Há uma superstição moderna segundo a qual a civilização progride. Ela não costuma aparecer em tratados filosóficos. Vive escondida em lugares mais discretos: nos discursos de dirigentes, nas campanhas publicitárias, nas transmissões esportivas e nas cerimônias de abertura de grandes eventos internacionais. Toda Copa do Mundo, toda Olimpíada, toda Exposição Universal renova o mesmo credo. Povos diferentes se encontram. Bandeiras convivem pacificamente. A competição substitui a guerra. O talento ocupa o lugar da força. Durante algumas semanas, acredita-se que a humanidade conseguiu domesticar a própria natureza.
O curioso é que essa esperança sempre dura menos do que o torneio.
Enquanto milhares de pessoas discutiam impedimentos, probabilidades matemáticas e arbitragens controversas, navios eram atingidos no Estreito de Ormuz. Aviões caíam. Tiros ecoavam em cidades que se acostumaram a chamar a si mesmas de desenvolvidas. Encerrado o último jogo do Irã, a guerra retomou sua rotina com a disciplina de um funcionário público que apenas aguardava o intervalo do almoço.
A ilusão desaparece rápido porque jamais passou de uma pausa psicológica.
Costumo lembrar que uma das características mais persistentes da cultura ocidental consiste em imaginar que a história possui direção. Herdamos essa expectativa do cristianismo e apenas substituímos sua linguagem religiosa por um vocabulário secular. Onde antes existia a salvação, surgiu o progresso. Onde havia providência, instalou-se a tecnologia. O Juízo Final foi trocado pela democracia liberal, pela inteligência artificial ou por qualquer outro mito conveniente ao século.
O roteiro permanece idêntico. Sempre caminhamos para algum lugar. O problema consiste em que a experiência humana jamais confirmou essa narrativa.
As guerras mudam de uniforme. Os impérios trocam de nome. Os instrumentos tornam-se mais sofisticados. A criatura que aperta o gatilho continua surpreendentemente parecida com aquela que empunhava uma lança há quatro mil anos.
A diferença está na estética da violência.
Os gregos compreendiam isso melhor do que nós. Para eles, a tragédia nunca prometia um mundo reconciliado. Ésquilo escreveu Os Persas poucos anos depois da batalha de Salamina. Em vez de celebrar a superioridade grega, ofereceu ao público ateniense um retrato da dor do inimigo. A peça constitui talvez o primeiro grande monumento literário à inutilidade da vitória. Os vencedores descobrem que também pertencem ao império do sofrimento.
Essa percepção desapareceu da política contemporânea.
Hoje preferimos imaginar que cada conflito representa a batalha definitiva entre o bem e o mal. Mudam os protagonistas; preserva-se a estrutura moral. A Guerra Fria terminou. Surgiu a Guerra ao Terror. Esta perdeu centralidade. Vieram as guerras culturais. Depois, os conflitos híbridos. Em seguida, as disputas tecnológicas. A humanidade revela extraordinária criatividade para modificar o vocabulário. Seu repertório emocional permanece quase imóvel.
O futebol oferece um laboratório fascinante dessa condição.
Poucos eventos despertam sentimentos tribais com tanta intensidade. Camisas convertem-se em identidades. Derrotas adquirem estatuto de humilhações nacionais. Vitórias parecem corrigir injustiças históricas. Benedict Anderson observou que as nações são comunidades imaginadas. Durante uma Copa do Mundo, essa imaginação alcança seu estado mais puro. Milhões de indivíduos que jamais se encontrarão experimentam uma emoção comum diante da mesma tela.
Nada disso é falso.
Também não significa que o nacionalismo desapareça sob a fraternidade esportiva. Costuma acontecer justamente o contrário.
Carl Schmitt talvez enxergasse nesse espetáculo uma confirmação de sua velha tese sobre o político. A distinção entre amigo e inimigo não precisa de campos de batalha para existir. Basta que uma coletividade reconheça outra como adversária. O estádio fornece símbolos suficientes para alimentar essa necessidade ancestral.
