Os mortos escrevem conosco



As sociedades modernas cultivam uma curiosa superstição: a de que os seres humanos são capazes de criar algo inteiramente novo. A crença assume muitas formas. Aparece na política, sob a forma de revoluções que prometem um homem inédito; na tecnologia, como a convicção de que cada inovação nos afasta definitivamente do passado; e na arte, como a obsessão pela originalidade.

Poucas ideias são mais lisonjeiras para o ego humano.

A originalidade oferece ao escritor aquilo que as antigas religiões ofereciam aos santos: a esperança de escapar da condição comum. Ser original significa existir de maneira diferente. Significa ser o início de alguma coisa.

O problema é que os começos absolutos pertencem aos mitos de criação, não à experiência humana.

Os homens são criaturas imitativas. Aprendem a falar repetindo palavras que outros disseram; aprendem a amar reproduzindo gestos que viram em outros; aprendem a pensar mediante ideias que os precedem. A imagem do indivíduo soberano, capaz de produzir a si mesmo e às suas obras a partir de um núcleo inteiramente próprio, é uma das ficções mais persistentes da modernidade.

A literatura oferece um antídoto contra essa fantasia, e poucos escritores o administraram com tanta precisão quanto Borges.

Em “Pierre Menard, autor do Quixote”, um escritor francês do século XX decide escrever algumas páginas de Dom Quixote exatamente como Cervantes as escreveu. O projeto é absurdo, mas toda grande sátira se constrói sobre um absurdo que revela uma verdade.

A verdade é que nenhuma obra existe fora do tempo.

As mesmas palavras, escritas por outro homem e em outra época, tornam-se outra coisa. O Quixote de Menard não é o de Cervantes, ainda que cada vírgula coincida. O sentido está na teia de circunstâncias, tradições e acidentes históricos que as envolvem.

A ideia de autoria soberana começa então a desmoronar.

Os escritores modernos costumam imaginar-se proprietários de suas obras. Falam em “encontrar a própria voz”, como se essa voz estivesse escondida em algum lugar recôndito do eu, aguardando ser descoberta. Mas o eu é, em grande medida, um artefato composto de fragmentos alheios. Somos feitos de livros esquecidos, frases ouvidas na infância, memórias mal preservadas e preconceitos herdados. Nossa suposta singularidade é uma combinação ligeiramente distinta de elementos muito antigos.

Schopenhauer observou que cada indivíduo se considera uma exceção às leis que governam os demais. A crença na originalidade é uma variante literária dessa ilusão. O escritor admite que todos os outros são tributários de influências; ele, o escritor, imagina ter encontrado uma fonte secreta de novidade.

A história da literatura sugere outra coisa.

Os grandes autores não derrotaram a tradição. Foram derrotados por ela de maneira particularmente fecunda. Shakespeare tomou emprestadas histórias antigas. Dante escreveu à sombra de Virgílio. Kafka parece ter inventado um novo universo, mas hoje lemos seus livros e descobrimos neles ecos de mitos muito mais antigos.

A própria ideia de inovação permanente é produto de uma civilização que passou a acreditar no progresso como outros tempos acreditaram na providência divina.

O século XX deveria ter curado essa ilusão.

Assistiu a guerras industriais, genocídios e experiências políticas que prometeram um homem novo e produziram novas formas de barbárie. Ainda assim, a fé na novidade permaneceu intacta. O culto da originalidade é um de seus últimos refúgios.

Talvez porque a alternativa seja difícil de aceitar.

Se nada é inteiramente novo, então nossa existência possui menos importância do que gostaríamos de imaginar. Se os livros que escrevemos pertencem a uma conversa iniciada muito antes de nosso nascimento, então não somos fundadores, mas participantes tardios. Se as ideias que consideramos nossas são ecos de pensamentos antigos, então nossa individualidade é mais tênue do que supomos.

Há algo de humilhante nessa conclusão.

Mas há também uma forma de liberdade.

A obsessão pela originalidade é exaustiva porque exige o impossível. Obriga o escritor a agir como um deus menor, encarregado de criar um mundo a partir do nada. Renunciar a essa tarefa é aceitar uma condição mais modesta e talvez mais verdadeira.

Os mortos escrevem conosco.

Cada frase carrega palavras usadas por incontáveis gerações; cada imagem possui ancestrais esquecidos; cada livro é um breve desvio em uma corrente que continuará a fluir quando seu autor desaparecer. A literatura, como a própria civilização, é uma obra coletiva produzida por pessoas que jamais se conheceram.

Nada disso torna a escrita menos importante.

Pelo contrário.

A obra, quando bem realizada, atravessa vidas, muda de sentido, encontra leitores que seu autor jamais poderia imaginar. O escritor não é um criador ex nihilo, mas um guardião temporário de certas formas e certas palavras.

Essa é a única imortalidade acessível aos seres humanos.

Não a sobrevivência do eu — essa antiga fantasia religiosa reciclada pela cultura moderna —, mas a permanência impessoal de algumas frases, algumas imagens, alguns gestos de linguagem.

Os homens passam. Os livros também passam, embora mais lentamente. Mas, por um breve intervalo, ambos participam de algo que os excede.

Talvez seja suficiente. Talvez a verdadeira sabedoria consista em abandonar o desejo infantil de ser o primeiro e aceitar, com uma espécie de gratidão melancólica, que somos mais uma voz na longa conversação dos mortos.

E, por alguns instantes, antes que o silêncio nos alcance, isso é uma forma de eternidade.

Postar um comentário

José Fagner. Theme by STS.