A inteligência artificial e a pedagogia da atenção



Há um traço curioso em toda revolução tecnológica: ela produz, simultaneamente, uma aceleração dos instrumentos e um atraso da inteligência encarregada de compreendê-los. A técnica avança com velocidade industrial; a reflexão, ao contrário, conserva o ritmo lento das instituições, da filosofia e da experiência histórica. Entre uma e outra instala-se um intervalo de perplexidade. É precisamente nele que vivemos.

A inteligência artificial tornou-se o mais recente objeto dessa perplexidade. Em poucos anos, passou de curiosidade laboratorial a ferramenta cotidiana, alterando práticas profissionais, modelos econômicos e, sobretudo, hábitos intelectuais. O fenômeno despertou reações previsíveis. De um lado, os evangelistas da automação, convencidos de que toda atividade humana será, cedo ou tarde, substituída por algoritmos suficientemente sofisticados. De outro, os herdeiros involuntários dos antigos luditas, persuadidos de que a máquina representa uma ameaça direta à própria possibilidade da cultura.

Ambas as posições padecem do mesmo defeito: confundem novidade com ruptura absoluta.

A história das técnicas dificilmente confirma as expectativas de seus contemporâneos. Como observava Lewis Mumford, cada inovação modifica profundamente certas práticas sem jamais produzir, sozinha, uma transformação integral da civilização. A imprensa não eliminou a oralidade; a fotografia não extinguiu a pintura; o cinema não tornou o romance uma forma obsoleta; a televisão não suprimiu o teatro. Em cada ocasião, a cultura reorganizou suas hierarquias, deslocou funções e absorveu aquilo que inicialmente parecia destinado a destruí-la.

Não há razões suficientes para supor que a inteligência artificial constituirá uma exceção.

O fato de uma máquina ser capaz de produzir textos coerentes não significa que tenha resolvido o problema da linguagem. Mas fica óbvio que essa máquina passou a participar desse mesmo problema.

Naturalmente, o impacto imediato impressiona. Nunca foi tão simples solicitar uma resenha, um ensaio, uma narrativa ou uma dissertação escolar. Em segundos surgem páginas impecavelmente estruturadas, corretas do ponto de vista gramatical, razoavelmente informadas e adaptadas ao registro solicitado. Para uma tradição pedagógica que durante séculos tomou o texto escrito como evidência privilegiada do pensamento, trata-se de uma perturbação considerável.

O professor experimenta uma sensação inédita. Não corrige propriamente um trabalho; examina um objeto cuja autoria tornou-se estatisticamente improvável. A experiência possui algo de arqueológico. Aprende-se rapidamente a reconhecer certos fósseis estilísticos: os períodos excessivamente equilibrados, as introduções que anunciam exatamente o que desenvolverão, os parágrafos que parecem avançar enquanto permanecem cuidadosamente imóveis. A linguagem continua correta; apenas perdeu a necessidade.

Esses sinais, evidentemente, desaparecerão.

Os modelos futuros hesitarão quando necessário, produzirão desvios calculados, introduzirão marcas individuais e provavelmente imitarão com eficiência até mesmo os defeitos particulares de cada escritor. A detecção tornar-se-á progressivamente inútil. É uma ilusão imaginar que a atual transparência da inteligência artificial seja uma característica permanente. Estamos na infância da tecnologia.

Daí decorre uma conclusão importante: o problema educacional consiste em determinar o que deixa de acontecer quando alguém deixa de escrever.

Essa distinção costuma escapar porque nossa cultura atribui valor excessivo ao produto e insuficiente ao processo. Avaliamos o texto concluído, raramente o caminho percorrido até sua elaboração. Entretanto, é justamente esse caminho que interessa.

Há uma tradição filosófica relativamente contínua — de Aristóteles a Dewey, passando por Montaigne, Humboldt e Merleau-Ponty — que compreende o pensamento como uma atividade de formação. O intelecto não opera exclusivamente antes da linguagem; organiza-se através dela. Pensar e escrever pertencem ao mesmo movimento.

Por isso, a pergunta decisiva não deveria ser se a inteligência artificial escreve melhor do que um estudante. Frequentemente escreve. Tampouco importa saber se escreverá melhor do que muitos profissionais. Muito provavelmente escreverá.

A questão relevante é outra.

O que acontece na mente de alguém durante o esforço de escrever?

Responder exige abandonar a superstição contemporânea da eficiência.

Quando uma pessoa tenta descrever uma árvore, por exemplo, imagina inicialmente que conhece seu objeto. A percepção parece completa. Há um tronco, folhas, sombra. Contudo, basta iniciar a descrição para que surjam dificuldades inesperadas. O tronco possui fissuras profundas ou apenas irregularidades superficiais? A copa protege da luz ou a filtra? O vento movimenta a árvore inteira ou apenas certos galhos? O verde permanece uniforme ou varia conforme a incidência da luminosidade?

Escrever obriga a percepção a retornar sobre si mesma.

Merleau-Ponty observava que a visão consiste numa elaboração contínua da experiência. A escrita prolonga precisamente esse movimento. Ela impede que o olhar permaneça satisfeito com suas primeiras aproximações.

Algo semelhante ocorre no domínio moral.

