Entre Tolstói e Pamuk


Na última vez em que encontrei Rafael em São Paulo, acabamos no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, procurando uma livraria para visitar. Rafael tem levado a sério um projeto que começou há algum tempo: ler alguns dos grandes clássicos da literatura. Naquele momento, carregava consigo mais um Tolstói, provavelmente porque Guerra e Paz ainda não lhe parecia suficiente. Rafael entrou na livraria parecendo procurar uma vida inteira.

O Conjunto Nacional tem uma espécie de memória literária que ficou mais triste depois que a Livraria Cultura fechou. Durante anos, aquela livraria ocupou um lugar que ultrapassava o comércio de livros. Era possível entrar ali sem saber exatamente o que se procurava e sair algum tempo depois com um livro que sequer estava nos planos. A Cultura entrou em recuperação judicial em 2018, acumulando uma dívida declarada de R$ 285,4 milhões, e teve a falência decretada pela Justiça em fevereiro de 2023. A sentença mencionou o descumprimento do plano de recuperação e dificuldades financeiras que vinham se prolongando havia anos.

Era uma situação melancôlica a nossa, mas lá estávamos. As lojas mudam, os letreiros desaparecem, os espaços recebem outras atividades. Os livros continuam existindo em algum lugar. A impressão de perda permanece.

Rafael e eu estávamos um pouco tristes com aquilo. São Paulo possui livrarias excelentes, algumas pequenas e encantadoras, outras enormes, mas a Cultura tinha uma coisa que dificilmente se repete: dava a impressão de que o mundo inteiro estava reunido ali em prateleiras. Literatura brasileira, filosofia, história, política, arte, romances russos, autores turcos, livros que ninguém procurava e que estavam ali esperando uma pessoa suficientemente distraída para encontrá-los.

A economia tem uma explicação perfeitamente razoável para o desaparecimento de uma livraria daquele tamanho. A concorrência do comércio eletrônico, as transformações no mercado editorial, os custos, a queda de demanda e a própria dificuldade de manter uma operação desse porte ajudam a explicar o processo. A Folha de S.Paulo registrou, à época da falência, que o varejo on-line havia adquirido enorme importância e que a Cultura enfrentara dificuldades para competir nesse novo ambiente.

Tudo isso faz sentido.

O que não faz tanto sentido é a sensação de que perdemos alguma coisa que não cabe num balanço financeiro.

Talvez seja essa a dificuldade de viver numa época em que quase tudo precisa provar sua utilidade. Rafael estava folheando mais um livro de Tolstói numa livraria vizinha quando sugeri que ele levasse alguma coisa de Orhan Pamuk.

Ele olhou para mim com aquela expressão de quem está disposto a aceitar uma recomendação, embora ainda esteja pensando em quantos russos precisa ler antes de chegar aos turcos.

Não falei para ele sobre Pamuk. Mas falo aqui.

Orhan Pamuk nasceu em Istambul, em 1952, estudou arquitetura antes de abandonar o curso e dedicar-se à literatura. Recebeu o Nobel de Literatura em 2006, com uma justificativa que dizia muito sobre sua obra: a Academia Sueca destacou sua busca pela alma melancólica de sua cidade natal e os símbolos que encontrou para representar o choque e o entrelaçamento entre culturas.

A primeira coisa que me ocorre quando penso em Pamuk é Istambul.

Depois vêm a identidade, a memória, o Ocidente, o Oriente, a religião, a modernização, a tradição, os personagens que passam boa parte do tempo tentando descobrir quem são enquanto suspeitam que talvez tenham sido outras pessoas antes de começar o romance.

Pamuk possui uma obsessão interessante: a identidade humana parece muito menos sólida do que gostamos de imaginar.

Ele próprio já explicou que não acredita em essências fixas da personalidade. Para ele, mudamos constantemente e carregamos dentro de nós personagens, tensões e possibilidades diferentes. Essa instabilidade aparece em romances como O livro negro, Meu nome é Vermelho e Neve, nos quais as fronteiras entre identidade, cultura, memória e representação ficam sempre um pouco embaralhadas.

A única coisa que falei para Rafael foi de uma impressão que tenho quando leio Pamuk. Existe nos seus livros uma espécie de desprezo pela humanidade.

Rafael me perguntou se eu realmente achava isso.

Talvez “desprezo” seja uma palavra forte demais. Depois de pensar um pouco, eu diria que Pamuk possui uma desconfiança muito profunda em relação aos seres humanos. Ele observa nossas convicções com uma ironia persistente. Pessoas acreditam em coisas, defendem ideias, amam, traem, matam, rezam, fazem política, inventam histórias sobre si mesmas e, no fim, frequentemente descobrem que não conheciam tão bem os motivos que as levaram a fazer tudo aquilo.

Pamuk parece gostar desse momento. O instante em que uma pessoa deixa de coincidir com a imagem que construiu de si mesma. Acho que era isso que eu estava chamando de desprezo. Só que existe uma diferença importante. O desprezo encerra a conversa. O ceticismo de Pamuk continua perguntando.

Ele desconfia do homem e, ainda assim, dedica centenas de páginas a tentar compreendê-lo. Isso muda tudo.

