O animal humano é, antes de tudo, um buscador de status. Quando alguém o silencia com gritos e falsas acusações, não estamos diante de um erro de comunicação, mas de um ritual de dominância. A crença na própria superioridade — seja por classe, herança ou conta bancária — é a ficção necessária que permite ao agressor suportar a própria vacuidade.
A ideia de que o intelecto é validado pelo CEP ou pelo acúmulo de capital é uma das superstições mais resilientes da modernidade. Para a elite das cidades provincianas, a inteligência não é a capacidade de contemplar o trágico, mas apenas um subproduto da ascensão social.
Eles citam nomes que não leram para sinalizar pertencimento a uma casta.
Tratam a cultura como um acessório de moda, ignorando que o conhecimento não oferece redenção, apenas clareza.
Ao confrontar o amigo de infância que o despreza por você ainda residir na casa materna, você esbarra na verdade que o humanismo tenta esconder: nós não progredimos. O "filme" que passa em sua cabeça é o reconhecimento de que as hierarquias de primatas são apenas decoradas com verniz intelectual.
Nesta perspectiva míope, a sabedoria é confundida com o sucesso material. Bourdieu e Auerbach são reduzidos a ruído de fundo, pois, para essa elite, a única verdade absoluta é o poder de calar o outro.
Essa arrogância é a característica definidora de uma classe que acredita ter escapado da lama da história, quando, na verdade, está apenas chafurdando nela com roupas mais caras. A "elite burra" é o resultado final de um mundo que substituiu a busca pela verdade pelo teatro da importância.
Essa persistência não é inocente. Ela revela algo mais profundo do que simples apego a tradições: uma incapacidade estrutural de autocrítica. Diferentemente de outras instituições — o Estado, a Igreja, o exército, até mesmo movimentos revolucionários —, a universidade jamais enfrentou seriamente a hipótese de sua própria obsolescência. Em vez disso, adotou uma estratégia mais sutil: redefinir incessantemente sua função enquanto preserva intacto o prestígio simbólico associado às suas formas passadas. O resultado é uma entidade que muda de natureza sem jamais admitir que mudou.
Essa recusa em reconhecer a descontinuidade histórica aproxima a universidade de uma religião secularizada. Como as antigas teologias, ela acumula justificativas em vez de abandoná-las. À razão contemplativa soma-se a razão de Estado; a esta, a racionalidade econômica; e, por fim, a lógica demográfica da massificação. Nenhuma dessas camadas substitui a anterior; todas coexistem, formando um sistema de legitimação que cresce por adição, não por revisão . O efeito é uma espécie de inflação moral: quanto mais a instituição se afasta de suas origens, mais enfaticamente reivindica sua grandeza.
Mas há algo mais inquietante nesse processo. A adaptabilidade da universidade não é acompanhada pela ansiedade que normalmente acompanha a mudança. Outras instituições, quando confrontadas com transformações históricas, experimentam crises de identidade; são forçadas a negociar sua sobrevivência ao preço de concessões dolorosas. A universidade, ao contrário, parece atravessar essas mesmas transformações com uma serenidade suspeita. Sua capacidade de adaptação não decorre de uma lucidez superior, mas de uma indiferença quase total à coerência entre meios e fins.
Essa indiferença manifesta-se de três maneiras. Primeiro, na imunidade do discurso de autolegitimação às mudanças reais — como se a história fosse um detalhe irrelevante diante da autoimagem institucional. Segundo, na recusa em assumir responsabilidade pelas consequências de sua atuação. Os indivíduos formados sob sua égide podem produzir tanto avanços quanto desastres, mas a instituição permanece, convenientemente, acima de qualquer juízo causal. Terceiro, na tendência a se apresentar como mero instrumento de forças externas — economia, política, cultura — evitando reconhecer-se como agente autônomo de poder.
Esse conjunto de traços sugere que a universidade moderna é uma forma particularmente sofisticada de autoengano coletivo. Sua autoridade deriva menos de realizações concretas do que da capacidade de sustentar uma ficção sobre si mesma. E, como todas as ficções bem-sucedidas, ela se torna mais persuasiva à medida que se distancia da realidade.