É significativo que os grandes romancistas quase sempre tenham sido observadores obsessivos. Flaubert passava dias procurando um único adjetivo porque suspeitava — corretamente — que uma palavra inadequada falsificava o objeto observado. Proust compreendeu que a memória reorganiza o passado incessantemente. Virginia Woolf descobriu que a consciência não se apresenta em blocos narrativos, mas em sucessões descontínuas de impressões.

Nenhuma dessas descobertas nasceu exclusivamente da imaginação. Resultaram de um exercício prolongado de atenção.

Simone Weil talvez tenha oferecido a formulação mais rigorosa desse princípio ao afirmar que a atenção constitui a forma mais elevada de generosidade intelectual. Escrever é uma disciplina da atenção.

Ora, exatamente essa disciplina tende a enfraquecer quando o texto passa a existir antes do pensamento que deveria produzi-lo.

É claro que alguém poderá revisar, corrigir, ampliar e sofisticar um primeiro rascunho elaborado por uma inteligência artificial. Não há qualquer impedimento técnico para isso. O problema é outro: quem não aprendeu a construir dificilmente aprenderá a reformular. A crítica pressupõe uma experiência prévia da criação. Editar exige conhecer as resistências internas da escrita.

A introdução da calculadora provocou receios semelhantes. Muitos professores acreditavam que ela destruiria o raciocínio matemático. O prognóstico revelou-se parcialmente equivocado e parcialmente correto. O cálculo mecânico perdeu importância em inúmeras situações; o pensamento matemático, porém, continuou exigindo demonstração, abstração e modelização. A ferramenta substituiu operações, não inteligência.

A inteligência artificial provavelmente realizará movimento semelhante.

Ela reduzirá drasticamente o tempo necessário para determinadas tarefas linguísticas. Automatizará sínteses, revisões, traduções e esquemas argumentativos. Libertará escritores de inúmeras atividades mecânicas.

Mas permanece improvável que automatize aquilo que constitui o núcleo propriamente formativo da escrita: o lento refinamento da percepção.

Há aqui uma ironia histórica digna de nota.

Durante décadas, os sistemas educacionais insistiram em reduzir a escrita a um conjunto de competências instrumentais. Escrevia-se para responder exames, preencher formulários, elaborar relatórios e produzir textos funcionalmente aceitáveis. A literatura sobrevivia quase como um luxo curricular.

Agora que uma máquina realiza com competência crescente justamente essas tarefas instrumentais, pode ser que descubramos, por contraste, aquilo que a escrita possuía de mais importante.

Sua capacidade de transformar quem escreve.

Essa transformação consiste numa sucessão quase imperceptível de pequenas correções cognitivas. Aprendemos a desconfiar das primeiras palavras. Descobrimos que uma ideia aparentemente sólida repousava sobre lembranças vagas. Percebemos que certos argumentos dependiam apenas de fórmulas repetidas. A linguagem torna-se um mecanismo de autocrítica.

George Orwell observava que frases prontas produzem pensamentos prontos. O clichê simplifica também a inteligência.

Essa é uma das maiores tentações da inteligência artificial: oferecer respostas rápidas e respostas linguisticamente acabadas. Ora, poucas coisas enfraquecem tanto a vida intelectual quanto a impressão prematura de conclusão. Pensar exige suportar longos períodos de insuficiência.

Naturalmente, tudo isso recomenda cautela, não alarmismo.

Não é difícil imaginar uma geração que utilize inteligências artificiais como instrumentos ordinários de trabalho intelectual, assim como utilizamos bibliotecas digitais, motores de busca ou corretores ortográficos. A ferramenta será absorvida pela rotina cultural. Os atuais debates provavelmente parecerão excessivos aos olhos das próximas décadas.

A história intelectual costuma ridicularizar os profetas, tanto os da redenção quanto os do desastre.

Há motivos para preocupação. O desenvolvimento cognitivo depende de exercícios que nenhuma tecnologia realiza em nosso lugar. Atenção, memória, abstração e julgamento formam-se pelo uso. Capacidades abandonadas tendem a atrofiar-se. Isso vale para os músculos, para as línguas antigas e para a reflexão.

Mas existe igualmente um limite para o pessimismo.

Civilizações sobreviveram a transformações mais profundas do que a introdução de uma nova tecnologia linguística. Sobreviveram porque aquilo que constitui a experiência humana nunca dependeu exclusivamente de seus instrumentos. As ferramentas modificam nossas possibilidades, mas não definem integralmente nossa condição.

A inteligência artificial provavelmente escreverá romances mais convincentes, ensaios mais organizados e relatórios mais eficientes do que grande parte de seus usuários. É provável que isso seja inevitável.

Ainda assim, permanecerá uma diferença silenciosa entre produzir um texto e formar uma consciência.

A primeira tarefa pode, de fato, tornar-se amplamente automatizável.

A segunda continua exigindo algo escandalosamente antigo: tempo, atenção e a disposição de permanecer, durante horas, diante de uma frase imperfeita até compreender que, antes de corrigir a linguagem, é preciso corrigir o olhar.

E essa sempre foi, muito antes dos algoritmos, a verdadeira pedagogia da escrita. Talvez continue sendo depois deles.

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