Guerra e Paz, Tolstói e a pequena desordem das coisas
Todos já lemos aquele livro que, ao terminar, imediatamente procuramos alguém com quem trocar impressões. O problema começa justamente aí. A leitura termina, o livro fecha, a história continua dentro da cabeça e, ao redor, quase ninguém parece disponível para discutir aquela coisa que acaba de acontecer. Há uma espécie de solidão particular na leitura dos clássicos. Muita gente conhece o nome de Guerra e Paz. Muita gente sabe que Tolstói escreveu sobre Napoleão, sobre a invasão da Rússia, sobre a aristocracia, sobre Pierre Bezúkhov, Natacha Rostova e o príncipe Andrei. Muita gente conhece a fotografia mental do homem de barba enorme, sentado diante de uma mesa, escrevendo uma obra igualmente enorme. O que permanece mais raro é encontrar alguém disposto a conversar sobre aquilo que acontece quando se atravessam suas páginas durante centenas de horas. Rafael terminou o livro e, por isso, tornou-se imediatamente uma pessoa com quem se pode conversar.
Uma das funções da literatura é produzir uma comunidade provisória entre pessoas que passaram pela mesma experiência imaginária. Um romance de mil e tantas páginas cria uma espécie de parentesco entre seus leitores. Eles reconhecem nomes, episódios, gestos, fracassos. Sabem quem é Platon Karatáiev. Sabem o que acontece com Pétia. Sabem que Pierre atravessa uma sucessão quase cômica de convicções, entusiasmos, casamentos, desilusões e revelações. Sabem que Natacha muda. Sabem que Andrei muda. Sabem que todos mudam. E sabem, sobretudo, que a mudança acontece enquanto cada personagem está ocupado com alguma outra coisa.
A história aparente do romance é conhecida. A Europa está em guerra. Napoleão avança. A Rússia enfrenta as forças francesas. Há batalhas, retiradas, salões aristocráticos, casamentos, mortes, festas, conversas, propriedades rurais, cavalos, criados, soldados, bailes e longas discussões sobre o sentido da História. A matéria histórica fornece o grande palco. A vida cotidiana fornece aquilo que realmente interessa a Tolstói. O romance constitui um amplo painel da sociedade russa do início do século XIX, reunindo aristocracia, generais, soldados, servos e mujiques numa mesma arquitetura narrativa.
Essa arquitetura produz uma consequência curiosa: quanto maior a História, menor parece o indivíduo que imagina conduzi-la.
Napoleão entra no romance carregando a reputação de homem que moveu a Europa. Tolstói o observa de perto e encontra algo muito menos majestoso. Vaidade, cálculo, irritação, pose, pequenas preocupações, gestos corporais. A estátua histórica começa a parecer um homem. Kutúzov, por sua vez, transforma-se em uma espécie de sábio da resignação histórica. Tolstói aproxima os dois da dimensão humana e, ao fazê-lo, desloca a História de seu pedestal. A grandeza histórica passa a conviver com o banal.
Durante o século XIX, a História tornou-se uma das grandes máquinas intelectuais do Ocidente. Era preciso descobrir suas leis, seus motores, suas etapas, suas forças profundas. O mundo parecia oferecer matéria suficiente para grandes explicações. Revoluções, industrialização, nacionalismos, impérios, teorias científicas, transformações econômicas e conflitos sociais produziam a sensação de que a humanidade finalmente poderia compreender o mecanismo de seu próprio movimento.
Tolstói olha para tudo isso com uma espécie de desconfiança quase física. Ele observa um exército avançando e pergunta quem realmente o fez avançar. Observa um general dando uma ordem e percebe milhares de homens movimentando-se por razões que escapam à consciência daquele general. Observa uma batalha e encontra poeira, fome, medo, cansaço, cavalos, feridos, ruídos, erros de comunicação, atrasos, pequenos atos de coragem, pequenos atos de covardia. A História escrita depois transforma tudo isso em uma sequência limpa de causas e efeitos. A experiência vivida possui outra textura.
A experiência vivida é confusa. Vivemos cercados por explicações retrospectivas. Toda catástrofe recebe rapidamente uma narrativa. Toda eleição ganha uma causa. Toda crise encontra seu responsável. Toda mudança histórica produz especialistas capazes de explicar, depois do acontecimento, por que aquilo necessariamente precisava acontecer.
