O livro que esperava na estante

Durante anos, pensei que a Bíblia Hebraica permanecesse imóvel enquanto minha vida seguia adiante. Bastou reabri-la para descobrir que certos livros também esperam que o leitor envelheça.

Retirei a Bíblia Hebraica da estante para procurar uma passagem sobre Jacó. A lombada, exposta durante anos à claridade da janela, havia perdido um pouco da cor, enquanto as páginas conservavam a rigidez dos livros comprados com entusiasmo e lidos com parcimônia. Havia nela uma fita marcadora ainda presa ao começo do Levítico, testemunho de uma tentativa anterior, encerrada diante das prescrições sobre sacrifícios, impurezas, animais permitidos e minúcias sacerdotais que minha impaciência julgara incapazes de competir com os romances acumulados ao lado. Reencontrei também uma anotação a lápis, escrita com a confiança de quem pretende voltar na semana seguinte. A data pertencia a outro ano. Talvez possuir um livro seja a primeira forma de adiarmos sua leitura: concedemos a ele um lugar na casa e tomamos essa hospitalidade por intimidade.

Eu conhecia as histórias bíblicas desde a infância. Adão surgia coberto por uma folha cuidadosamente colocada pelos ilustradores; Noé atravessava o dilúvio acompanhado por animais disciplinados; Moisés erguia o cajado diante de um mar que já sabíamos que se abriria. José usava uma túnica colorida, Davi enfrentava o gigante e Daniel repousava entre leões convertidos, por alguma licença da imaginação religiosa, em grandes animais domésticos. Os episódios chegavam prontos, acompanhados de uma explicação moral. A obediência recebia sua recompensa, a confiança afastava o medo, a providência dispunha os acontecimentos segundo uma ordem legível. Durante muito tempo, li a Bíblia como quem visita um museu depois de ter visto todas as peças reproduzidas nos livros escolares. Eu reconhecia as imagens e passava adiante.

Naquela tarde, abri o Gênesis no capítulo trinta e dois. Jacó retornava à terra de onde fugira. Muitos anos antes, havia enganado o pai cego, roubado a bênção destinada ao irmão e partido levando consigo a habilidade que orientaria boa parte de sua vida: sobreviver por meio da astúcia. Agora regressava rico, acompanhado por mulheres, filhos, servos e rebanhos. Esaú vinha ao seu encontro com quatrocentos homens. Jacó dividiu o acampamento, enviou presentes adiante e calculou as perdas possíveis. Depois atravessou a família pelo vau do Jaboque e permaneceu sozinho. Aqui o texto abandona a logística do medo e entra numa região obscura. “E lutou com ele um homem até o romper do dia.” O narrador apresenta o adversário com uma palavra genérica e preserva seu nome em segredo. Homem, anjo, divindade, irmão, lembrança: há séculos os intérpretes tentam iluminar aquela figura, e cada explicação projeta uma sombra diferente sobre a luta.

Jacó exige uma bênção. O adversário toca a articulação de sua coxa e a desloca. Em seguida, pergunta seu nome, como se já o soubesse. Dizer “Jacó” significa confessar também a história contida nesse nome: aquele que segura o calcanhar, aquele que suplanta, aquele que toma o lugar de outro. O desconhecido então lhe dá um novo nome, Israel, e desaparece antes do amanhecer. Jacó atravessa o rio e segue em direção ao irmão. Leva consigo a bênção desejada e uma lesão definitiva. Essa foi a passagem que encontrei quando retomei a Bíblia como literatura: um homem volta para casa, enfrenta durante a noite algo que o texto se recusa a identificar e descobre, ao nascer do sol, que o retorno cobra uma mudança no modo de caminhar.

Há uma palavra hebraica associada a esse movimento: teshuvá. Costuma ser traduzida como arrependimento, embora sua raiz designe o ato de voltar. Arrependimento pode permanecer na consciência, como sentimento ou remorso; teshuvá pede deslocamento. Quem retorna precisa interromper a direção em que seguia, reconhecer a distância percorrida e refazer o caminho. Dentro da tradição judaica, o termo possui uma gravidade moral e religiosa que uma metáfora literária jamais esgota. Minha relação com o judaísmo passa menos pelos ritos da observância do que pelos livros. Shabat, kashrut e tefilá ainda me chegam como palavras de uma disciplina que admiro à distância. Minha teshuvá, se posso empregar o termo com esse cuidado, ocorreu pela leitura. Voltei ao texto sem me converter no leitor que ele parecia solicitar, levando comigo dúvidas, resistências e a suspeita de que uma escritura talvez revele mais quando deixamos de exigir dela uma confirmação.

