A câmera era a minha pedra - um recorte sobre Rogério Ferrari

 


O documentário A câmera era a minha pedra: um recorte sobre Rogério Ferrari foi lançado na quarta-feira, 16 de setembro, às 19 horas, durante a Jornada de Pesquisa e Extensão (Jopex), da UNEB, campus XXI. Produzido pelo Centro de Estudos Euclides Neto (CEEN), dirigido, roteirizado e editado por este que vos escreve, o filme reúne familiares, amigos, companheiros de militância e pessoas que, em diferentes momentos, dividiram com Rogério Ferrari uma conversa, um projeto, uma discordância, uma viagem ou uma esperança. Ao longo de pouco mais de uma hora e meia, esses depoimentos recompõem uma vida que parecia destinada ao movimento: da infância protegida em Ipiaú às viagens pela América Latina, da militância no Partido Comunista às ocupações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, da passagem pela Alemanha Oriental ao trabalho com os zapatistas, palestinos, curdos, ciganos, povos indígenas e outras comunidades condenadas a existir nas margens das imagens oficiais.

O subtítulo anuncia com honestidade os limites do projeto: trata-se de “um recorte”. Nenhum documentário poderia encerrar Rogério Ferrari em uma narrativa definitiva. Sua trajetória atravessa territórios, conflitos e contradições demais para caber em uma biografia linear. Há o menino mimado, caçula da família, que gostava de roupas boas e sonhava ser jogador de futebol; há o jovem que viaja escondido para colher café na Nicarágua; há o militante que se recusa a abandonar os trabalhadores ameaçados pela polícia; há o intelectual que lia Gramsci, Galeano e as lutas da América Latina; há o fotógrafo que se hospedava onde fosse possível, seguia com poucos recursos e retornava trazendo imagens de povos cuja existência quase nunca alcançava os grandes meios de comunicação; há ainda o amigo brincalhão, o tio, o irmão, o companheiro de mesa de bar, o homem difícil, por vezes irredutível, fechado em suas convicções e também capaz de um humor infantil. O filme compreende que um ser humano somente permanece verdadeiro quando suas contradições continuam visíveis.

A estrutura se sustenta sobre uma espécie de arqueologia afetiva. Cada pessoa encontra um fragmento e o retira de sua própria memória. Uma irmã recorda o menino que precisava ser colocado para dormir. Um sobrinho lembra a camisa da Argentina prometida em troca da leitura de Capitães da Areia. Um amigo conserva na lembrança um pedaço do Muro de Berlim trazido por Rogério. Outro rememora o livro que recebeu, as músicas que conheceu, a consciência política que começou a formar. Os trabalhadores do assentamento Carlos Marighella falam daquele homem que chegou para participar da ocupação, enfrentou ameaças e permaneceu quando seria mais seguro partir. Reunidos, esses episódios revelam o modo como uma vida se espalha pelas vidas alheias. Rogério aparece como uma presença incorporada aos gestos, às leituras, às escolhas e até ao vocabulário daqueles que conviveram com ele.

Essa opção determina também a linguagem do documentário. Seria previsível preencher o filme com as fotografias produzidas por Rogério. Havia material suficiente para construir uma sucessão de imagens fortes, atravessadas por guerras, deslocamentos, ocupações e rostos marcados pela violência histórica. A montagem escolhe outro caminho. As intervenções fotográficas são poucas e surgem apenas quando possuem uma função precisa dentro da narrativa. Desde o início, interessava preservar na tela as pessoas que falam: seus rostos, seus silêncios, suas manias, a maneira como procuram uma palavra, desviam os olhos, sorriem diante de uma lembrança ou interrompem a frase porque o corpo já não consegue sustentar o que a memória trouxe.

Essa contenção visual se aproxima, curiosamente, do próprio método de Rogério. Um dos depoimentos recorda que ele era rigoroso na edição de seu trabalho. Podia produzir muitas fotografias, mas selecionava quinze ou vinte para uma exposição, escolhendo aquelas que realmente diziam alguma coisa. O documentário parece herdar esse princípio. A abundância de imagens poderia reduzir os depoentes a vozes ilustrativas, transformando suas falas em simples legendas para as fotografias de um morto. Ao permanecer sobre os rostos, a câmera reconhece que a memória também possui uma fisionomia. O tremor da boca, a respiração alterada, a risada que chega antes da anedota, a pausa de quem tenta não chorar e o esforço quase inútil para reorganizar uma lembrança fazem parte do testemunho. Em alguns momentos, aquilo que vemos no rosto do depoente diz mais do que a frase finalmente pronunciada.

Perceba a delicada inversão. Durante a vida, Rogério colocou sua câmera diante dos outros. Procurou os povos silenciados, entrou em territórios feridos e se aproximou daqueles que as narrativas dominantes preferiam manter distantes ou invisíveis. Agora são os outros que ficam diante da câmera para falar dele. O fotógrafo se ausenta do enquadramento e reaparece disperso nas expressões de quem o conheceu. Sua imagem sobrevive na mudança do rosto de uma irmã quando se recorda da doença; no orgulho dos trabalhadores que atribuem a ele parte da existência do assentamento; na voz do amigo que ainda imagina que Rogério apenas viajou e poderá chegar a qualquer momento.

