Tchekhov e a estranha experiência de descobrir que talvez o acontecimento mais importante de uma existência seja aquilo que nunca chegou a acontecer
Há uma espécie de fraude narrativa na maneira como costumamos pensar a própria vida. Desde muito cedo aprendemos que uma história precisa de acontecimentos. Alguma coisa deve começar, outra deve acontecer, alguma coisa precisa mudar. Há um antes e um depois, uma crise, uma decisão, uma passagem. Mesmo quando não percebemos, organizamos nossa memória segundo esse princípio. Quando alguém nos pergunta como foi determinado período de nossa vida, procuramos acontecimentos: a mudança de cidade, o primeiro amor, o casamento, a separação, a morte de alguém, a aprovação num concurso, a demissão, a viagem, o nascimento de um filho, a publicação de um livro. A vida parece adquirir consistência retrospectivamente quando conseguimos transformá-la em narrativa.
Por isso Tchekhov permaneça tão desconcertante. Ele parece retirar da literatura justamente aquilo que esperamos encontrar nela: o acontecimento. Em suas histórias, pessoas conversam, esperam, lembram, desejam, hesitam, adoecem, tomam chá, caminham, trabalham, olham pela janela. Às vezes alguma coisa extraordinária se anuncia. Um amor parece possível. Uma mudança parece iminente. Uma decisão parece prestes a ser tomada. Um futuro inteiro parece se abrir diante de uma personagem. Então alguma coisa falha. A decisão é adiada. O amor não se realiza. A partida não acontece. O dinheiro não chega. A propriedade é perdida. As pessoas continuam vivendo. E é aí que começa o verdadeiro drama.
O que Tchekhov parece ter compreendido é que a maior parte da existência humana não se parece com um romance tradicional. Ela se parece muito mais com uma sucessão de possibilidades interrompidas. Passamos boa parte do tempo esperando que nossa vida finalmente comece. Há sempre alguma coisa depois: depois da formatura, depois do casamento, depois da mudança, depois da promoção, depois da aposentadoria, depois daquele projeto, depois daquele dinheiro, depois daquela conversa. A existência cotidiana é frequentemente uma sala de espera na qual esperamos por um acontecimento que dê sentido retrospectivo a tudo o que veio antes. Tchekhov percebeu que esse acontecimento nunca virá.
Essa é uma das razões pelas quais seus personagens nos pareçam tão próximos. Eles possuem uma característica pouco heroica: estão quase sempre atrasados em relação à própria vida. Percebem alguma coisa quando já é tarde. Descobrem que amavam quando já perderam a pessoa. Compreendem a própria infelicidade quando já não sabem como modificá-la. Pensam em partir quando já construíram uma existência da qual não conseguem escapar. Sonham com o futuro porque o presente lhes parece insuportável, mas o futuro funciona muitas vezes apenas como uma forma mais elegante de continuar parados.
O homem antigo podia imaginar que sua vida estava inscrita numa ordem maior — religiosa, política, cósmica ou comunitária. O homem moderno perdeu boa parte dessas garantias e recebeu em troca uma tarefa aparentemente libertadora: construir a própria vida. A liberdade, entretanto, contém uma armadilha. Se somos responsáveis por construir nossa existência, também podemos fracassar em construí-la. Passamos então a observar nossa própria vida como quem observa uma obra que nunca termina. O projeto está sempre incompleto. A pessoa que deveríamos ter sido continua esperando dentro da pessoa que somos.
Tchekhov não precisa transformar isso em tese. Ele não precisa dizer que seus personagens fracassaram. Não precisa explicar por que fracassaram. Não precisa sequer afirmar que fracassaram. Basta mostrar uma mulher olhando pela janela, um homem lembrando de uma antiga paixão, três irmãs falando de Moscou, uma família discutindo o destino de uma propriedade. A literatura começa quando o escritor abandona a obrigação de explicar o que aquilo significa. O leitor precisa permanecer ali, diante daquela existência que não se resolve.
É aqui que o cotidiano adquire uma importância que a literatura anterior lhe negava. Um gesto insignificante pode ocupar o mesmo espaço que uma morte. Uma conversa banal pode receber a mesma atenção que uma decisão histórica. Uma pessoa pode passar uma tarde inteira fazendo absolutamente nada e, ainda assim, essa tarde conter a matéria inteira de uma vida. O que muda é a escala com que observamos as coisas. A literatura convencional costuma perguntar: o que aconteceu? Tchekhov parece perguntar outra coisa: o que significa ter vivido este momento?
Se perguntarmos apenas o que aconteceu, quase todas as vidas serão decepcionantes. Pouquíssimas pessoas vivem acontecimentos dignos de biografia. A maioria trabalha, espera, conversa, paga contas, adoece, se apaixona algumas vezes, perde outras, compra coisas de que não precisava, arrepende-se de coisas que fez e de outras que não fez. A maior parte das vidas humanas jamais produzirá um clímax. E isso não significa que sejam vidas menores. Significa apenas que aprendemos a medir a existência por uma régua inadequada.
