Há uma tentação compreensível, quando se descobre uma teoria capaz de iluminar uma quantidade extraordinária de comportamentos humanos, de começar a reescrever o mundo inteiro segundo ela. Ando pensando muito na teoria mimética. Fiquei imaginando que é possível tomar boa parte da psicologia contemporânea e traduzi-la para a linguagem de René Girard. Não penso em realizar um exercício acadêmico, nem projeto destinado à publicação, mas uma espécie de experimento intelectual privado: observar o que acontece quando aquilo que a psicologia chama de autoestima, insegurança, ambição, ressentimento, narcisismo ou necessidade de reconhecimento passa a ser lido a partir do desejo mimético.
A vantagem seria perceber que boa parte daquilo que chamamos de desejo pessoal talvez tenha muito pouco de pessoal. Queremos coisas porque outros as querem. E, sobretudo, queremos ser aquilo que imaginamos que determinados outros reconhecem como desejável. A questão psicológica muda de natureza quando se percebe que o sujeito raramente está sozinho diante do objeto. Entre ele e aquilo que deseja existe um terceiro: o modelo.
É por isso que certas ambições humanas possuem uma qualidade tão estranha. Queremos emagrecer, enriquecer, aprender francês, publicar um livro, frequentar determinado restaurante, morar em determinado bairro, estudar em determinada universidade. Tudo isso pode parecer perfeitamente racional quando descrito isoladamente. O problema começa quando perguntamos para quem estamos fazendo aquilo.
É uma pergunta incômoda.
Você quer ficar rico. Para quê? Para ter liberdade? Talvez. Para não depender de ninguém? É possível. Para proporcionar conforto à família? Certamente. Mas, em algum momento, aparece uma figura que não deveria estar ali: alguém que você afirma desprezar. O sujeito que o esnobou. O colega que não acreditou em você. A família que o tratou como inferior. O grupo social que parecia dizer, silenciosamente, que você não pertencia àquele lugar.
Então a riqueza passa a ser uma mensagem. Você não quer apenas possuir. Quer que alguém veja que você possui. É aqui que a teoria mimética se torna particularmente cruel, porque ela desmonta a fantasia de autonomia que sustenta boa parte de nossas ambições. O ressentido imagina estar se libertando daquele que o desprezou quando, na realidade, organiza a própria vida em torno dele. O desprezado dedica anos à construção de uma existência cuja finalidade secreta é produzir uma testemunha imaginária. Tudo o que faz parece dizer: veja onde cheguei.
Há algo de profundamente infantil nisso, embora a idade adulta seja justamente o período em que aprendemos a sofisticar essa estrutura.
O menino quer o brinquedo do colega. O adulto quer o apartamento do colega, a biblioteca do colega, a viagem do colega, o título acadêmico do colega, o corpo do colega, a reputação do colega. A diferença está menos no desejo do que na qualidade dos objetos que conseguimos mobilizar para justificá-lo.
A literatura do século XIX percebeu isso muito antes da psicologia contemporânea, e talvez com uma precisão que a psicologia, em sua obsessão classificatória, às vezes perdeu. Stendhal compreendeu que Julien Sorel é um homem que deseja através dos outros. Quer Paris porque Paris representa aquilo que ele não possui. Quer os salões aristocráticos porque eles representam uma forma de existência que lhe foi negada. Quer a admiração daqueles que despreza porque, precisamente, são eles que possuem o poder de conferir valor à sua ascensão.
Julien pode tornar-se mais culto, mais corajoso, mais inteligente e mais talentoso do que muitos daqueles que o cercam. Isso pouco resolve. A distinção social não se reduz à soma das competências individuais. Há gestos, hábitos, referências, maneiras de falar, lugares frequentados, memórias familiares, pequenas familiaridades que funcionam como senhas de pertencimento. O aristocrata reconhece o aristocrata por aquilo que ambos aprenderam sem precisar aprender.
O biscoito da tia Maricota pode valer mais, socialmente, do que uma biblioteca inteira.
Essa é uma das coisas que o nosso tempo descobriu com grande atraso: a distinção raramente está no objeto. Está na relação que se estabelece com ele. Não basta ter dinheiro. É preciso saber como alguém que sempre teve dinheiro usa o dinheiro. Não basta conhecer francês. É preciso ter a naturalidade de quem jamais precisou provar que conhece francês. Não basta estudar em uma grande universidade. É preciso possuir aquela espécie de indiferença diante da instituição que só existe quando ela nunca foi uma conquista extraordinária.
Daí a proliferação contemporânea das microdistinções.