A poética do título nasce da compreensão da fotografia como enfrentamento. Para Rogério Ferrari, a câmera ocupava o lugar que a pedra ocupa nas mãos do militante guerrilheiro, desarmado, mas com sede de lutar. A pedra pertence aos que chegam ao conflito sem tanques, sem exércitos, sem a autoridade das instituições e sem acesso aos meios capazes de fabricar as versões oficiais da história. Ela possui pouco poder material diante das armas, embora conserve o gesto elementar da recusa. Quem lança uma pedra reconhece a desproporção das forças e, ainda assim, recusa a imobilidade. A câmera de Rogério nasce dessa mesma desigualdade. Fotografar significava entrar na disputa pelo visível, retirar determinadas vidas da sombra e devolver um rosto às populações convertidas em estatística, ameaça ou ruído.

A câmera, entretanto, carrega uma diferença decisiva. A pedra atinge o corpo imediato do adversário; a fotografia procura atingir a consciência de quem ainda pode olhar. Seu campo de combate é a memória. Rogério parecia saber que os vencedores possuem arquivos, emissoras, governos, universidades e sistemas inteiros dedicados a tornar sua versão dos acontecimentos a única versão possível. Aos derrotados resta muitas vezes uma imagem, um depoimento, uma cicatriz, um nome escrito à margem. Fotografar os palestinos, os zapatistas, os ciganos, os curdos, os indígenas e os trabalhadores sem terra significava recolher essas pedras antes que fossem soterradas. Cada fotografia declarava que aquelas pessoas estiveram ali, que possuíam uma história e que ninguém poderia eliminá-las completamente sem antes enfrentar a prova incômoda de sua existência.

Essa concepção afasta o trabalho de Rogério da neutralidade confortável. Seus enquadramentos possuíam lado porque o mundo retratado já estava dividido. O documentário tampouco esconde essa posição. Os depoimentos recordam seu envolvimento com o PCB, com a rádio comunitária, com os movimentos culturais de Ipiaú e com o assentamento Carlos Marighella. Recordam também os conflitos, os rompimentos e sua dificuldade em ceder. Em Rogério, a obstinação que possibilitava permanecer ao lado dos ameaçados era a mesma que, em outras circunstâncias, podia tornar o diálogo quase impossível. O filme não tenta corrigir essa tensão. Permite que ela permaneça como parte do retrato de um homem para quem a consciência política jamais constituiu um adorno intelectual.

A parte final conduz o espectador ao território em que toda militância parece perder sua força. A doença chega de maneira rápida, primeiro confundida com uma dor na coluna, depois revelada como um câncer já acompanhado de metástase. O homem que atravessara fronteiras, vira crianças morrerem na Palestina, enfrentara ameaças no Sul da Bahia e vivera entre povos em luta encontra um inimigo contra o qual a vontade já não basta. Os depoimentos se tornam mais difíceis. As frases se quebram. A câmera permanece. Sua permanência pode parecer cruel, mas retirar-se naquele momento significaria apagar justamente aquilo que o filme decidiu preservar: a marca da perda sobre os vivos.

A morte de Rogério expõe uma das formas mais amargas de nossa impotência. Sabemos organizar movimentos, produzir livros, atravessar continentes, denunciar massacres e imaginar sociedades inteiras. Depois, um corpo adoece e todo o vocabulário da resistência se torna insuficiente. Restam medicamentos, telefonemas, pequenos alimentos preparados com cuidado, esperanças repetidas sem convicção e a presença das pessoas próximas. A história termina sempre devolvendo o militante ao corpo, e o corpo possui derrotas que nenhuma consciência consegue vencer.

A desesperança do documentário nasce ainda de outra constatação. Rogério alcançou reconhecimento fora de sua cidade, publicou livros, expôs seu trabalho e circulou por diferentes países, mas parte de sua dimensão somente foi percebida por muitos depois de sua morte. Essa descoberta tardia acompanha inúmeras trajetórias. Convivemos com pessoas sem compreender o que elas representam, como se a proximidade diminuísse aquilo que fazem. A morte altera a distância. De repente, o irmão, o amigo ou o sujeito que encontrávamos na rua aparece como alguém que tocou realidades muito maiores do que imaginávamos. O reconhecimento chega quando já perdeu a possibilidade de alcançar aquele a quem deveria pertencer.

O documentário encontra sua pequena reserva de esperança longe das cerimônias oficiais. Ela está no assentamento Carlos Marighella, onde as cinzas de Rogério foram lançadas aos pés de um jatobá. Os trabalhadores lembram a fome dos primeiros tempos, a sopa feita com o que aparecia, os despejos, a polícia, o medo e os anos de resistência. Depois mostram uma comunidade em que as crianças frequentam a escola e as famílias conseguem produzir e comer com dignidade. Ali, o gesto político de Rogério alcança uma forma concreta, modesta e incompleta de permanência. O mundo continua desigual, os massacres prosseguem, a Palestina permanece ferida e os pobres ainda precisam lutar por aquilo que deveria lhes pertencer desde o nascimento. Mesmo assim, naquele pedaço de terra, algumas pessoas vivem melhor porque um grupo decidiu não sair.

Esse é o sentido mais profundo da pedra. Ela raramente derruba sozinha o edifício contra o qual é lançada. Às vezes cai antes de chegar ao alvo, perde-se no chão ou é esmagada por forças infinitamente maiores. Seu lançamento, porém, interrompe por um instante a aparência de consentimento. Rogério Ferrari atravessou a vida lançando imagens contra o silêncio. Algumas se perderam, outras ainda aguardam publicação, muitas talvez jamais recebam o reconhecimento merecido. Mas ficaram os livros, os arquivos, as amizades, as consciências que ajudou a formar e as pessoas que hoje possuem terra, alimento e escola. A câmera era a sua pedra. Depois de sua morte, cada pessoa que se recusa a esquecer torna-se também uma maneira de lançá-la outra vez.

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