A descoberta produziu um paradoxo. Quanto menor era minha disposição para ler a Bíblia como um manual de certezas, maior se tornava meu assombro diante dela. O Gênesis começava com a criação do mundo e chegava ao assassinato do primeiro irmão em poucas páginas. Noé sobrevivia ao dilúvio e reaparecia bêbado e nu dentro da tenda. Abraão recebia a promessa de uma descendência e passava a vida ameaçado pela esterilidade, pela fome e pela própria disposição de sacrificar o filho em quem a promessa deveria cumprir-se. Sara ria da palavra divina. Rebeca organizava o engano que decidiria o destino dos filhos. Judá condenava Tamar até reconhecer os objetos que provavam sua própria responsabilidade. José salvava do extermínio os irmãos que o haviam vendido, depois de submetê-los a uma série de testes cuja crueldade o texto permite perceber. As famílias bíblicas pareciam pouco interessadas em proteger a reputação de seus patriarcas.

A leitura religiosa tantas vezes transformara essas figuras em estátuas. A literatura devolvia-lhes o sangue. Abraão mentia, Jacó trapaceava, Moisés perdia a paciência, Davi desejava a mulher de um homem enviado por ele à morte. Deus falava do interior de uma sarça e depois se escondia por capítulos inteiros. Havia grandeza nessas páginas, acompanhada por passagens que provocavam horror: cidades destruídas, povos destinados ao extermínio, mulheres entregues à violência, filhos esmagados pelas decisões dos pais. Retomar a Bíblia exigia entrar também nessas câmaras. Uma casa ancestral pode acolher e assombrar; algumas de suas paredes conservam manchas que a iluminação piedosa aprendeu a contornar. Ler seriamente significava permanecer diante delas.

Essa dificuldade talvez explique uma parte da longevidade do texto. Livros compostos apenas por respostas envelhecem quando as perguntas mudam. A Bíblia sobreviveu porque guardou dentro de si os conflitos que seus redatores poderiam ter apagado. O livro de Jó concede aos amigos do homem ferido longos discursos em defesa da justiça divina e, ao mesmo tempo, faz com que essa eloquência se revele insuficiente diante do sofrimento de um inocente. O Eclesiastes contempla as realizações humanas e percebe sobre elas a passagem do vento. Os Salmos alternam confiança, terror, louvor, ressentimento e desejo de vingança. Dois relatos da criação permanecem lado a lado no começo do Gênesis. Os livros dos Reis e das Crônicas organizam de maneiras distintas parte da mesma memória política. Em lugar de uma voz uniforme, encontramos uma assembleia que atravessou séculos discutindo consigo mesma.

A Bíblia Hebraica foi composta, reunida e editada ao longo de um processo cuja cronologia permanece objeto de debate. Tradições orais passaram à escrita; leis foram agrupadas e reinterpretadas; narrativas antigas receberam novas molduras; escribas preservaram diferenças que os leitores posteriores tentariam harmonizar. Israel viveu entre civilizações maiores e mais poderosas, em contato com repertórios egípcios, mesopotâmicos, cananeus, persas e gregos. A história do dilúvio recorda tradições mesopotâmicas anteriores. Provérbios bíblicos conversam com textos sapienciais do Egito. Leis apresentam parentescos com outros códigos do antigo Oriente Próximo. A singularidade do conjunto nasceu dessa circulação. Um povo pequeno recolheu materiais de um mundo vasto e lhes dirigiu uma pergunta própria: como atravessar a história sem desaparecer dentro dela?

Reinos foram destruídos, cidades incendiadas, populações deportadas, línguas imperiais sucederam umas às outras. A preservação do texto exigiu uma cadeia improvável de escribas, professores, tradutores e comunidades. A fé pode chamar essa sobrevivência de providência. Um leitor secular encontra nela uma espécie diferente de milagre, feito de trabalho humano, disciplina e obstinação. Alguém copiou cada palavra. Alguém ensinou uma criança a pronunciá-la. Alguém levou um rolo durante a fuga. Alguém discordou de uma interpretação e registrou a divergência para que ela também chegasse ao futuro. O livro atravessou Babilônia, Alexandria, Jerusalém, Roma, academias rabínicas, mosteiros, guetos, universidades e oficinas de impressão. Muitos dos impérios que ameaçaram seus leitores sobrevivem hoje como capítulos explicativos nas edições anotadas da obra que pretendiam destruir.