Na verdade, Pamuk parece possuir uma espécie de compaixão desconfiada. Ele não acredita facilmente nas explicações que os personagens oferecem sobre si mesmos, mas continua interessado neles. Em sua conferência do Nobel, afirmou que a literatura nasce também do esforço de imaginar o outro, de entrar na experiência de alguém diferente de nós. Para ele, o romance depende dessa tentativa de compreender outras pessoas, inclusive aquelas que nos parecem estranhas.

É uma posição curiosa.

Penso que seja possível desconfiar profundamente da humanidade e, justamente por isso, tentar conhecê-la melhor. Pamuk faz isso com uma paciência quase oriental. Ele não parece interessado em absolver seus personagens. Tampouco precisa condená-los. Coloca-os diante de suas próprias contradições e espera.

O leitor que tire suas conclusões.

Isso aparece de maneira extraordinária em Meu Nome é Vermelho. O romance se passa na Istambul do século XVI e coloca em confronto tradições artísticas islâmicas e influências ocidentais, enquanto transforma questões de arte e identidade em uma história policial e amorosa. A Academia Sueca chamou atenção justamente para essa capacidade de misturar perspectivas, culturas, vozes e formas narrativas.

Pamuk parece desconfiar até mesmo da originalidade.

Um homem pinta. Outro homem olha. Um terceiro interpreta. Cada um acredita estar vendo alguma coisa que os outros não perceberam. 
E é provável que todos estejam enganados.

Essa é uma das coisas que mais gosto nele.

A literatura de Pamuk possui uma espécie de vertigem. Você começa acreditando que está lendo uma história e, de repente, percebe que está lendo sobre a própria possibilidade de contar histórias. Começa com uma cidade e termina pensando sobre identidade. Começa com um crime e termina pensando sobre arte. Começa com um homem e termina pensando sobre todos os homens.

É o tipo de literatura que faz a livraria parecer um lugar ainda mais necessário.

Porque uma livraria serve também para isso: colocar diante de nós um autor que jamais procuraríamos espontaneamente.

A Cultura fazia isso. Eu me lembro de entrar ali algumas vezes sem uma ideia muito clara do que queria. Andava pelas estantes. Folheava livros. Lia contracapas. Pegava um romance, depois outro. Às vezes comprava alguma coisa. Muitas vezes saía de mãos vazias.

Mesmo assim, tinha valido a pena. Há uma espécie de desperdício necessário na vida intelectual. Precisamos perder tempo olhando livros que não vamos comprar. Precisamos começar romances que talvez abandonemos. Precisamos ler autores que nos irritam. Precisamos descobrir que determinada obra não era para nós. Precisamos encontrar um livro por acaso.

A lógica da livraria é incompatível com a lógica da eficiência. É por isso que ela está perdendo espaço.

A internet nos oferece aquilo que procuramos. Os algoritmos aprendem nossos gostos e nos apresentam mais coisas parecidas. Se li Tolstói, aparecem outros russos. Se gosto de Pamuk, surgem autores semelhantes. Se comprei um romance histórico, alguém imediatamente tenta vender outro.

Uma livraria, quando funciona bem, faz o contrário. Ela nos apresenta aquilo que ainda não sabemos que queremos. Era isso que eu tentava fazer com Rafael naquele dia. Ele estava com Tolstói nas mãos. Eu lhe ofereci Pamuk.

Entre um russo e um turco, entre a Avenida Paulista e Istambul, entre o Conjunto Nacional e a antiga Cultura, havia uma conversa sobre livros. E é isso que permanece quando os lugares desaparecem: a indicação de um livro para um amigo.

A livraria fechou. As estantes foram esvaziadas. O espaço mudou. Os livros continuam circulando.

Rafael levou Pamuk. Escolheu também outro Tolstói. Não me lembro mais quais os títulos. O que lembro é de nós dois diante das estantes, procurando alguma coisa que pudesse justificar aquela tarde.

Gosto de acreditar que uma livraria seja isso. Um lugar onde duas pessoas podem procurar juntas aquilo que nenhuma delas sabe exatamente como nomear.

E a tristeza maior provocada pelo fechamento da Cultura venha daí. Perdemos uma loja, claro. Perdemos empregos, uma marca histórica, um endereço conhecido. Perdemos também uma determinada ideia de cidade: a ideia de que ainda existiam lugares onde era possível entrar sem saber o que procurávamos e deixar que os livros decidissem por nós.

No fim, fiquei pensando que talvez Pamuk estivesse certo sobre uma coisa. Nós passamos a vida tentando construir uma identidade, uma história, uma explicação para nós mesmos. Depois descobrimos que tudo é muito mais instável do que parecia. Mudamos de cidade, mudamos de opinião, mudamos de amigos, mudamos de profissão, abandonamos livros, retomamos livros, esquecemos pessoas, reencontramos pessoas.

Até as livrarias mudam de lugar. Ou desaparecem. A única coisa que permanece é aquilo que alguém nos disse numa tarde qualquer:

“Leia este livro.”

E então, muitos anos depois, abrimos o livro. E encontramos ali, entre as páginas, uma parte daquela tarde que julgávamos perdida.

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