Tchekhov não precisa transformar o homem comum em herói para conferir importância à sua vida. Faz algo mais radical: elimina a necessidade de que uma vida seja excepcional para ser digna de atenção. Uma pessoa sentada numa sala já basta. Uma conversa entre duas pessoas já basta. Uma espera já basta. Um pequeno constrangimento social já basta. Uma lembrança que atravessa a consciência por alguns segundos já basta. O escritor precisa olhar para a vida.
Por isso os detalhes aparentemente insignificantes sejam tão importantes em sua obra. Eles não precisam funcionar como pistas de um enigma. Não é necessário imaginar que cada objeto esconda um símbolo secreto esperando a interpretação correta. O detalhe pode estar ali porque a realidade também é feita dessas coisas. Há um copo sobre a mesa. Uma janela aberta. Uma roupa inadequada. Um ruído distante. Uma pessoa que entra na sala. Outra que sai. Um animal passando ao fundo. Uma frase interrompida. A existência não foi construída por um romancista cuidadoso para que tudo tivesse função dramática. Ela acontece.
Nós queremos que tudo tenha sentido. Queremos acreditar que aquilo que nos aconteceu aconteceu por alguma razão. Gostamos de imaginar que nossos sofrimentos nos prepararam para alguma coisa, que nossos erros nos ensinaram uma lição, que determinada perda abriu caminho para uma conquista posterior. A narrativa é uma máquina extraordinária de produzir sentido. Pegamos acontecimentos dispersos e os organizamos até que pareçam necessários. Depois chamamos essa organização de nossa história.
Tchekhov se recusa a fornecer ao leitor a consolação de uma ordem artificial. As coisas acontecem, mas não necessariamente conduzem umas às outras. As pessoas fazem escolhas, mas nem sempre suas escolhas produzem consequências proporcionais. O sofrimento pode não gerar sabedoria. O amor pode não produzir felicidade. O arrependimento pode chegar tarde demais. Uma pessoa pode compreender perfeitamente o que deveria fazer e continuar incapaz de fazê-lo.
Se a vida não precisa obedecer à lógica de uma história bem construída, podemos abandonar a obrigação de encontrar uma moral para tudo. Uma perda não precisa ter sido necessária para nos transformar em pessoas melhores. Um fracasso não precisa ter sido uma etapa indispensável para o sucesso. Uma oportunidade perdida não precisa ser reinterpretada como parte de algum plano secreto. Algumas coisas simplesmente acontecem. Outras não acontecem. Algumas pessoas ficam. Outras vão embora. Algumas possibilidades se realizam. A maioria desaparece.
É possível que nossa angústia venha justamente do excesso de possibilidades que carregamos conosco. Cada decisão elimina outras vidas possíveis. Quando escolhemos uma profissão, não escolhemos apenas uma profissão: abandonamos todas as outras pessoas que poderíamos ter sido. Quando permanecemos numa cidade, renunciamos às cidades que não conhecemos. Quando nos casamos, deixamos de viver uma infinidade de histórias amorosas possíveis. Quando recusamos uma oportunidade, aquela porta passa a existir dentro de nós como uma pequena hipótese contrafactual.
É nesse território que Tchekhov se torna um escritor das vidas não vividas.
O mais doloroso em suas personagens é a distância entre a vida efetiva e as vidas imaginadas. E essa distância não pode ser eliminada porque nenhuma existência consegue realizar todas as suas possibilidades. Viver significa escolher uma possibilidade e condenar inúmeras outras à inexistência.
O futuro é o lugar perfeito para as pessoas que não conseguem agir no presente. No futuro tudo é possível porque nada ainda foi decidido. No futuro as pessoas serão melhores, trabalharão mais, amarão melhor, viajarão, construirão uma sociedade mais justa, encontrarão um sentido. O futuro é uma espécie de paraíso para os indecisos porque nele a possibilidade ainda não foi obrigada a se transformar em realidade.
Mas o futuro chega. E quando chega deixa de ser futuro. Passamos anos esperando uma vida que, quando finalmente chega, imediatamente se transforma em presente. E o presente nunca parece suficientemente grandioso. O momento que imaginávamos como realização é apenas mais uma terça-feira. O dia pelo qual esperamos durante anos contém contas a pagar, pequenas irritações, uma refeição, uma mensagem no celular e alguma coisa esquecida sobre a mesa.
Esse é o segredo do realismo de Tchekhov. Ele transforma a literatura em vida. Transformar a vida em literatura significa procurar nela os elementos que consideramos narrativamente importantes. Transformar a literatura em vida significa aceitar que o importante pode não parecer importante. O escritor precisa aprender a olhar para aquilo que uma narrativa convencional eliminaria.
