A piscina preta e a fronteira invisível

Em O lado de lá, Paloma Vidal transforma um balneário de luxo em laboratório das distâncias sociais, mostrando que as fronteiras mais decisivas são as que organizam o olhar.





Punta del Este parece ter sido construída para apagar sua própria localização. A mesma sucessão de edifícios envidraçados, mansões cercadas por gramados impecáveis, marinas cheias de iates e vitrines de marcas internacionais poderia existir em Miami, Dubai ou na Riviera Francesa. O dinheiro produz uma arquitetura cosmopolita que transforma cidades em versões umas das outras.

Essa paisagem ocupa o centro de O lado de lá, de Paloma Vidal. O romance acontece numa casa de veraneio pertencente a brasileiros, instalada no bairro Beverly Hills, onde o luxo convive diariamente com o trabalho silencioso de quem o mantém. A autora concentra o olhar nesse convívio. Cada gesto cotidiano revela uma distância social que dispensa explicações.

A primeira frase anuncia o centro simbólico da narrativa: "A casa tem uma piscina preta." A imagem permanece durante toda a leitura. A piscina assume a função de metáfora. Seu fundo escuro atrai os personagens, concentra seus desejos e abriga tudo aquilo que permanece submerso: diferenças de classe, solidão, violência e expectativa.

Paloma Vidal escreve com extrema economia. Os personagens permanecem sem nome. Entram em cena, realizam pequenas ações e desaparecem. O romance confia na força dos detalhes. Um prato servido, uma conversa durante a novela, uma criança parada à beira da piscina ou um cachorro atravessando o bairro dizem mais sobre aquelas vidas do que qualquer explicação psicológica.

Entre todos, a menina uruguaia ocupa o centro da narrativa. Mora nos fundos da propriedade com a tia, empregada doméstica da casa. Observa os brasileiros como quem contempla outro mundo. Para ela, o Brasil assume a forma de uma promessa. O país aparece condensado em imagens de abundância, beleza, alegria e liberdade. A fantasia nasce menos da geografia do que da distância. Quanto maior a distância, mais perfeita se torna a imaginação.

O romance também acompanha um cachorro, cuja perspectiva amplia o campo da narrativa. Enquanto os adultos permanecem presos aos códigos da convivência social, ele percorre terrenos baldios, encontra cavalos, ratos, barracos e ruas poeirentas. A cidade recupera sua dimensão concreta. O balneário exclusivo passa a integrar um espaço muito maior, onde riqueza e precariedade coexistem.

Paloma Vidal constrói essa história por meio de imagens recorrentes. A piscina, a novela, a casa, a língua e a fronteira organizam um sistema de correspondências que conduz o leitor. O romance avança com a precisão de uma peça teatral. Cada repetição modifica discretamente o sentido da anterior até produzir um desfecho cuja força deriva justamente da contenção.

Nas páginas finais, ganha novo significado o fato de o livro ter sido escrito originalmente em espanhol e depois traduzido pela própria autora. A travessia entre idiomas prolonga o movimento da narrativa. A fronteira passa a existir também dentro da linguagem. Cada palavra muda ligeiramente de lugar. Cada mudança altera a forma de olhar o mundo.


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