O Consolo da Insignificância


A vaidade é uma das poucas paixões humanas capazes de se ocultar sob a aparência da virtude. Quase ninguém admite desejar reconhecimento; preferimos dizer que buscamos servir, colaborar, contribuir. O amor-próprio é um grande romancista: reescreve nossos interesses como deveres e nossos anseios de importância como generosidade.

Quando retornei a Ipiaú, fui atraído para diferentes iniciativas culturais. Participei da elaboração do FestContas ao lado da Casa da Cultura; somei esforços com a Voo Audiovisual na segunda edição da Flipiaú; envolvi-me na edição de livros, na produção de documentários, em histórias em quadrinhos, ilustrações, podcasts, fanzines e blogs.

Por muito tempo, contei a mim mesmo uma história bastante conveniente. Acreditei que fazia tudo aquilo pela cultura de minha cidade. Talvez houvesse, de fato, algo disso. Os motivos humanos raramente são puros. Mas havia outra coisa, mais profunda e menos confessável: eu queria ser necessário. Queria ver pessoas mobilizadas, queria que os projetos prosperassem, queria encontrar, no entusiasmo alheio, uma confirmação de que minha presença tinha algum peso.

Esse desejo é um traço da espécie. Os seres humanos têm dificuldade em aceitar a própria insignificância. Diferentemente dos outros animais, precisamos acreditar que nossas vidas participam de alguma narrativa maior. Inventamos missões, causas, vocações e legados porque a ideia de sermos apenas criaturas transitórias nos parece intolerável.

Mas o mundo não se organiza em torno das nossas necessidades psicológicas.

Mais cedo ou mais tarde, a realidade impõe uma verdade que nenhuma filosofia do otimismo consegue dissolver: quase ninguém é indispensável. Os projetos que julgamos fundamentais encontram outros executores; os grupos aos quais dedicamos anos de nossa vida seguem adiante; as instituições sobrevivem às nossas ausências com uma facilidade desconcertante. A história humana é um cemitério de homens e mulheres que se acreditaram centrais para acontecimentos que logo aprenderam a esquecê-los.

Nos últimos meses, venho refletindo sobre isso. Hoje agradeci aos membros da Academia de Letras do Médio Rio das Contas pelo carinho e comuniquei meu afastamento do grupo.

Nossa necessidade de importância costuma ser muito maior do que nossa importância real. O protagonismo que atribuímos a nós mesmos é, em grande medida, uma ficção produzida para nos proteger do fato de que somos substituíveis.

Os antigos estóicos recomendavam que nos lembrássemos da morte. Talvez fosse mais útil que nos lembrássemos do esquecimento. Morreremos; seremos esquecidos. Os esforços aos quais dedicamos nossas energias desaparecerão ou serão absorvidos por outras mãos. O mundo, que parecia precisar de nós, continuará seu curso com uma indiferença quase perfeita.

À primeira vista, essa é uma conclusão sombria. Mas há nela uma estranha forma de graça.

Se não somos os protagonistas da história, tampouco carregamos o peso de sustentá-la. Se o mundo não depende de nós, podemos finalmente abandonar a exaustiva obrigação de parecermos necessários. Os rios continuarão a correr, os livros continuarão a ser escritos, as conversas seguirão seu curso e as cidades permanecerão entregues às suas pequenas esperanças e aos seus inevitáveis esquecimentos.

Talvez a sabedoria consista em aceitar que somos apenas visitantes. Não os autores do enredo, mas personagens secundários de uma peça antiga e indiferente.

E, quando essa verdade finalmente se impõe, algo em nós se aquieta. O desejo de deixar uma marca cede lugar ao raro privilégio de simplesmente existir. O espetáculo prossegue sem a nossa direção, sem a nossa presença e, um dia, sem a nossa memória. Longe de ser uma tragédia, isso pode ser um alívio.

Porque, ao renunciar à fantasia de sermos indispensáveis, descobrimos uma liberdade que a vaidade jamais poderia oferecer: a de caminhar para fora do palco, em silêncio, e deixar que o mundo continue sem nós.

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