Tolstói desconfia dessa segurança posterior. Ele sabe que o passado possui uma vantagem extraordinária sobre o presente: já aconteceu. Por isso permite explicações. O presente, em contrapartida, apresenta-se como uma massa de possibilidades concorrentes. Cada pessoa acorda pela manhã carregando alguns planos. O mundo possui outros. Entre os dois existe a realidade. E a realidade costuma vencer.
Em Guerra e Paz, todos fazem planos. Napoleão faz planos. Generais fazem planos. Pierre faz planos. Andrei faz planos. Natacha faz planos. As famílias fazem planos. Os amantes fazem planos. Os soldados recebem planos. Os indivíduos imaginam futuros que dependem de uma série de condições minúsculas. Então alguém adoece. Alguém morre. Um cavalo cai. Uma mensagem chega tarde. Uma batalha muda de direção. Uma pessoa conhece outra pessoa. Uma pessoa deixa de conhecer outra. Um desejo aparece. Outro desaparece.
A vida possui uma relação muito particular com nossos projetos: ela os utiliza como matéria-prima para fabricar alguma coisa diferente.
É por isso que a frase de Tolstói sobre a ação inconsciente possui tanta força. Os indivíduos que participam dos acontecimentos históricos raramente compreendem o significado histórico de seus próprios atos. Eles vivem. Agem. Escolhem. Desejam. Amam. Fogem. Comem. Dormem. Matam. Perdoam. Depois, alguém chega e transforma essa massa de experiências em História.
A História possui algo de necrológio. Ela olha para vidas já encerradas e encontra nelas uma coerência que os vivos jamais enxergaram.
Essa é a grande ironia de Guerra e Paz: Tolstói escreve um romance sobre pessoas que vivem enquanto outros imaginam que elas estão fazendo História. A diferença é decisiva. Pierre deseja descobrir o sentido da existência enquanto a existência continua acontecendo ao seu redor. Andrei procura uma grandeza que dê sentido à própria vida enquanto a vida insiste em oferecer coisas menores: uma conversa, uma paisagem, uma mulher, uma criança, uma doença, uma lembrança. Natacha imagina futuros e perde alguns deles. Nikolai atravessa acontecimentos que, em determinado momento, parecem definitivos e depois se dissolvem na continuidade da vida.
A vida possui essa crueldade. Raramente anuncia o acontecimento que será decisivo. O romance de Tolstói compreende isso em sua própria forma. É difícil perceber a estrutura de Guerra e Paz porque a estrutura imita aquilo que pretende representar. O romance parece espalhado. Personagens entram, ocupam nossa atenção, desaparecem. Episódios começam com a promessa de uma importância futura e seguem para algum lugar inesperado. Objetos aparecem em detalhes quase absurdos. Pessoas conversam. Alguém observa uma garrafa. Um cavalo corre. Uma família janta. Um oficial pensa em alguma coisa. Uma personagem dança.
A garrafa permanece sendo apenas uma garrafa. Esse detalhe parece pequeno, embora contenha uma verdadeira revolução narrativa. Grande parte da ficção moderna nos ensinou a procurar sinais. Se um objeto recebe atenção, esperamos que possua uma função posterior. Se determinado personagem recebe uma apresentação cuidadosa, imaginamos que retornará. Se uma informação parece excessivamente específica, suspeitamos de sua importância. O leitor contemporâneo foi treinado para procurar mecanismos. Aprendeu a reconhecer pistas, antecipar revelações, identificar objetos simbólicos, prever reviravoltas.
Tolstói oferece uma experiência diferente. A garrafa pode ser importante porque existe naquele instante. Uma coisa pode possuir valor sem precisar conduzir a outra coisa. Uma pessoa pode ser importante sem desempenhar uma função posterior na história. Um encontro pode transformar uma tarde sem transformar uma vida. Uma conversa pode ser decisiva durante meia hora e desaparecer para sempre depois disso.
A vida está cheia dessas coisas. Conhecemos pessoas em aviões, ônibus, universidades, festas, filas, restaurantes, hospitais, corredores. Conversamos com elas durante dez minutos e seguimos viagem. Algumas parecem destinadas a permanecer. Desaparecem. Outras parecem insignificantes. Anos depois, lembramos de uma frase que disseram. Uma professora menciona um livro. Um desconhecido oferece uma informação. Um amigo apresenta outro amigo. Um comentário casual abre uma porta.
