Ainda falando sobre o meu amigo Vicente Andrade, há assuntos que são recorrentes em nossas conversas. Por exemplo: existe algumas crenças que são quase lendas urbanas. A gente não sabe de onde surgiu, nem qual a procedência desse "conhecimento". Vicente costuma adotar essas máximas ideológicas como suas. Eu sou o cara que costuma ser "do contra". A maior parte dessas questões não faz sentido para mim. Tomemos umas dessas crenças para analisar mais detidamente. Falemos hoje da ideia de que os seres humanos governam a própria história por meio de ideias. Mudamos nossas convicções, reformamos nossas instituições, aperfeiçoamos nosso conhecimento, e então a sociedade segue adiante, mais esclarecida do que antes. Nessa narrativa, os argumentos são os motores da mudança e a consciência humana ocupa o posto de comando.
Mas talvez seja o contrário.
Talvez as transformações decisivas da vida humana não ocorram quando aceitamos uma nova teoria ou abandonamos um velho preconceito. Talvez ocorram quando passamos a habitar um novo ambiente técnico. Nesse caso, as ideias chegam depois, como jornalistas atrasados tentando explicar uma revolução que já aconteceu.
A tecnologia não discute. Não persuade. Não refuta. Ela remodela de modo muito gradativo, a partir da sua imersão.
Os filósofos costumam imaginar que os seres humanos vivem em universos conceituais. Na maior parte do tempo, porém, vivemos em habitats. E os habitats moldam nossos hábitos, nossos sentidos, nossos desejos e até mesmo aquilo que consideramos verdadeiro. Um animal que vive no oceano desenvolve certas capacidades; outro, que vive no deserto, desenvolve outras. Os seres humanos não são diferentes. Apenas construímos os ambientes aos quais depois nos adaptamos.
É como o homem branco que mora no centro da cidade e procura sinais de pobreza nas fotografias que as moças postam no Instagram. Há uma parede sem reboco? Um telhado de Eternit? Isso pode indicar que, por causa de sua vulnerabilidade econômica, talvez ela ofereça menos resistência. É um raciocínio típico de um aproveitador, mas, ainda assim, assustadoramente recorrente.
Esses mesmos indivíduos se classificam como pessoas progressistas, preocupadas com a desigualdade social e empenhadas em fazer parte da mudança.
A ironia é que quase sempre confundimos adaptação com escolha.
Durante séculos, o Ocidente tomou certas características humanas como se fossem permanentes. A atenção prolongada. A introspecção. A capacidade de seguir uma cadeia de raciocínio. A distinção entre o mundo infantil e o mundo adulto. Tudo isso parecia tão natural quanto a gravidade.
Nada poderia estar mais longe da verdade.
A infância, tal como a concebemos, é uma instituição histórica relativamente recente. Porque a ideia de que elas, as crianças, deveriam ocupar um domínio separado da vida adulta exigia determinadas condições materiais. Entre elas, uma cultura baseada na palavra impressa.
O livro foi uma tecnologia de formação psicológica.
Ler exige silêncio. Exige demora. Exige que os olhos avancem em sequência e que a mente acompanhe esse movimento. A leitura cria um tipo específico de consciência: linear, reflexiva, capaz de suportar ambiguidades e retardar gratificações. Ela treina uma disposição mental que, posteriormente, passamos a chamar de racionalidade.
É comum imaginar que a razão produziu a cultura do livro. Em muitos aspectos, foi o livro que produziu a razão.
As sociedades letradas criaram escolas para formar leitores. As escolas criaram estágios de desenvolvimento. Esses estágios ajudaram a consolidar a ideia de infância. A criança tornou-se alguém que ainda não estava pronta para certos conhecimentos e experiências. Entre ela e o mundo adulto ergueu-se uma fronteira.
Essa fronteira nunca foi perfeita. Mas existia.
A televisão começou a dissolvê-la. A internet acelerou o processo. As redes digitais quase a eliminaram.
Hoje, uma criança pode ter acesso instantâneo a imagens de guerra, pornografia, humilhação pública, desastres financeiros, patologias psicológicas e conflitos políticos que, durante séculos, permaneceram reservados aos adultos. Tudo isso porque a arquitetura tecnológica tornou impossível sustentar as antigas barreiras.
Nenhum manifesto foi escrito. Nenhuma revolução foi proclamada.
