A nostalgia nunca será saciada


A recente tentativa de ressuscitar He-Man para uma nova geração lembra um fenômeno que se repete com frequência na história da cultura. Personagens, mitos e narrativas que parecem pertencer a uma época específica acabam retornando décadas depois. O entretenimento moderno costuma apresentar esse movimento como renovação. Na prática, trata-se de algo bastante antigo. As sociedades raramente abandonam completamente os símbolos que ajudaram a formar sua imaginação coletiva.

He-Man surgiu durante os anos 1980, um período em que a televisão infantil ocupava um espaço muito diferente daquele que possui atualmente. O personagemvfazia parte de um ambiente composto por brinquedos, revistas, propagandas e conversas escolares. Muitas das pessoas que hoje acompanham novas adaptações tiveram contato com esse universo quando eram crianças. A memória da franquia foi construída ao longo desse convívio prolongado.

Costuma-se afirmar que esse interesse persistente resulta da nostalgia. A explicação é plausível, embora talvez não seja suficiente. A nostalgia frequentemente aparece como um sentimento ligado ao passado. Sua permanência sugere algo mais complexo. O ser humano parece possuir uma dificuldade crônica em aceitar a transitoriedade das coisas. Objetos, lugares e personagens acabam adquirindo um valor que ultrapassa sua função original porque oferecem uma sensação de continuidade em um mundo marcado pela mudança.

Os antigos gregos já conheciam esse impulso. Seus poemas preservavam heróis de uma era que jamais poderia ser recuperada. Séculos depois, leitores continuavam retornando a essas histórias. O mecanismo, na modernidade, mudou de forma. Em vez de Aquiles ou Ulisses, parte do público contemporâneo retorna a personagens criados pela indústria do entretenimento. A tecnologia mudou. Certos hábitos mentais permaneceram surpreendentemente estáveis.

A indústria cultural compreendeu essa disposição humana e aprendeu a utilizá-la. Não há motivo para imaginar uma conspiração ou uma estratégia particularmente sofisticada. Empresas tendem a explorar aquilo que desperta interesse. Quando personagens conhecidos continuam atraindo atenção décadas após sua criação, torna-se natural que sejam reutilizados. O mercado responde a uma demanda que antecede o próprio mercado.

Também existe uma tendência frequente de idealizar a infância quando se fala sobre nostalgia. A memória costuma operar por seleção. Alguns episódios permanecem vivos; outros desaparecem sem deixar vestígios. O resultado é uma imagem parcial do passado. Poucas pessoas sentem saudade das limitações, dos medos ou das frustrações que experimentaram quando eram crianças. Certos objetos culturais sobrevivem porque acabam associados às lembranças mais agradáveis daquele período.

O retorno de franquias como Masters of the Universe sugere que o passado continua exercendo uma atração considerável sobre sociedades que costumam celebrar a novidade. Talvez exista uma ironia nesse comportamento. Nunca houve uma época tão dedicada à inovação tecnológica. Ao mesmo tempo, grande parte da produção cultural depende de personagens criados há quarenta ou cinquenta anos. O fascínio pelo novo convive sem dificuldade com a constante revisitação do antigo.

He-Man provavelmente continuará reaparecendo em diferentes formatos, assim como muitos outros personagens de sua geração. Não significa que representem obras insuperáveis ou porque possuam alguma importância histórica excepcional. A memória humana raramente funciona segundo critérios tão rigorosos. Ela preserva certos símbolos, abandona outros e cria vínculos cuja lógica nem sempre é evidente. A longevidade dessas figuras talvez revele menos sobre elas próprias do que sobre uma característica persistente da condição humana: a dificuldade de deixar o passado ocupar apenas o lugar que lhe pertence.

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