A existência possui uma administração muito precária de sua própria importância. Tolstói percebeu isso. Por essa razão seus personagens pareçam tão vivos. Eles carregam a capacidade de desperdiçar acontecimentos. Pessoas reais desperdiçam oportunidades. Esquecem conversas. Perdem amores. Fazem escolhas por motivos ridículos. Mudam de ideia. Começam projetos que abandonam. Aproximam-se de pessoas que desaparecem. Encontram outras que passam a ocupar o centro da vida por razões que ninguém poderia prever.
Dólokhov é um excelente exemplo. Ele surge com uma intensidade que parece anunciar um personagem fundamental. Participa de episódios importantes, atravessa conflitos, envolve-se em relações decisivas. O leitor naturalmente espera uma continuidade proporcional à energia de sua entrada. O personagem se afasta, desaparece durante longos trechos e retorna posteriormente.
Isso produz um desconforto particular. O leitor percebe que havia atribuído ao romance uma promessa que o romance jamais havia feito. É uma pequena lição de humildade.
Talvez leiamos mal a vida pelo mesmo motivo. Interpretamos cada acontecimento como uma pista. Supomos que certas pessoas permanecerão. Supomos que certos momentos anunciarão outros. Imaginamos que uma conversa possui um significado oculto, que uma coincidência aponta para alguma coisa, que uma oportunidade inaugura uma trajetória.
Às vezes acontece. Frequentemente, acontece outra coisa. A vida possui uma quantidade imensa de começos que jamais chegam a constituir histórias. Uma pessoa começa a aprender uma língua e abandona. Compra um instrumento musical e deixa o instrumento no armário. Planeja uma viagem e troca de destino. Encontra alguém e depois perde contato. Imagina uma carreira e termina em outra. Pensa que está diante do grande acontecimento de sua existência e descobre, vinte anos depois, que aquele acontecimento serviu somente para preencher uma terça-feira.
Tolstói dá dignidade literária a essa matéria desperdiçada. Essa é uma das razões para a extensão de Guerra e Paz. A dimensão do romance deixa de parecer um excesso e passa a parecer uma necessidade. Um livro que pretende representar a experiência histórica precisa conter uma quantidade suficiente de acontecimentos para que o leitor experimente a incerteza. Um romance muito organizado poderia contar uma história. Tolstói deseja produzir a sensação de estar dentro da História.
A História, quando vivida, possui péssima edição. Ela contém repetições, atrasos, detalhes inúteis, acidentes, personagens secundários, informações contraditórias, conversas interrompidas, objetos sem função, pessoas que chegam tarde, pessoas que chegam cedo, acontecimentos que pareciam decisivos e acabam esquecidos.
A literatura de Tolstói se aproxima da vida justamente quando aceita essa desorganização. Tolstói recusava classificar a obra simplesmente como romance, poema ou crônica histórica. Essa recusa faz sentido quando se percebe que Guerra e Paz parece querer escapar da forma literária convencional para aproximar-se de uma coisa mais difícil de nomear: a experiência de existir dentro de um mundo que já começou antes de nós e continuará depois de nós.
Essa é uma das questões mais perturbadoras do livro. Onde começa uma vida? Onde termina? Pierre nasce dentro de uma família, de uma classe social, de um país, de uma língua, de uma história. Antes dele, milhões de acontecimentos prepararam o mundo em que ele nasceu. Depois dele, outros acontecimentos continuarão a modificar esse mesmo mundo. Sua existência possui uma duração limitada. Sua experiência, porém, participa de uma corrente muito maior.
O mesmo acontece com a História. Tolstói percebe que todo começo histórico é uma decisão narrativa. O historiador escolhe um ponto e diz: daqui começaremos. Poderia escolher outro. O romance começa em 1805 porque precisa começar em algum lugar. A própria gênese da obra, como mostra o texto fornecido, revela esse movimento: a ideia inicial relacionada aos dezembristas conduziu Tolstói ao contexto de 1825, depois a 1812, depois às guerras anteriores, até chegar a 1805.
A origem do romance já contém sua teoria da História. Começar significa cortar. Terminar também. Toda narrativa produz uma espécie de ilusão de contorno. Ela cria uma moldura ao redor da realidade. Dentro dela, encontramos personagens, causas, consequências e desfechos. Fora dela, permanece o infinito.
Tolstói deixa o infinito entrar pelas frestas. Penso que, por isso os finais de Guerra e Paz provoquem aquela sensação estranha de que o livro terminou sem que a vida tenha terminado. O romance pode fechar suas páginas. Os personagens continuam imaginariamente existindo. O mundo continua. A História continua. Os filhos nascerão. Outros conflitos surgirão. Outros homens acreditarão controlar acontecimentos. Outras mulheres terão seus planos alterados por circunstâncias que jamais imaginaram.