A infância está desaparecendo da mesma maneira que as geleiras desaparecem: por alteração das condições ambientais.
O aspecto mais intrigante dessa transformação é que ela não atinge apenas as crianças.
Os adultos também estão se tornando outra coisa.
A cultura impressa criou, igualmente, um ideal de maturidade baseado no autocontrole cognitivo. O adulto era aquele capaz de concentrar-se, refletir, distinguir o essencial do acessório e organizar a experiência em narrativas coerentes.
Esse ideal sempre foi imperfeitamente realizado. Ainda assim, funcionava como horizonte.
As tecnologias digitais operam segundo princípios opostos. Sua lógica é a interrupção, a circulação, o estímulo.
Você pode dizer que o resultado é uma população menos inteligente. Mas inteligência e atenção não são a mesma coisa. O resultado é algo mais sutil: uma alteração dos modos pelos quais a inteligência é exercida.
Uma mente habituada a fluxos incessantes de informação pode adquirir enorme agilidade sem desenvolver profundidade. Pode reconhecer padrões rapidamente sem conseguir habitá-los por muito tempo. Pode acumular conhecimento enquanto perde a capacidade de transformá-lo em sabedoria.
A modernidade frequentemente descreveu a história como uma marcha em direção ao triunfo da razão. Mas essa descrição talvez tenha confundido um episódio particular da civilização ocidental com uma tendência universal da espécie humana.
A razão, ao contrário do que queremos acreditar, não é o estado natural do homem.
Ela é uma conquista frágil.
Como a infância, depende de ecologias específicas. Depende de instituições, tecnologias, ritmos de vida e práticas culturais que a sustentem. Quando essas condições desaparecem, a infância simplesmente perde seu habitat.
Os seres humanos continuarão argumentando, publicando pesquisas, defendendo ideologias e elaborando teorias sofisticadas. No entanto, isso não significa que a racionalidade esteja se fortalecendo. Uma sociedade pode produzir quantidades sem precedentes de informação e, ao mesmo tempo, tornar-se incapaz de atenção sustentada.
Talvez esse seja o paradoxo central de nossa época.
Nunca dispusemos de tanto conhecimento sobre o mundo. Nunca estivemos tão cercados por instrumentos capazes de ampliar nossas capacidades mentais. E, ainda assim, algumas das condições que tornaram possível o pensamento reflexivo estão sendo silenciosamente corroídas.
Não há motivo para nostalgia. Nenhuma idade de ouro espera ser recuperada. A infância protegida foi um privilégio de certos tempos e lugares, não uma constante da condição humana. Tampouco existe razão para imaginar que as tecnologias digitais possam ser abandonadas.
Mas há motivo para lucidez.
A questão decisiva não é se a tecnologia é boa ou má. Essa é uma pergunta infantil. A questão é outra: que tipo de ser humano cada tecnologia tende a produzir?
Toda civilização responde a essa pergunta antes mesmo de formulá-la. Responde com suas máquinas, suas rotinas e suas formas de atenção.
As respostas que estamos produzindo agora talvez indiquem que a infância não é a única coisa em desaparecimento. Ao lado dela, quase imperceptivelmente, pode estar se extinguindo uma certa ideia de maturidade — e, com ela, uma certa forma de razão que durante alguns séculos acreditamos ser o destino natural da humanidade.
A ironia é que quase sempre confundimos adaptação com escolha.
Durante séculos, o Ocidente tomou certas características humanas como se fossem permanentes. A atenção prolongada. A introspecção. A capacidade de seguir uma cadeia de raciocínio. A distinção entre o mundo infantil e o mundo adulto. Tudo isso parecia tão natural quanto a gravidade.
Nada poderia estar mais longe da verdade.
A infância, tal como a concebemos, é uma instituição histórica relativamente recente. Porque a ideia de que elas, as crianças, deveriam ocupar um domínio separado da vida adulta exigia determinadas condições materiais. Entre elas, uma cultura baseada na palavra impressa.
O livro foi uma tecnologia de formação psicológica.
Ler exige silêncio. Exige demora. Exige que os olhos avancem em sequência e que a mente acompanhe esse movimento. A leitura cria um tipo específico de consciência: linear, reflexiva, capaz de suportar ambiguidades e retardar gratificações. Ela treina uma disposição mental que, posteriormente, passamos a chamar de racionalidade.
