Contra a tirania da facilidade



Desde que retornei a Ipiaú, passei a conviver com um curioso paradoxo. Alguns leitores, sobretudo aqueles mais habituados ao debate intelectual, acolhem meus textos com entusiasmo; outros, não menos sinceros, os recebem com uma advertência: escrevo de maneira excessivamente hermética. Não faltam recomendações generosas para que abandone certas construções, simplifique o vocabulário e adapte o pensamento a um público supostamente menos preparado. A sugestão é sempre apresentada em nome da comunicação. Seu pressuposto, porém, é mais profundo: a convicção de que a inteligência precisa pedir desculpas por existir.

Confesso que nunca me reconheci inteiramente nessa acusação. Não me parece que minha escrita cultive a obscuridade como virtude. O que talvez provoque estranhamento é menos a sintaxe do que o objeto. Os assuntos que me interessam não costumam frequentar as conversas ordinárias nem ocupam os algoritmos da atenção coletiva. É evidente que eu poderia comentar a rodada do campeonato, o reality show da temporada ou a polêmica mais recente das redes sociais. Mas, nesse mercado da efemeridade, já existem intérpretes muito mais competentes do que eu. A divisão do trabalho intelectual também exige alguma modéstia: não faz sentido disputar espaço onde nada de novo há para dizer.

Por força do doutorado em Crítica Literária, voltei recentemente à obra de José Guilherme Merquior. Reencontrar Formalismo e tradição moderna: o problema da arte na crise da cultura foi uma experiência de reconhecimento. Essa obra é daquelas que reorganizam o pensamento de quem as lê. Em suas páginas, a crítica aparece como exercício de liberdade intelectual. Seu estilo possui uma qualidade hoje quase desaparecida: a coragem de pensar sem pedir licença às modas do momento.

Merquior compreende que a tradição artística não constitui um museu de peças mortas, mas um sistema vivo de interlocuções. Aponta ainda que o contato com as grandes obras constitui um processo de formação da personalidade crítica. A alta cultura, nessa perspectiva, emancipa porque incorpora, em sua própria estrutura, séculos de reflexão sobre a condição humana. Ler Dante, Cervantes, Machado ou Kafka significa dialogar com inteligências que já enfrentaram perguntas semelhantes às nossas, ainda que em circunstâncias distintas.

Essa concepção se opõe simultaneamente a dois reducionismos que continuam assombrando boa parte da crítica contemporânea. De um lado, o velho determinismo sociológico, herdeiro do positivismo taineano, que converte a obra em simples documento histórico, como se a criação artística fosse apenas o reflexo passivo das condições materiais de seu tempo. De outro, a mistificação subjetivista, segundo a qual a arte seria mera explosão de uma interioridade incomunicável, desligada das formas históricas que a tornaram possível. Num extremo, desaparece o artista; no outro, desaparece o mundo.

Merquior rejeita ambos. A obra de arte nasce precisamente da tensão entre a singularidade da consciência criadora e as determinações históricas que a circundam. Não existe criação fora da cultura, assim como não existe cultura capaz de eliminar inteiramente a liberdade criadora. A grande arte não confirma o seu tempo; também o interroga. Não se limita a reproduzir a realidade; reorganiza-a simbolicamente, devolvendo ao leitor um universo simultaneamente familiar e estranho. Eis por que ela permanece viva muito depois de desaparecerem as circunstâncias imediatas de sua produção.

A exigência permanente de simplificação revela uma civilização que trocou a formação pela acessibilidade irrestrita, a reflexão pelo consumo instantâneo e a curiosidade pela satisfação imediata. A clareza do escritor converteu-se em obrigação absoluta. O esforço do leitor tornou-se uma exigência considerada ilegítima. A disciplina que outrora acompanhava o ato de ler dissolve-se na expectativa de que todo texto já venha traduzido para os códigos da distração. A leitura deixa de ser uma experiência de transformação para converter-se em mais um produto adaptado à impaciência de seu consumidor.

Mas uma cultura que transforma toda dificuldade em escândalo acaba, inevitavelmente, por produzir indivíduos incapazes de reconhecer a profundidade. Quando tudo precisa ser imediatamente transparente, desaparece a experiência da descoberta. E sem descoberta não existe pensamento; apenas repetição.

O que está em jogo é a sobrevivência de um espaço em que certas ideias ainda possam exigir do leitor algo mais do que um rápido movimento dos olhos. Algumas compreensões pedem tempo, insistência e uma disposição rara para permanecer diante do que resiste à assimilação imediata. A inteligência é menos um dom do que uma forma de perseverança.

Nesse ambiente, qualquer obstáculo passa a ser interpretado como defeito; qualquer densidade, como arrogância; qualquer complexidade, como falha de comunicação. A dificuldade deixa de ser uma etapa da aprendizagem para converter-se em algo moralmente suspeito.

Nunca houve tanta informação circulando, e talvez jamais tenha sido tão raro encontrar disposição para demorar-se sobre uma única ideia. Confunde-se acessibilidade com conhecimento, velocidade com inteligência, opinião com reflexão. A consequência é previsível: quanto mais simples se torna o discurso público, mais opaco se torna o próprio mundo.

Por isso a literatura continua sendo um dos últimos lugares onde ainda é permitido desacelerar o pensamento. Ela não promete conforto nem fornece respostas embaladas. Exige silêncio, demora e, sobretudo, fomenta a humildade de reconhecer que nem tudo se deixa compreender de imediato. É uma exigência que poucos aceitam e da qual muitos fogem.

Esse é o destino inevitável da nossa época: trocar a profundidade pela transparência e celebrar essa perda como um progresso civilizatório. Ainda assim, permanece um consolo discreto. Enquanto houver um único leitor disposto a enfrentar um texto sem exigir que ele lhe poupe o trabalho de pensar, a inteligência humana continuará recusando sua rendição completa. Pode ser uma resistência solitária, quase invisível. Mas todas as formas autênticas de liberdade costumam sobreviver exatamente assim: pequenas, silenciosas e indiferentes ao entusiasmo das multidões.

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