A narrativa termina. A vida prossegue. Queremos finais porque precisamos de repouso. A realidade oferece continuidade. Queremos causas porque precisamos compreender. A realidade oferece uma multiplicidade de causas.
Queremos personagens principais porque nossa mente organiza o mundo por figuras. A realidade distribui a importância por milhões de indivíduos. Queremos saber quem venceu. A vida pergunta apenas o que aconteceu depois. Tolstói transforma essa tensão em método.
Seu narrador possui uma autoridade quase divina. Afirma coisas sobre seus personagens com a segurança de quem conhece sua intimidade mais profunda. Uma determinada caçada foi o dia mais feliz da vida de Nikolai. Uma determinada experiência modificou Pierre. Um determinado momento adquiriu uma importância que o personagem sequer percebeu.
Essa voz narrativa sabe tudo e explica pouco. O leitor recebe os fatos. Recebe os gestos. Recebe as transformações. Cabe-lhe habitar aquele mundo e descobrir algum sentido possível. É assim que a ficção se aproxima novamente da vida.
Também conhecemos as pessoas desse modo. Vemos seus comportamentos. Interpretamos suas mudanças. Inventamos explicações. Um amigo abandona uma carreira. Um conhecido termina um casamento. Uma pessoa muda de cidade. Um professor passa a estudar outra coisa. Uma família se desfaz. Anos depois, tentamos reconstruir as causas. Talvez nossa explicação esteja certa. Talvez esteja apenas elegante. A vida não nos fornece notas de rodapé.
Tolstói compreendia profundamente essa limitação. Por isso sua literatura produz uma espécie de modéstia epistemológica. O leitor aprende a desconfiar da própria capacidade de previsão. Aprende que conhecer uma pessoa hoje oferece informação insuficiente sobre aquilo que essa pessoa será daqui a dez anos. Aprende que um acontecimento pode adquirir significado muito tempo depois. Aprende que uma pessoa pode desaparecer da narrativa e continuar existindo fora do foco.
Isso vale para a História e vale para a existência individual. Há uma pequena humilhação nessa percepção. Mas ela também oferece liberdade. Se o futuro permanece aberto, a vida conserva alguma coisa de sua capacidade de surpreender.
Pierre é a grande encarnação disso. Ele passa boa parte do romance procurando uma resposta que possa organizar sua existência. Procura ideias, sistemas, grupos, projetos, relações. Experimenta a maçonaria, a reforma social, a admiração por Napoleão, a tentativa quase absurda de matá-lo, o casamento, a guerra, o cativeiro. Cada etapa oferece uma promessa de sentido. Cada promessa envelhece.
No cativeiro, diante de Platon Karatáiev, surge uma espécie diferente de sabedoria. A existência cotidiana passa a adquirir uma dignidade que as grandes teorias frequentemente deixam escapar. Comer. Dormir. Trabalhar. Conversar. Dividir o pouco que existe. Aguardar. Continuar.
Um homem atravessa uma das maiores guerras da história europeia e descobre que viver pode significar simplesmente viver. A descoberta parece pequena porque nossa imaginação está habituada ao monumental. Esperamos que a vida seja uma grande obra. Planejamos carreiras, viagens, livros, pesquisas, famílias, projetos. Organizamos calendários. Estabelecemos metas. Fazemos listas. Criamos versões futuras de nós mesmos e passamos anos tentando alcançar essas figuras imaginárias. Então a vida acontece.
Ela acontece enquanto estamos ocupados preparando outra coisa. A vida acontece enquanto fazemos planos. Tolstói conhecia pessoalmente essa tensão. O texto fornecido chama atenção para a fratura entre sua exigência ética e sua vitalidade corporal, entre a vontade de compreender e o desejo de viver, entre a observação da realidade e a necessidade de formular uma doutrina moral. Essa fratura alimenta sua literatura. Ele deseja encontrar uma verdade única e possui um talento extraordinário para perceber a multiplicidade.
Tolstói quer o Um. Seu gênio mostra os muitos. Quer uma teoria capaz de explicar a História. Encontra milhões de vidas. Quer uma moral capaz de ordenar a existência. Encontra corpos, desejos, acidentes, fome, sexo, vaidade, ternura, medo, velhice e morte. Quer uma explicação. Encontra uma cena.