Por isso Tchekhov pode ser lido como um escritor da atenção. Ele não está necessariamente dizendo que tudo possui um significado oculto. Está tratando tudo como digno de ser visto. Esperamos o fechamento porque confundimos o fim do texto com o fim da história. Quando um romance termina com uma morte, um casamento, uma revelação ou uma vingança, sentimos que recebemos uma conclusão. O texto termina, mas a vida continua.
A morte de uma personagem não encerra o mundo. O divórcio não encerra a vida. A perda da propriedade não encerra o tempo. Mesmo uma grande catástrofe é um acontecimento dentro de uma continuidade muito maior. Depois da última página, alguém precisa continuar vivendo.
A literatura tradicional frequentemente constrói o mundo para que ele caiba dentro da história. Tchekhov parece fazer o contrário: constrói histórias que nos devolvem a um mundo grande demais para caber nelas.
No final do livro, o escritor decide parar de olhar, mas aquilo para o qual estava olhando continua existindo. A personagem que abandonamos na última página continuará envelhecendo em algum lugar da nossa imaginação. O casal que finalmente compreendeu alguma coisa continuará tendo de viver depois da compreensão. A pessoa que perdeu uma oportunidade continuará acordando no dia seguinte.
Uma história pode nos ensinar a perceber que alguma coisa aconteceu dentro de alguém, mesmo quando nada aconteceu fora dela. Uma pessoa pode sair de uma sala exatamente igual à maneira como entrou e, ainda assim, ter atravessado uma fronteira invisível. Pode compreender uma frase. Recordar um rosto. Perceber uma mentira. Descobrir que está envelhecendo. Entender que ama alguém. Perceber que já não ama. Ou simplesmente experimentar, durante alguns segundos, a consciência absurda de estar vivo.
Nenhum desses acontecimentos produziria uma manchete. Mas todos podem sustentar uma história. Vivemos cercados de acontecimentos. Recebemos notícias continuamente, acompanhamos crises em tempo real, assistimos a guerras, escândalos, tragédias, sucessos e fracassos de pessoas que jamais conheceremos. Nossa atenção é disputada por acontecimentos que chegam até nós já editados segundo uma hierarquia de importância. Tudo precisa ser urgente. Tudo precisa ser comentado. Tudo precisa produzir uma reação.
E, no entanto, nossa vida continua acontecendo enquanto esperamos uma resposta. Enquanto fazemos café. Enquanto lavamos uma louça. Enquanto caminhamos até algum lugar. Enquanto alguém fala e nós fingimos prestar atenção. Enquanto lembramos de uma pessoa que não vemos há anos. Enquanto adiamos uma decisão. Enquanto imaginamos uma conversa que provavelmente nunca teremos. Enquanto percebemos, sem motivo aparente, que determinada fase da vida acabou.
Tchekhov compreendeu que o acontecimento externo e a experiência interior obedecem a tempos diferentes. O mundo pode não mudar. Uma pessoa pode mudar completamente. E o contrário também é verdadeiro. O mundo pode mudar completamente sem que a pessoa consiga perceber.
A corda pode estar esticada durante anos. Ninguém sabe exatamente quando irá romper. Talvez já tenha rompido e ainda não tenhamos percebido. A ruptura pode ser histórica, política, íntima. Pode ser o instante em que alguém finalmente compreende que não voltará para casa. O importante é que Tchekhov não precisa explicar o que a ruptura significa. Basta escutarmos o som. Depois disso, a vida continua.
Essa é a razão última pela qual sua literatura produz uma sensação tão curiosa: uma tristeza que não é exatamente desespero. Há melancolia, fracasso, doença, envelhecimento, oportunidades perdidas, amores que não chegam a se realizar. Mas há também uma atenção quase religiosa ao fato bruto de que as coisas existem. O mundo não precisa oferecer uma redenção para continuar sendo digno de contemplação.
Tchekhov não transforma a literatura em manual de conduta. Não nos entrega uma resposta depois de apresentar o problema. Permanece conosco diante da pergunta. E uma boa parte da maturidade consiste em aprender a suportar perguntas sem transformá-las imediatamente em respostas.
Afinal, a nossa vida é muito menos parecida com uma história do que imaginamos. Não existe um enredo oculto esperando para ser descoberto. Não estamos caminhando necessariamente para algum lugar. Somos só pessoas atravessando acontecimentos, acumulando lembranças, perdendo possibilidades, encontrando outras, esperando, errando, desejando e, de vez em quando, percebendo alguma coisa.
Isso não torna a existência menor, mas a torna estranha. E é justamente essa estranheza que Tchekhov aprendeu a olhar melhor do que quase todos os outros escritores. Ele percebeu que uma pessoa pode passar anos esperando por aquilo que nunca virá. Que uma tarde aparentemente vazia pode conter uma existência inteira. Que o mais importante pode ser aquilo que não produziu nenhuma consequência visível.
No fim, é possível que tenhamos passado a vida tentando não perceber que a vida já estava acontecendo. O tempo todo.

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