Quando as palavras deixam de convencer




Há épocas em que uma palavra envelhece antes de morrer. Continua circulando, aparece nos discursos, nos jornais, nos livros, nas conversas de família, nas campanhas eleitorais, nas cerimônias oficiais. Todo mundo a conhece. Todo mundo sabe pronunciá-la. O problema é que quase ninguém acredita mais nela.

Essa é uma das coisas mais difíceis de perceber numa sociedade. A morte de uma palavra acontece quando ela continua sendo usada depois que perdeu sua capacidade de convencer.

Hemingway viveu numa época em que algumas palavras estavam passando por esse processo. Honra, glória, sacrifício, heroísmo, pátria. A Primeira Guerra Mundial havia produzido uma quantidade industrial de cadáveres e, ao mesmo tempo, uma quantidade igualmente impressionante de discursos para explicar por que aqueles cadáveres eram necessários. A linguagem chegava sempre depois da artilharia para conferir dignidade ao que havia acontecido.

É possível que tenha sido aí que Hemingway aprendeu a desconfiar das palavras grandes.

Não sei se foi o jornalismo. Não sei se foi Pound, Gertrude Stein, a guerra ou simplesmente uma inteligência particularmente desconfiada. Provavelmente foi tudo isso. O fato é que ele descobriu uma coisa que parece banal até começarmos a pensar seriamente nela: uma palavra pode ser gramaticalmente correta e moralmente falsa.

É possível escrever “glória” numa frase perfeitamente construída e ainda assim estar mentindo. Isso deveria nos deixar um pouco mais desconfortáveis do que deixa.

Nós gostamos de pensar que as palavras servem para revelar o mundo. Às vezes elas servem para escondê-lo. Uma palavra abstrata pode colocar uma cortina diante de uma coisa concreta. “Sacrifício” pode esconder um homem morto. “Dano colateral” pode esconder uma criança. “Progresso” pode esconder uma floresta destruída. “Liberdade” pode aparecer tanto na boca de quem luta contra uma tirania quanto na de quem pretende apenas aumentar o próprio poder.

A história humana é, em parte, a história dessa habilidade extraordinária de encontrar palavras nobres para acontecimentos pouco nobres.

Hemingway percebeu o problema e decidiu olhar para as coisas diretamente. Porque desconfiava de quem falava em nome do abstrato. Um rio é um rio. Uma estrada é uma estrada. Uma aldeia destruída não precisa ser transformada em metáfora para provar que foi destruída.

Existe alguma honestidade nisso. Também existe uma tristeza. Porque, quando as grandes palavras perdem a credibilidade, não sobra necessariamente uma linguagem melhor, sobra apenas o silêncio.

É isso que torna O sol também se levanta um livro mais triste do que sua fama de romance sobre expatriados, festas, vinho, touradas e amores desencontrados poderia sugerir. Seus personagens vivem numa época em que se tornou difícil explicar por que qualquer coisa deveria importar.

Eles bebem porque beber é possível. Viajam porque viajar é possível. Fazem sexo porque o desejo continua existindo depois que as crenças desaparecem. Vão às touradas porque ainda existe alguma coisa naquela violência ritualizada que parece obedecer a regras. Conversam porque conversar é uma das poucas formas de passar o tempo.

A questão é que essas pessoas já não sabem muito bem o que fazer com aquilo que sentem. Essa é uma condição mais moderna do que gostaríamos de admitir.

Podemos viver sem uma teoria sobre a vida durante algum tempo. O problema aparece quando precisamos decidir. Amar alguém. Perdoar. Permanecer. Ir embora. Ter filhos. Não ter filhos. Ser fiel. Trair. Ajudar alguém. Aceitar uma perda. Recusar uma injustiça. Morrer por alguma coisa. Viver por alguma coisa.

Em algum momento, o corpo exige uma resposta que a inteligência não possui.

Jake Barnes é interessante porque vive exatamente nesse intervalo. Ele continua trabalhando, viajando, bebendo, conversando. Sua vida exterior possui alguma organização. Por dentro, porém, existe uma pergunta que não desaparece: como se vive quando aquilo que deveria orientar a vida perdeu a autoridade?

A modernidade resolveu muitas coisas e destruiu algumas outras que ainda não sabemos substituir.

Essa frase poderia parecer conservadora se fosse usada como uma condenação do presente. Não é disso que se trata. O passado também estava cheio de mentira, violência, superstição e crueldade. As grandes palavras nunca foram inocentes. Eram perigosas justamente porque permitiam que os homens acreditassem demais nelas.

O problema é outro. É que podemos descobrir que uma palavra era uma mentira e, ainda assim, precisar desesperadamente de alguma coisa para colocar em seu lugar.

Quando Deus deixa de organizar o mundo, alguma coisa precisa responder às perguntas que antes eram dirigidas a Deus. Quando a honra deixa de orientar o comportamento, alguma coisa precisa dizer por que devemos ser decentes. Quando a pátria já não basta, precisamos descobrir por que ainda devemos alguma coisa aos outros. Quando o progresso deixa de parecer uma promessa, precisamos encontrar uma razão para continuar construindo.