Durante algumas semanas, a rivalidade parece inocente. Logo depois, ela reencontra seus instrumentos tradicionais. A situação do Irã torna essa dinâmica especialmente eloquente. Uma seleção nacional transforma-se, de repente, em extensão simbólica de um país sob ataque. Cada defesa do goleiro deixa de ser somente uma defesa. Cada gol anulado passa a carregar significados que escapam completamente ao regulamento esportivo. O impedimento pertence à narrativa nacional.
Pouco importa se houve erro humano, coincidência estatística ou manipulação.
As sociedades vivem de interpretações muito mais do que de fatos.
René Girard compreendeu isso quando descreveu a lógica sacrificial das comunidades humanas. Grupos inteiros organizam sua identidade mediante histórias compartilhadas sobre culpa, perseguição e redenção. A verdade objetiva ocupa papel secundário. Importa que o enredo seja capaz de produzir coesão.
Os iranianos talvez retornem para casa como heróis derrotados. Heróis derrotados costumam ser politicamente mais úteis do que vencedores. Roma conhecia esse mecanismo.
Também o conheciam os hebreus após a destruição do Segundo Templo. A Sérvia conheceu-o depois da batalha de Kosovo.
Cada civilização produz sua coleção de derrotas gloriosas.
A memória nacional raramente distingue entre aquilo que aconteceu e aquilo que precisava ter acontecido para sustentar determinada identidade coletiva.
Essa constatação incomoda porque desmonta uma das crenças favoritas do nosso tempo: a de que mais informação produzirá cidadãos mais racionais.
Nunca tivemos tantos dados. Jamais estivemos tão cercados por narrativas concorrentes. A abundância informacional não reduziu o conflito. Mas multiplicou suas versões.
Thomas Hobbes talvez sorrisse diante desse espetáculo. O filósofo inglês jamais acreditou que os homens fossem naturalmente inclinados à cooperação universal. A paz, para ele, exigia instituições suficientemente fortes para conter impulsos permanentes. Removido esse equilíbrio, retornava aquilo que sempre esteve presente.
A guerra. Meu ceticismo nasce justamente da recusa em tratar a violência como acidente histórico. Ela constitui um componente estrutural da espécie. Esperar sua eliminação equivale a esperar que os leopardos abandonem espontaneamente a caça por reconhecerem o sofrimento das gazelas.
A metáfora parece cruel. A história costuma ser mais cruel do que as metáforas.
Existe uma passagem pouco comentada de Freud em O mal-estar na civilização. Ali, ele descreve o ser humano como criatura incapaz de amar o próximo de forma espontânea. A agressividade antecede a fraternidade. A cultura só administra essa energia destrutiva sem jamais suprimi-la.
Talvez por isso as cerimônias esportivas exerçam tamanho fascínio.
Durante algumas horas, conseguimos acreditar que o antagonismo encontrou uma forma elegante de expressão. Os hinos substituem as marchas militares. As arquibancadas ocupam o lugar das trincheiras. O árbitro parece mais civilizado que o general.
Terminada a partida, os generais continuam existindo. Os árbitros voltam para casa. O restante pertence ao velho enredo humano.
Há quem veja nisso motivo para desespero.
O abandono das ilusões frequentemente representa um ganho intelectual. A esperança compulsória costuma produzir mais fanáticos do que a lucidez. Os grandes projetos de redenção nasceram quase sempre da convicção de que finalmente compreendemos o sentido da história. O século XX forneceu um catálogo suficientemente amplo de seus resultados.
Talvez a maturidade política comece justamente quando deixamos de esperar que algum evento — uma eleição, uma tecnologia revolucionária, um tratado internacional ou mesmo uma Copa do Mundo — transforme a condição humana.
Os acontecimentos importam. Os homens permanecem. O verão termina. O campeonato acaba. Os estádios esvaziam-se. Os drones substituem os refletores. Os mapas voltam às manchetes. Algum cronista escreverá sobre heroísmo. Algum estrategista falará em segurança nacional. Algum dirigente prometerá paz duradoura.
A história ouvirá tudo com a paciência de quem já escutou esse discurso milhares de vezes. Ela conhece um segredo que a modernidade insiste em esquecer. Os homens raramente interrompem a guerra. Costumam apenas marcar um jogo antes de retomá-la.

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