Talvez o aspecto mais perturbador seja que essa ficção não é imposta de fora, mas produzida internamente por aqueles que deveriam, em princípio, desmascará-la. A classe intelectual, incumbida de examinar criticamente o mundo, revela-se singularmente incapaz de examinar a si própria. Há aqui algo próximo de um ponto cego estrutural — um escotoma moral que impede a percepção das próprias contradições.
Se isso é verdade, então a universidade é um sintoma de uma crise mais ampla da modernidade: a substituição da autocrítica pela autolegitimação, da responsabilidade pela racionalização, da verdade pela narrativa conveniente. Nesse sentido, sua história não é uma exceção, mas um espelho — embora um espelho que, fiel à sua natureza, reflete apenas aquilo que deseja ver.
Se tomarmos essas duas linhas de análise em conjunto — a psicologia primitiva da busca por status e a sofisticação institucional do autoengano — o quadro que emerge é menos contraditório do que parece. A elite provinciana que transforma cultura em ornamento e a universidade que transforma sua história em mito operam segundo a mesma lógica: ambas precisam acreditar em ficções que sustentem sua posição relativa num mundo que não oferece fundamentos últimos para nenhuma hierarquia.
O que, no plano individual, aparece como arrogância — o gesto de silenciar o outro, de reduzir a inteligência à renda, de usar nomes como sinais tribais —, no plano institucional reaparece como doutrina: a recusa em revisar pressupostos, a multiplicação de justificativas, a incapacidade de admitir fracasso. Em ambos os casos, trata-se de evitar um reconhecimento mais incômodo: o de que nenhuma posição social, por elevada que seja, redime a contingência fundamental da vida humana.
A universidade, nesse sentido, não corrige as ilusões da elite; ela as formaliza. Fornece a gramática, os títulos e os rituais que permitem transformar insegurança em autoridade. E a elite, por sua vez, oferece à universidade aquilo de que ela precisa para continuar existindo: validação social, financiamento e, sobretudo, a disposição de confundir prestígio com verdade. Há aqui uma simbiose — um circuito fechado em que cada parte reforça as ilusões da outra.
É por isso que o confronto pessoal, aparentemente banal — o amigo de infância que despreza, a conversa que se degrada em demonstração de superioridade —, adquire um significado mais amplo. Ele não é um desvio, mas uma manifestação microscópica de um padrão mais geral. O que se revela ali não é só a falha de caráter de um indivíduo, mas a presença difusa de uma lógica social que recompensa a dominação simbólica e penaliza qualquer forma de lucidez que não possa ser convertida em capital.
Diante disso, a recomendação comum de “dialogar mais” ou “educar melhor” soa ingênua. Não se trata de um mal-entendido que possa ser resolvido com esclarecimento, porque o problema não é a falta de informação, mas o uso estratégico da ignorância. Para muitos, a verdade não é um valor, mas um risco — algo que pode desestabilizar a narrativa que sustenta sua identidade.
Nesse contexto, afastar-se não é um gesto de orgulho, mas de higiene intelectual. Romper com certas amizades não implica superioridade moral, mas o reconhecimento de limites: há relações que operam como dispositivos de rebaixamento contínuo, nas quais qualquer tentativa de diálogo é absorvida por uma dinâmica de poder que não busca compreensão, mas confirmação de hierarquias.
Isso não oferece consolo. O afastamento raramente conduz a uma comunidade mais autêntica ou a uma esfera de relações purificadas. O mais provável é que apenas substitua uma forma de ilusão por outra, mais discreta. Ainda assim, ele pode produzir algo mais modesto e talvez mais valioso: um espaço mínimo de lucidez, no qual a necessidade de representar um papel — seja o do bem-sucedido, seja o do intelectual reconhecido — perde, ao menos provisoriamente, sua urgência.
Num mundo em que tanto as instituições quanto os indivíduos se organizam em torno de ficções de prestígio, essa lucidez não transforma a condição humana. Mas pode torná-la, em certos momentos, um pouco menos degradante. E, dadas as alternativas, isso já é mais do que se poderia esperar.
José Fagner Alves Santos

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