Jonathan Sacks, que estudou filosofia em Cambridge e Oxford antes de se tornar rabino-chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth, recorria a uma imagem para explicar a responsabilidade da herança. Ele pedia que imaginássemos o mundo como uma biblioteca imensa. Caminhamos por seus corredores até encontrar um livro com nosso nome. Ao abri-lo, percebemos que suas páginas foram escritas por muitas mãos e em diferentes línguas. Cada antepassado acrescentou um capítulo e o entregou aos descendentes. No final, encontramos uma página vazia com nosso nome inscrito sobre ela. A imagem possui a elegância das parábolas destinadas a permanecer na memória. Também carrega uma condição que merece ser examinada: pressupõe que o livro tenha sobrevivido e que alguém ainda reconheça o nome na lombada.

Muitas famílias receberam apenas fragmentos. Escravidão, colonização, migrações forçadas e perseguições religiosas interromperam genealogias inteiras. Para milhões de pessoas, o livro ancestral apresenta páginas arrancadas, nomes trocados, idiomas esquecidos e silêncios produzidos por quem controlava os arquivos. Alguns descendentes precisam procurar a própria história nos documentos escritos por senhores, policiais, missionários e funcionários do Estado. A metáfora de Sacks torna-se ainda mais poderosa diante dessa ausência. A Bíblia é a obra de um povo que conheceu repetidamente a possibilidade de perder seu nome. A ordem para recordar aparece tantas vezes porque o esquecimento representava um perigo político. Contar aos filhos aquilo que havia acontecido aos pais era uma forma de impedir que a derrota se tornasse desaparecimento.

Com o passar dos séculos, outros leitores encontraram seus nomes naquele livro. O cristianismo incorporou as escrituras judaicas ao seu cânone e as chamou de Antigo Testamento, expressão que também serviu para organizar a história de modo que uma tradição aparecesse como preparação da outra. A apropriação gerou continuidade religiosa, invenção artística e uma longa história de leituras que frequentemente reduziram o judaísmo a uma etapa superada. O Islã retomou Abraão, José, Moisés, Davi, Salomão e outros personagens, inserindo-os em sua própria concepção da revelação. As mesmas figuras atravessaram línguas e comunidades, assumindo sentidos distintos. A família humana que hoje reconhece essas histórias é numerosa; sua convivência ao redor do livro foi marcada por diálogo, disputa e sangue.

Até a ordem dos volumes participa da interpretação. Nas Bíblias cristãs, o Antigo Testamento costuma terminar com Malaquias e sua expectativa profética. Na ordenação judaica consagrada por muitas edições impressas e por uma antiga tradição talmúdica — embora os manuscritos hebraicos apresentem variações —, o último livro é Crônicas. O versículo final traz o decreto de Ciro, rei da Pérsia, permitindo que os exilados retornem a Jerusalém e reconstruam o templo. A última palavra é veya‘al: “que suba”. Crônicas termina lançando o leitor para fora do livro. Jerusalém espera ser reconstruída, o exílio ainda pesa sobre a memória e alguém precisa iniciar a viagem. O mesmo conjunto de escritos, disposto em outra sequência, produz outro destino. A edição já constitui uma forma de exegese.

A tradição judaica converteu esse caráter inacabado numa disciplina de leitura. O Pentateuco foi dividido em porções semanais, as parashot, lidas ao longo do calendário. Quando Deuteronômio chega à morte de Moisés, o ciclo retorna ao início do Gênesis. A criação sucede imediatamente ao desaparecimento do legislador. O mundo começa outra vez. Essa leitura contraria a maneira como costumamos tratar os livros: avançamos pelas páginas, registramos a conclusão e seguimos para o volume seguinte. A Torá propõe um livro cuja conclusão exige o recomeço. Aos vinte anos, Abraão pode parecer o homem que aceita a aventura. Décadas depois, surge como alguém que envelheceu esperando o cumprimento de uma promessa. José começa como o jovem vaidoso que descreve sonhos à mesa e reaparece como um homem empenhado em construir uma interpretação suportável para a violência cometida pelos irmãos. O sacrifício de Isaac muda quando o leitor se torna pai. A morte de Moisés ganha outro peso depois que descobrimos a experiência de conduzir pessoas até um lugar no qual talvez nunca entremos.

