As mãos invisíveis do mérito

Uma conversa sobre Tolstói e Elena Ferrante revela por que Pierre Bourdieu continua indispensável para compreender que inteligência, esforço e talento jamais atuam isoladamente: são as redes de sociabilidade e os diferentes capitais acumulados ao longo da vida que delimitam o horizonte do possível.



Mais cedo, eu estava em ligação com Vicente e Rafael. A conversa começou em Tolstói e terminou em Bourdieu. Falávamos das semelhanças argumentativas entre Guerra e Paz, de Liev Tolstói, e A Amiga Genial, de Elena Ferrante. Em ambos os romances, por trás das trajetórias individuais, existe uma força silenciosa que determina os limites do possível: as relações sociais. Não importa o quanto um personagem seja inteligente, disciplinado ou talentoso; suas possibilidades são continuamente moldadas pelas pessoas que conhece, pelos ambientes que frequenta e pelo lugar que ocupa na estrutura social.

Era justamente isso que eu tentava explicar a Vicente pela enésima vez.

Insisti que existe uma diferença profunda entre alguém negro e pobre, sem amigos importantes, e uma pessoa que nasceu e cresceu no centro da cidade, cercada de médicos, empresários, professores universitários, políticos, jornalistas e comerciantes influentes. Trata-se da distribuição desigual das oportunidades.

Citei o próprio Vicente como exemplo. Todas as pessoas da elite cultural ipiauense que ele insiste em confrontar só sabem da existência dele por causa da posição que hoje ocupa. Se ele não estivesse nesse lugar institucional, provavelmente jamais teria sido percebido por elas.

Ele rebateu imediatamente.

— Mas você é da periferia e convive com essas mesmas pessoas.

Expliquei o óbvio.

Meu contato com elas existe apenas porque ocupo, ainda que temporariamente, a posição de professor substituto da Universidade do Estado da Bahia. Não frequentei suas casas quando criança. Não estudei nas mesmas escolas. Não fui apresentado aos seus filhos. Não participei de seus círculos de amizade. A universidade funcionou como uma espécie de passaporte social que tornou possível uma convivência antes improvável.

— Mas você teve que lutar para chegar onde chegou — insistiu.

Mais uma vez precisei dizer que, sem as redes de sociabilidade construídas ao longo do caminho, de nada adiantariam meus olhos castanhos, um suposto intelecto desenvolvido ou qualquer habilidade que eu eventualmente possua.

Mas nossa discordância era menos moral que sociológica.

Durante séculos, consolidou-se uma narrativa extremamente sedutora segundo a qual indivíduos triunfam exclusivamente graças ao talento, ao esforço ou à inteligência. Essa história é confortável porque transforma as desigualdades em responsabilidades individuais. Quem venceu merece aplausos; quem fracassou teria simplesmente trabalhado menos.

Pierre Bourdieu passou boa parte de sua obra demonstrando que essa narrativa é insuficiente.

Sem negar a importância do esforço individual, o sociólogo francês mostrou que pessoas não disputam a vida partindo do mesmo ponto. Antes mesmo do nascimento, cada indivíduo recebe uma herança invisível composta por diferentes formas de capital. E essas formas de riqueza são muito mais amplas do que dinheiro.

O capital econômico é o mais evidente. É a renda da família, os imóveis, a estabilidade financeira, a possibilidade de estudar sem precisar trabalhar, viajar, aprender idiomas ou dedicar anos exclusivamente à formação intelectual.

Mas frequentemente o capital econômico opera apenas como base para outras formas de vantagem.

Existe o capital cultural. Ele aparece tanto na forma de diplomas quanto na familiaridade com livros, museus, concertos, repertórios artísticos, maneiras de falar e até mesmo na segurança com que alguém ocupa determinados ambientes. Uma criança criada em uma casa repleta de livros, onde os pais discutem política durante o jantar e conhecem professores universitários pelo primeiro nome, incorpora desde cedo um conjunto de disposições que parecem naturais, mas são profundamente sociais.

É o que Bourdieu chama de habitus: um sistema de percepções, gostos, gestos e expectativas sedimentado pela experiência cotidiana. O habitus faz com que algumas pessoas se sintam perfeitamente à vontade diante de um reitor, de um juiz ou de um editor, enquanto outras experimentam a sensação permanente de estarem ocupando um espaço que não lhes pertence.