É por isso que a época contemporânea produz tantas pequenas filosofias. Trabalhe duro. Cuide de sua saúde. Seja produtivo. Ame a si mesmo. Tenha experiências. Viaje. Leia. Medite. Faça terapia. Invista. Empreenda. Desconecte-se. Conecte-se. Encontre seu propósito.

É curioso. Quanto menos acreditamos em grandes explicações para a existência, mais abundantes se tornam os manuais para administrá-la.

Cada época fabrica sua forma de consolo. A nossa parece preferir o conselho.

Hemingway ainda é útil porque não oferece esse tipo de consolo. Ele não sabe explicar por que a vida vale a pena. Seus personagens tampouco sabem. O máximo que conseguem fazer é distinguir algumas coisas das outras. Um vinho ruim de um vinho bom. Um toureiro verdadeiro de um farsante. Uma conversa honesta de uma mentira. Um gesto de uma pose.

É pouco. Mas a moral começa justamente quando paramos de esperar uma teoria completa.

Existe uma diferença entre saber o que é certo e saber por que o certo é certo. A primeira coisa ainda pode sobreviver quando a segunda desaparece. Podemos não possuir uma metafísica da bondade e, mesmo assim, perceber que humilhar alguém é repugnante. Podemos não saber definir a coragem e ainda reconhecer um homem corajoso. Podemos não acreditar em honra e ainda sentir vergonha quando traímos alguém que confiou em nós.

Esse é o último território da moralidade: aquilo que permanece depois que a filosofia foi embora.

Não é uma solução muito satisfatória. Na verdade, é quase uma solução desesperadora. Porque significa que talvez tenhamos de continuar fazendo algumas coisas boas sem saber exatamente por quê.

E é essa a situação de Jake Barnes. Ele não consegue formular uma moral consistente. Não consegue recuperar a religião. Não consegue ficar com Brett. Não consegue devolver ao próprio corpo aquilo que a guerra lhe tirou. Ainda assim, percebe a diferença entre algumas coisas. Sabe quando trai uma confiança. Sabe quando uma pessoa está sendo autêntica. Sabe que existe uma distância entre amar alguém e possuir alguém.

A lucidez não lhe devolve nada.

Esse é o ponto.

A literatura moderna costuma ser mais generosa com a lucidez do que a vida. Fazemos parecer que compreender alguma coisa já é uma forma de superá-la. Não é. Às vezes compreender é apenas adquirir um vocabulário mais preciso para descrever a própria derrota.

Hemingway sabia disso.

Penso que foi por isso que sua famosa economia tenha sido tão mal compreendida. O que importa é saber que aquilo que não foi dito continua presente. A frase curta não é necessariamente econômica. Pode carregar uma quantidade enorme de silêncio.

O imitador aprende a cortar. O escritor sabe o que está sendo cortado. Existe uma diferença entre silêncio e vazio. O vazio não tem nada dentro. O silêncio tem.

Creio que é justamente aí que a literatura ainda consiga fazer alguma coisa num mundo saturado de palavras. Não acrescentando mais palavras, mas nos ensinando a desconfiar delas. Um bom livro não precisa nos dizer em que acreditar. Às vezes basta nos mostrar o que acontece quando acreditamos facilmente demais.

Isso explica por que continuamos voltando a livros escritos há cem anos. Eles não encontraram respostas que nós perdemos, mas perceberam algumas perguntas antes de nós.

O mundo de Hemingway acabou há muito tempo. A guerra que aparece em seus livros pertence a outra geração. Paris mudou. Pamplona mudou. Os bares mudaram. As relações mudaram. A linguagem mudou.

A dificuldade, entretanto, permaneceu.

Continuamos tentando descobrir como viver depois que percebemos que as palavras não são confiáveis.

E é por isso que good -adjetivo fartamente utilizado na trama - pareça uma palavra tão pequena e, ao mesmo tempo, tão melancólica. Bom. Apenas bom. Nada de absoluto, nada de sublime, nada de eterno.

O vinho estava bom. O dia estava bom. A companhia estava boa. A vida poderia ter sido boa. Isso é tudo o que podemos afirmar sem mentir.

E há alguma coisa profundamente triste nisso. Depois de tantos séculos construindo sistemas filosóficos, religiões, ideologias e teorias para explicar a existência, podemos terminar reduzidos a uma palavra de quatro letras, usada para dizer que determinada coisa ainda conserva algum valor.

Fico me questionando se a civilização é essa tentativa interminável de encontrar palavras capazes de justificar nossa permanência no mundo.

E a literatura é o lugar onde descobrimos que nenhuma delas é suficiente. O sol continua se levantando. Isso não significa que tudo ficará bem. Significa apenas que amanhã haverá outro dia para tentar descobrir o que fazer com aquilo que restou.

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