É possível que todo grande escritor possua alguma forma dessa contradição. O artista constrói uma forma para uma realidade que continuamente escapa da forma. O romance tenta abarcar uma época inteira e, ao mesmo tempo, demonstra continuamente a impossibilidade de abarcar uma época inteira.
O resultado é uma obra que parece maior que seu autor. Essa impressão explica a sensação de que Guerra e Paz simplesmente existe, como se tivesse sido encontrada em vez de escrita. A impressão de realidade vem justamente da abundância. Há gente demais. Coisas demais. Conversas demais. Caminhos demais.
A vida parece assim. Quando alguém conta a própria vida depois de muitos anos, tudo parece organizado. Há períodos, acontecimentos, decisões. A pessoa sabe onde estudou, quando se casou, onde trabalhou, quando mudou de cidade. A narrativa retrospectiva cria uma linha. A experiência concreta foi outra coisa.
Houve manhãs sem importância. Tardes intermináveis. Conversas esquecidas. Telefonemas que nunca foram feitos. Pessoas encontradas por acaso. Decisões tomadas por cansaço. Pequenas covardias. Pequenas generosidades. Erros que produziram consequências inesperadas. Acertos que produziram quase consequência nenhuma. A biografia é a edição. A vida é o arquivo bruto.
Tolstói escreveu um romance que se aproxima perigosamente do arquivo bruto. Por isso sua leitura pode ser cansativa. Também por isso ela pode ser inesquecível.
Guerra e Paz exige tempo porque a vida exige tempo. O leitor precisa permanecer ali enquanto as coisas acontecem. Não pode simplesmente procurar a informação importante. A própria distinção entre importante e irrelevante começa a desmoronar.
Provavelmente essa é a experiência que Rafael acaba de terminar. Conversar sobre o livro seja uma maneira de continuar lendo. Porque alguns livros terminam quando chegamos à última página. Outros continuam porque modificam a forma como percebemos aquilo que acontece depois.
Depois de Guerra e Paz, uma pessoa talvez olhe para um plano com um pouco mais de desconfiança. Pode olhar para um desconhecido com mais curiosidade. Pode prestar atenção a uma conversa que parecia pequena. Pode lembrar que cada pessoa carrega uma história que desconhecemos. Pode perceber que aquilo que hoje parece central talvez desapareça amanhã, enquanto alguma coisa aparentemente insignificante permanecerá.
Parece uma espécie de consolação. A vida escapa. Ainda bem. Se tudo pudesse ser previsto, talvez a existência se tornasse apenas a execução de um projeto. Cada acontecimento ocuparia sua posição correta. Cada pessoa cumpriria sua função. Cada começo conduziria ao final previsto. Cada detalhe serviria para alguma finalidade.
Seria uma existência perfeitamente organizada. Também seria uma existência morta. A vida permanece viva porque alguma coisa sempre escapa.
Um encontro muda um destino. Uma doença altera uma agenda. Uma viagem apresenta uma pessoa. Uma pessoa desaparece. Um livro chega às mãos certas. Uma conversa acontece durante uma tarde qualquer. Um amigo termina uma leitura e comenta com outro amigo que acabou de terminar Guerra e Paz. Então alguém começa a escrever. E percebe que o assunto já deixou de ser Tolstói.
O assunto passa a ser a própria vida. É isso que os grandes livros fazem quando sobrevivem ao século que os produziu. Eles deixam de pertencer inteiramente ao escritor. Tornam-se instrumentos para pensar aquilo que cada leitor ainda está vivendo. Guerra e Paz nasceu de uma Rússia aristocrática, militar e imperial, atravessada pelas guerras napoleônicas; sua matéria histórica possui coordenadas precisas. A experiência que produz, entretanto, alcança uma dimensão muito maior. Orlando Figes observa essa capacidade de a obra continuar oferecendo novas significações a cada retorno.
Penso que a razão esteja naquela pequena verdade que Tolstói perseguiu durante toda a vida. A existência escapa às teorias. Escapa aos planos. Escapa às biografias. Escapa às explicações. Escapa até mesmo à literatura que tenta capturá-la. E, ainda assim, um escritor passa cinco anos escrevendo, centenas de personagens entram em cena, exércitos atravessam a Europa, famílias se apaixonam, pessoas morrem, outras nascem, Napoleão atravessa a Rússia, Pierre procura Deus, Natacha dança, Andrei contempla o céu, Platon Karatáiev fala sobre coisas simples, e alguém, muitos anos depois, fecha o volume.
A história acabou. A vida continua. Essa é a única vitória que podemos pedir. Continuar.

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