O texto permanece; quem circula somos nós. Voltamos ao mesmo capítulo levando mortes, filhos, separações, derrotas, responsabilidades e pequenas vergonhas adquiridas desde a leitura anterior. Cada passagem parece ter esperado uma versão específica do leitor. A leitura cíclica se aproxima de uma espiral: reencontramos as mesmas palavras a partir de outra altura, talvez mais perto de um núcleo que continua oculto. A distância entre duas leituras mede também aquilo que o tempo fez conosco.

Quando comecei a escrever semanalmente sobre a Bíblia, planejei cinquenta e quatro textos, um para cada porção do ciclo anual. O número produzia a ilusão tranquilizadora de uma forma completa. Haveria um começo, um calendário e uma última entrega. A vida interferiu com sua conhecida falta de respeito pelos projetos bem numerados. Vieram trabalhos urgentes, viagens, cansaço, acontecimentos familiares e semanas em que a leitura se mostrou maior do que o texto que eu conseguia escrever. O projeto parou antes do final. Durante algum tempo, contemplei as edições já publicadas como quem observa as ruínas de uma construção abandonada e tenta decidir se ainda vale a pena trazer de volta os operários.

A interrupção, percebi depois, pertencia ao próprio assunto. A Bíblia também foi feita de retomadas. Seus redatores receberam fragmentos, narrativas inconclusas, leis de outras épocas, listas de nomes cujo significado havia se tornado obscuro. Trabalharam sobre aquilo que sobrevivera. Cada geração de intérpretes encontrou problemas deixados pela anterior e acrescentou novos. O comentário judaico tornou visível essa continuidade: o texto ocupa um espaço na página e as vozes de épocas diferentes se acumulam ao redor dele, discordando através dos séculos. A página deixa de representar o pensamento de uma única pessoa e passa a parecer uma mesa em torno da qual os mortos ainda discutem.

Todo coro, entretanto, possui uma distribuição desigual de vozes. Algumas receberam espaço para cantar; outras chegaram até nós em uma frase atribuída aos adversários. A escrita bíblica dependia de grupos com acesso à educação, aos arquivos e às instituições religiosas. Preservar significava também selecionar. Livros desapareceram, tradições foram absorvidas, memórias locais cederam lugar a projetos de centralização política e sacerdotal. A obra coletiva guarda os sinais dessas disputas, embora raramente permita reconstruir por inteiro a voz dos vencidos. Ler o texto como produto de muitas mãos significa reconhecer tanto sua pluralidade quanto as ausências produzidas durante sua formação.

Essa consciência afasta uma veneração fácil. Aproximamo-nos de uma biblioteca que preserva a experiência humana em sua grandeza e em sua brutalidade. Há leis que protegeram estrangeiros, pobres, viúvas e órfãos; há passagens usadas para legitimar conquista, escravidão, submissão e massacre. Há profetas que enfrentam reis; há sacerdotes que transformam o sagrado em administração minuciosa. Há mulheres que alteram o destino coletivo e genealogias que quase apagam seus nomes. Ao longo dos séculos, leitores recorreram à Bíblia para libertar escravizados e para exigir sua obediência, para denunciar impérios e para abençoá-los. A permanência de um livro constitui uma realização cultural; o uso que fazemos dele permanece uma responsabilidade moral. Alguns livros fazem sentido no instante da leitura; outros permanecem conosco até que a vida forneça a pergunta.

Fechei a Bíblia naquela tarde e mantive o marcador no capítulo da luta. Pela janela, a mesma claridade que desbotara a lombada avançava sobre a página. Jacó atravessava o rio ao nascer do sol, ferido e vivo, em direção ao irmão que enganara. Esaú o aguardava com quatrocentos homens, e o texto ainda escondia do patriarca aquilo que o leitor descobriria alguns versículos depois: o irmão correria ao seu encontro, o abraçaria e choraria com ele. Durante anos, eu acreditara que a Bíblia permanecia imóvel na estante enquanto minha vida seguia adiante. Naquele instante, ocorreu-me uma possibilidade mais inquietante. O livro estivava em movimento havia séculos. Atravessou línguas, exílios, incêndios e gerações para chegar àquela casa, naquela tarde, aberto sobre minhas mãos. Certos textos também precisem esperar que o leitor adquira a ferida com a qual será capaz de reconhecê-los.

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