É comum imaginar que a razão produziu a cultura do livro. Em muitos aspectos, foi o livro que produziu a razão.
As sociedades letradas criaram escolas para formar leitores. As escolas criaram estágios de desenvolvimento. Esses estágios ajudaram a consolidar a ideia de infância. A criança tornou-se alguém que ainda não estava pronta para certos conhecimentos e experiências. Entre ela e o mundo adulto ergueu-se uma fronteira.
Essa fronteira nunca foi perfeita. Mas existia.
A televisão começou a dissolvê-la. A internet acelerou o processo. As redes digitais quase a eliminaram.
Hoje, uma criança pode ter acesso instantâneo a imagens de guerra, pornografia, humilhação pública, desastres financeiros, patologias psicológicas e conflitos políticos que, durante séculos, permaneceram reservados aos adultos. Tudo isso porque a arquitetura tecnológica tornou impossível sustentar as antigas barreiras.
Nenhum manifesto foi escrito. Nenhuma revolução foi proclamada.
A infância está desaparecendo da mesma maneira que as geleiras desaparecem: por alteração das condições ambientais.
O aspecto mais intrigante dessa transformação é que ela não atinge apenas as crianças.
Os adultos também estão se tornando outra coisa.
A cultura impressa criou, igualmente, um ideal de maturidade baseado no autocontrole cognitivo. O adulto era aquele capaz de concentrar-se, refletir, distinguir o essencial do acessório e organizar a experiência em narrativas coerentes.
Esse ideal sempre foi imperfeitamente realizado. Ainda assim, funcionava como horizonte.
As tecnologias digitais operam segundo princípios opostos. Sua lógica é a interrupção, a circulação, o estímulo.
Você pode dizer que o resultado é uma população menos inteligente. Mas inteligência e atenção não são a mesma coisa. O resultado é algo mais sutil: uma alteração dos modos pelos quais a inteligência é exercida.
Uma mente habituada a fluxos incessantes de informação pode adquirir enorme agilidade sem desenvolver profundidade. Pode reconhecer padrões rapidamente sem conseguir habitá-los por muito tempo. Pode acumular conhecimento enquanto perde a capacidade de transformá-lo em sabedoria.
A modernidade frequentemente descreveu a história como uma marcha em direção ao triunfo da razão. Mas essa descrição talvez tenha confundido um episódio particular da civilização ocidental com uma tendência universal da espécie humana.
A razão, ao contrário do que queremos acreditar, não é o estado natural do homem.
Ela é uma conquista frágil.
Como a infância, depende de ecologias específicas. Depende de instituições, tecnologias, ritmos de vida e práticas culturais que a sustentem. Quando essas condições desaparecem, a infância simplesmente perde seu habitat.
Os seres humanos continuarão argumentando, publicando pesquisas, defendendo ideologias e elaborando teorias sofisticadas. No entanto, isso não significa que a racionalidade esteja se fortalecendo. Uma sociedade pode produzir quantidades sem precedentes de informação e, ao mesmo tempo, tornar-se incapaz de atenção sustentada.
Talvez esse seja o paradoxo central de nossa época.
Nunca dispusemos de tanto conhecimento sobre o mundo. Nunca estivemos tão cercados por instrumentos capazes de ampliar nossas capacidades mentais. E, ainda assim, algumas das condições que tornaram possível o pensamento reflexivo estão sendo silenciosamente corroídas.
Não há motivo para nostalgia. Nenhuma idade de ouro espera ser recuperada. A infância protegida foi um privilégio de certos tempos e lugares, não uma constante da condição humana. Tampouco existe razão para imaginar que as tecnologias digitais possam ser abandonadas.
Mas há motivo para lucidez.
A questão decisiva não é se a tecnologia é boa ou má. Essa é uma pergunta infantil. A questão é outra: que tipo de ser humano cada tecnologia tende a produzir?
Toda civilização responde a essa pergunta antes mesmo de formulá-la. Responde com suas máquinas, suas rotinas e suas formas de atenção.
As respostas que estamos produzindo agora talvez indiquem que a infância não é a única coisa em desaparecimento. Ao lado dela, quase imperceptivelmente, pode estar se extinguindo uma certa ideia de maturidade — e, com ela, uma certa forma de razão que durante alguns séculos acreditamos ser o destino natural da humanidade.

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