No fim da tarde deste domingo, acompanhei meu amigo Adenilson até a casa de José Luiz Fernandes. Estamos reunindo depoimentos para um documentário sobre Rogério Ferrari, desenvolvido pelo Centro de Estudos Euclides Neto. Adenilson fez a gentileza de construir essa primeira aproximação. Eu fiz aquilo que costuma acontecer quando encontro alguém generoso e disposto a conversar: ocupei um pedaço precioso do seu domingo.
Enquanto a luz ia se dissolvendo sobre a cidade, Zé Luiz recordava pessoas, lugares e acontecimentos, demonstrando uma memória amadurecida e calibrada pela vivência. Em determinado momento, a conversa tomou um rumo inesperado. Descobri que ele escreve contos.
Perguntei se já pensara em publicá-los.
Veio um sorriso discreto, seguido daquele gesto que conheço desde os tempos em que comecei a dar aula de escrita. O autor olha para o próprio trabalho com uma reserva quase constrangida. Sempre acredita que ainda falta alguma coisa. Mais uma leitura. Mais uma revisão. Mais alguns meses de amadurecimento.
Saí dali pensando menos no documentário e mais nessa hesitação.
Ao longo dos anos, percebi que uma parcela significativa dos textos permanece inédita por razões muito diferentes da falta de talento. A literatura está cheia de livros que jamais chegaram ao leitor porque seus autores permaneceram estacionados diante da própria exigência. O manuscrito envelhece na gaveta enquanto o escritor espera alcançar uma perfeição cuja natureza sequer consegue definir.
A imagem do escritor perfeccionista exerce um fascínio antigo. Parte dela foi construída pela figura de Gustave Flaubert, cuja busca obsessiva pelo mot juste atravessou gerações como uma espécie de mandamento estético. A anedota do autor que passava dias perseguindo uma única frase transformou-se em paradigma de excelência literária. O curioso é que muitos escritores herdaram o ritual sem herdar a obra. Apropriaram-se da obsessão e esqueceram que Flaubert terminava os livros.
Pierre Bourdieu observa, em As regras da arte, que toda prática cultural desenvolve mecanismos próprios de legitimação. A literatura também construiu os seus. O sofrimento da escrita passou a funcionar como uma credencial simbólica. Quanto maior o tormento, maior pareceria o compromisso com a arte. A consequência dessa lógica aparece com frequência nas oficinas literárias: autores convencidos de que interromper continuamente o fluxo da escrita representa uma demonstração de rigor intelectual.
Talvez a questão pertença ao campo da temporalidade.
Todo texto atravessa fases distintas. Confundi-las produz um efeito semelhante ao do jardineiro que resolve podar uma árvore antes do surgimento dos primeiros galhos. A poda possui sua sabedoria. A semente também.
A escrita nasce num terreno muito próximo daquele que Donald Winnicott descreve como espaço potencial. Antes da forma definitiva, existe uma região intermediária onde a imaginação experimenta possibilidades, estabelece associações improváveis, testa ritmos, cria imagens cuja utilidade só se revelará páginas adiante. Exigir acabamento nessa etapa equivale a interromper um processo cuja riqueza depende justamente da liberdade de experimentar.
Roland Barthes escreveu que o texto constitui um tecido. A metáfora costuma receber pouca atenção. Um tecido jamais aparece pronto. Cada fio encontra outro, cruza caminhos, produz tensões, ganha espessura. Quem observa apenas o resultado esquece o trabalho paciente do entrelaçamento. Com a literatura acontece algo semelhante. O leitor encontra um texto aparentemente contínuo. O escritor conviveu com uma sucessão de aproximações, desvios, cortes e recomposições.
Talvez por isso tantas pessoas alimentem expectativas irreais sobre o próprio processo criativo. O romance chega às livrarias como objeto concluído. A oficina desaparece sob a elegância da versão final. Permanecem invisíveis as páginas descartadas, os capítulos reescritos, as imagens sacrificadas durante a revisão. A aparência de espontaneidade costuma ser fruto de um enorme esforço de depuração.