O mercado de distinções tornou-se tão sofisticado que já não basta ser rico. É preciso ser rico de determinada maneira. Não basta vestir-se bem. É preciso parecer que você não tentou vestir-se bem. Não basta possuir. É preciso possuir sem parecer que possuir lhe interessa. Inventamos expressões para descrever aquilo que antes era transmitido por uma simples familiaridade social: quiet luxury, old money, capital simbólico. O vocabulário muda porque o mecanismo permanece.
E aqui aparece o pequeno Julien Sorel contemporâneo.
Ele estudou. Aprendeu línguas. Leu os livros certos. Obteve diplomas. Viaja. Frequenta restaurantes. Conhece vinhos, arquitetura, história da arte. Publica textos. Constrói uma reputação. Em algum momento, porém, percebe que continua do lado de fora.
E então começa a perguntar por quê. A resposta costuma ser uma nova camada de distinção. Falta-lhe capital simbólico. Falta-lhe repertório. Falta-lhe networking. Falta-lhe origem. Falta-lhe a aparência adequada de quem pertence. Falta-lhe alguma coisa que, convenientemente, nunca é aquilo que ele acabou de conquistar.
Ele pode até denunciar os ricos. Pode escrever contra a elite. Pode publicar ensaios sobre a violência simbólica das classes dominantes. Pode explicar, com grande competência sociológica, os mecanismos pelos quais as classes superiores reproduzem seus privilégios.
E ainda assim pode desejar secretamente que elas o convidem para jantar. Essa é a parte mais difícil de admitir. A denúncia pode ser uma forma sofisticada de súplica.
Uma das maiores ironias do nosso tempo é que o esnobado aprendeu a falar a linguagem da crítica social sem necessariamente abandonar o desejo de ser reconhecido pelo objeto de sua crítica. A crítica pode transformar-se, assim, numa modalidade de aproximação. Eu denuncio o seu mundo porque quero que você perceba que compreendo o seu mundo. Quero que você reconheça que sou suficientemente inteligente para desvendá-lo. Quero, no fundo, aquilo que a teoria mimética identifica como o centro secreto de tantas rivalidades: quero ser como você, quero possuir aquilo que você possui, quero que você reconheça meu valor e, ao mesmo tempo, preciso acreditar que desprezo aquilo que desejo.
É uma posição psicologicamente confortável porque permite conservar duas coisas incompatíveis: a superioridade moral e a inferioridade social.
O problema é que nenhuma das duas produz pertencimento.
Por isso o sujeito continua comprando coisas que não deseja para impressionar pessoas de quem não gosta. Continua acumulando símbolos de uma classe à qual gostaria de pertencer enquanto insiste em afirmar que não deseja pertencer a ela. Continua trabalhando até a exaustão para alcançar uma vida que, examinada com alguma honestidade, talvez nem queira viver.
A teoria mimética oferece aqui uma hipótese devastadora: o nosso sofrimento não vem apenas de não termos aquilo que desejamos. Está mais associado ao ato de descobrir, tarde demais, que desejamos aquilo porque alguém nos ensinou a desejá-lo.
Nesse caso, a verdadeira liberdade não estaria em conseguir finalmente o objeto, mas em deixar de precisar da testemunha.
Julien Sorel compreende isso tarde demais. A tragédia passa pela sua derrota social, suas escolhas amorosas, pelo destino que o espera. Até chegar na descoberta de que passou a vida inteira disputando uma posição cujo valor dependia justamente do olhar daqueles que determinavam quem podia ocupá-la.
Penso que essa é uma pequena contribuição da literatura para uma psicologia ainda excessivamente preocupada em nomear sintomas. Ela nos mostra que algumas doenças da alma não precisam de diagnóstico porque já possuem personagens.
O homem que trabalha para impressionar quem despreza já foi escrito. A mulher que transforma sua vida numa resposta a quem a rejeitou já foi escrita. O intelectual que denuncia incessantemente a elite enquanto espera ser recebido por ela já foi escrito. O jovem que confunde ascensão social com liberdade já foi escrito. Não precisamos de novos personagens, basta reler os antigos.
E, sobretudo, perguntar diante de cada uma de nossas grandes ambições: quem está olhando?
Porque pode acontecer de passarmos metade da vida tentando conquistar alguma coisa e a outra metade descobrindo que o verdadeiro objeto do nosso desejo nunca foi aquilo que conquistamos.
Era o olhar de alguém.
E, quando finalmente conseguimos esse olhar, talvez já não saibamos mais o que fazer com ele.
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