Ainda mais decisivo é o capital social.

Ele consiste na rede de relações que um indivíduo consegue mobilizar. É conhecer pessoas capazes de abrir portas.

Um telefonema que garante uma entrevista de emprego. Uma indicação para uma bolsa de pesquisa. Um convite para integrar determinado grupo. Uma apresentação feita no momento certo. Um advogado que atende gratuitamente. Um jornalista disposto a divulgar um trabalho. Um professor que escreve uma carta de recomendação.

São recursos que dificilmente aparecem nos currículos, mas frequentemente explicam por que trajetórias aparentemente semelhantes produzem resultados completamente distintos.

O capital social multiplica os demais capitais. Um diploma vale mais quando alguém importante o reconhece. Um talento artístico floresce com mais facilidade quando encontra quem o financie. Uma pesquisa acadêmica circula mais rapidamente quando existe uma rede disposta a legitimá-la.

Essa legitimação conduz ao capital simbólico.

Prestígio, reputação, reconhecimento, autoridade. É a forma de capital que faz certas palavras parecerem naturalmente mais importantes do que outras. Quando uma pessoa reconhecida fala, suas ideias tendem a ser consideradas relevantes antes mesmo de serem examinadas. Quando alguém desconhecido apresenta exatamente o mesmo argumento, frequentemente precisa demonstrar sua competência inúmeras vezes antes de ser ouvido.

O curioso é que o capital simbólico costuma esconder as demais formas de capital que o produziram. A sociedade prefere acreditar que prestígio decorre exclusivamente de mérito. Poucos observam o longo investimento econômico, cultural e social que tornou aquele reconhecimento possível.

É por isso que Bourdieu talvez tenha sido um dos maiores críticos da ideologia meritocrática. Não acreditava que esforço fosse inútil, mas entendia que esforço nunca atua sozinho. Duas pessoas podem correr exatamente a mesma distância. A diferença é que uma começou cem metros à frente. Outra iniciou a prova descalça. Uma terceira precisou carregar peso nas costas. Comparar apenas a linha de chegada significa ignorar toda a estrutura da corrida.

Foi exatamente isso que Tolstói compreendeu ao narrar as famílias aristocráticas russas. Seus personagens parecem mover a história, mas são continuamente movidos pelas alianças familiares, pelos casamentos, pelos patrimônios, pelos títulos e pelos círculos sociais dos quais fazem parte.

Ferrante produz efeito semelhante em Nápoles. Elena e Lila são extraordinariamente inteligentes. Contudo, a inteligência jamais basta. A escola depende de dinheiro. O dinheiro depende da família. A família depende do bairro. O bairro depende das relações de poder. Cada conquista individual permanece permanentemente atravessada pela estrutura social.

Nenhuma das duas obras elimina a responsabilidade pessoal. Mas ambas recusam a fantasia liberal segundo a qual indivíduos escrevem suas histórias completamente sozinhos.

Quando terminei essa explicação, houve alguns segundos de silêncio na ligação.

Rafael permaneceu ouvindo. Vicente também. Por mais que Rafael pudesse não concordar comigo num ponto ou noutro, no geral ele pensa como eu. Vicente disse entender, mas acho que só queria encerrar o assunto. 


As convicções mais profundas raramente cedem em uma única conversa. Elas se desgastam lentamente, como pedras sob a força constante da água.

Desliguei pensando que talvez o maior triunfo das desigualdades  seja produzir a ilusão de que privilégios não existem.

Quando alguém acredita que venceu apenas por mérito, torna-se incapaz de enxergar todas as mãos que o sustentaram antes mesmo do primeiro passo. E quando alguém atribui exclusivamente aos próprios defeitos os fracassos que experimenta, passa a carregar sozinho o peso de uma estrutura inteira.

Essa é uma das muitas lições compartilhada por Tolstói, Ferrante e Bourdieu: somos aquilo que os outros tornaram possível que fizéssemos. Reconhecer isso não diminui o valor do esforço. Ao contrário. Humaniza-o.

Porque compreender o papel das redes de sociabilidade não serve para negar as conquistas individuais, mas para lembrar que nenhuma inteligência floresce no vazio, nenhum talento cresce sem terreno e nenhuma biografia é escrita por uma única mão. Há sempre outras mãos — visíveis ou invisíveis — segurando a caneta.

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