Antonio Candido lembrava que a forma literária organiza a experiência humana. A observação possui implicações profundas para quem escreve. A organização vem depois da experiência. Primeiro existe a matéria dispersa da percepção. Em seguida, o trabalho paciente de conferir ordem ao que parecia fragmento. Esperar que o pensamento já surja perfeitamente estruturado significa atribuir à consciência uma capacidade que ela simplesmente não possui.
Essa talvez seja uma das maiores ilusões da escrita.
O pensamento amadurece enquanto encontra linguagem.
Mikhail Bakhtin insistia que toda palavra responde a palavras anteriores e prepara respostas futuras. O texto constitui um processo dialógico desde o instante em que começa a existir. Escrever significa conversar com leituras antigas, memórias, vozes familiares, referências culturais e experiências pessoais. Essa conversa produz desvios, hesitações e descobertas. Cada parágrafo amplia o horizonte do seguinte. Muitas vezes a conclusão esclarece aquilo que permanecia obscuro na abertura. A lógica da escrita segue um movimento de descoberta muito mais do que de execução.
Durante anos ouvi alunos pedindo desculpas antes mesmo de entregar um texto. O pedido quase sempre vinha acompanhado de uma justificativa: "Ainda está cru."
A palavra sempre me chamou atenção.
Cru.
Existe enorme sabedoria escondida nessa escolha vocabular. Aquilo que está cru pede fogo, tempo e transformação. Ninguém espera encontrar sabor definitivo nos ingredientes espalhados sobre a bancada da cozinha. O cozinheiro compreende intuitivamente que a receita atravessa estágios. O escritor, por razões difíceis de explicar, costuma desejar que sua primeira versão já carregue o refinamento de uma obra publicada.
Um manuscrito funciona como matéria-prima. A escrita crítica entra em cena quando essa matéria já possui alguma consistência. A partir daí, cada leitura revela excessos, identifica repetições, elimina passagens ornamentais, aproxima o texto de sua verdadeira necessidade expressiva. Ítalo Calvino observava que a leveza literária nasce de um longo processo de subtração. O peso costuma aparecer primeiro.
A revisão representa um exercício de desapego.
Cada corte exige do autor a capacidade de abandonar frases pelas quais desenvolveu certo afeto. A experiência ensina que algumas das melhores páginas surgem justamente depois das exclusões mais dolorosas. Ricardo Piglia dizia que escrever consiste em contar uma história enquanto outra permanece escondida sob a superfície. A revisão ajuda o escritor a descobrir qual delas realmente merece permanecer.
Percebo, às vezes, um orgulho curioso entre escritores. Alguns exibem velocidade como certificado de talento. Outros transformam a lentidão em demonstração de profundidade intelectual. As duas posturas pertencem mais ao campo da vaidade do que ao da literatura. Cada texto estabelece seu próprio ritmo. Alguns atravessam o autor como uma enxurrada. Outros avançam lentamente, exigindo meses de convivência. A qualidade costuma surgir da relação entre invenção e lapidação, jamais da duração do processo.
Voltei da casa de José Luiz pensando em quantas histórias continuam esperando pelo momento em que seus autores lhes concedam existência pública. Cada manuscrito guardado carrega um pequeno conflito entre o desejo de comunicar e o receio do julgamento. A literatura brasileira talvez esconda uma biblioteca inteira composta por livros que jamais ultrapassaram a porta de uma gaveta.
José Luiz talvez publique seus contos. Talvez espere mais algum tempo. A decisão pertence exclusivamente a ele. A conversa daquele fim de tarde, contudo, trouxe de volta uma convicção que me acompanha desde os primeiros anos como professor.
A escrita pede coragem em dois momentos distintos.
Primeiro, quando o autor aceita caminhar por um território onde as ideias ainda procuram sua forma.
Depois, quando retorna ao texto com a serenidade de quem compreende que toda grande literatura nasce da paciência silenciosa de quem aprende a ouvir aquilo que o próprio texto começou a dizer.
É só aí que a escrita deixa de ser um impulso individual para se transformar em literatura.
You'll Love These
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Postar um comentário